sábado, 15 de dezembro de 2012

Partida, despedida e recomeço

Aos amigos e amigas: 

Escrevo para dizer que esta é a última vez que escreverei – ao menos aqui, na internet. Cheguei a um ponto tal na minha caminhada, que já não posso mais continuar como vinha caminhando. No interesse da verdade, na busca pelo autoconhecimento, é hoje preciso uma guinada brusca. O mundo é uma roupa que já não me serve mais. Cada vez menos me sinto confortável vivendo em suas cidades, andando sobre suas ruas, frequentando os seus edifícios. De fato, cheguei a um ponto insuportável. Não vejo mais qualquer sentido, valor ou bem em salvar esse mundo. Algo foi crescendo dentro de mim, algo que gritava: liberdade! E o grito tornou-se tão ensurdecedor que mal consigo ouvir meus próprios pensamentos em meio a essa barafunda de carros, televisores e máquinas. Se o mundo não mais me é caro, porque continuar? Por covardia? Por que é mais cômodo assim? Eu só consumo comida, abrigo e livros. Por que então deveria sentir falta de um hipermercado, por exemplo? Ou de um Shopping? Que força é esta que mantém tais necessidades presentes em meu corpo mesmo quando elas não mais existem em minha mente? Já estou completamente cheio de insatisfação, desgosto, raiva e de vontade de revolucionar(-me), de modo que a única coisa que me faltava era a coragem. Não falta mais. Numa cidadezinha litorânea, encontrei um casebre humilde, de madeira, a vinte passos da praia, e estou me mudando para lá. Há nela uma pequena comunidade de pescadores e quilombolas em que darei aula. Não se preocupem; nada me faltará. Pelo contrário, tudo o que realmente me interessa estará a minha disposição: crianças, famílias, trabalhadores, natureza, conversas; numa palavra: a vida, em toda a sua simplicidade e beleza. Quem estiver disposto a me procurar, esqueça a comunicação virtual, porque o celular ficará aqui, nesta mesma mesa em que escrevo, juntamente com o computador; basta seguir o mar. 

Grande abraço a todos! 

(P.S: essa é a carta que escreverei no dia em que decidir abandonar este mundo à sua própria sorte; adiantei-a porque me pareceu muito divertido escrevê-la, mas por ora é apenas um sonho que acalento; uma hora ele há de crescer e se tornar inexorável.)
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