domingo, 9 de dezembro de 2012

Para (nós) pensar(mos) a sociedade, a sociologia e o sociólogo

Para falar de sociedade, sociologia e sociólogos é preciso remeter aos anos de nascimento da sociedade na qual vivemos hoje e da ciência que a procura explicar. Ou seja, a sociologia não é uma ciência abstrata, mas antes o momento teórico de sublimação da sociedade moderna-ocidental-capitalista. Nasce como reflexo consciente de um processo histórico-concreto que criou o mundo tal como hoje o conhecemos. Esta é a sua face ideológica – cujo reconhecimento, aliás, é teimosamente negado pelos sociólogos, os quais preferem ver em sua ciência uma ciência geral de uma sociedade geral.

Tendo a sociedade contemporânea uma essência ou uma base econômica (o capitalismo), não à toa os precursores dos sociólogos pioneiros eram economistas políticos – aqueles mesmos aos quais Marx faz a crítica. Condorcert e Saint-Simon eram economistas. Sob o horizonte intelectual destes, Comte escreveu Curso de Sociologia Positiva, inaugurando formalmente a ciência que seria desenvolvida por Durkheim, Weber, Pareto, Ward, Giddings e outros. Também não é à toa que a sociologia nasça como uma ciência positiva, em oposição à herança destrutiva da dialética hegeliana e do romantismo alemão. Não esqueçamos, também, do evolucionismo spenceriano e da marca persistente que a sua doutrina imprimiu à ciência nascente.

Assim, a sociologia é a ciência do progresso, da indústria, da civilização ocidental em expansão. Nasce sob o signo do poder mundano, da fé absoluta na engenhosidade humana, da crença no sentido positivo e não-contraditório do progresso. Mas crença e realidade não necessariamente coincidem, e a face mais obscura e assustadora do progresso industrial-ocidental exibiu cada vez mais inegavelmente sua natureza monstruosa. Não obstante, a visão de mundo dominante não reconhece a dialética entre produção da riqueza e produção da miséria (seja em sentido estritamente econômico, seja em sentido humano-ontológico). A sociologia é chamada então para reformar o sistema que ameaça desabar sobre o peso das suas próprias contradições. A máxima de Comte, “saber para prever, prever para poder”, expressa justamente essa motivação alojada no coração da própria sociologia.

Neste ponto de desenvolvimento da ideologia industrialista-cientificista moderna sociedade e natureza, a cultura e o seu meio natural, igualam-se: ambas são mecanismos autônomos e cegos que podem ser melhorados através da ciência e da indústria humanas. Esta crença, a ciência natural empresta de bom grado à ciência da sociedade. A luta entre/dos homens e mulheres e o contínuo esforço para melhorar suas condições de vida e para descobrir sua natureza e seu lugar no mundo; seus erros e acertos; seus dramas, tragédias, comédias e epopeias, são solenemente ignorados.

A sociologia serve, assim, como justificação de uma ordem historicamente dada mas que é concebida como resultado de forças que não imanam do próprio ser humano; dentro deste quadro, resta apenas à sociologia definir-se como uma espécie de engenharia social (lembremos do termo física social com o qual Comte quis batizar sua ciência): sua missão é recolher e consertar os refugos e as má-funções que sobram e que decorrem do progresso social.

Não é correto que a sociologia ainda pense assim. Estou aqui tão-somente esboçando as características gerais da sociologia em seus primórdios. De lá para cá, muita água rolou por debaixo da ponte: o progresso se mostrou um conceito falho, o próprio desenvolvimento positivo deste mundo promissor mostrou-se mais incerto e truncado do que de início se acreditava, e o mundo não é mais o mesmo daquele da belle epoque; a sociologia passou por crises, reelaborou conceitos e teorias, inovou problemas e objetivos, reconheceu e expurgou alguns de seus problemas mais candentes (não sem uma ajudinha de outros campos do saber, como os da filosofia e da arte).

Mas é forçoso reconhecer que a sociologia, assim como a ciência e o saber de modo geral, não pode se libertar totalmente de seus demônios enquanto vigorar a ordem histórico-social que lhe deu origem. Muitos dos axiomas, indemonstráveis porém aceitos por princípio, presentes em seu nascimento e evolução ainda alimentam, de um modo ou de outro, as suas raízes. Conhecer a sociedade é hoje, talvez mais do que ontem, uma tarefa técnica, realizada com metros, gráficos, fórmulas, formulários e modelos alimentados por computador. Os sociólogos não são mais sábios, intelectuais, pensadores; são antes especialistas, analistas, estatísticos sociais. Os grandes voos da autoconsciência humana foram substituídos pela firmeza rasa mas pouco abrangente e pouco profunda do empirismo, dos dados imediatamente acessíveis à observação.

Não que nada disso tenha o seu valor. Mas esse valor torna-se o seu oposto quando serve apenas à reiteração do que já existe, do ser, do que é. O empirismo e a ciência moderna, por si sós, não podem postular as questões maiores para o ser social: o que deve ser, o devir-ser, o que queremos fazer de nós. Embora a sociologia e as ciências sociais e humanas de modo geral tenham nascido com pretensões menos burocráticas e menos academicistas, uma vez que preocupavam-se com o sentido da história, a essência da cultura, os tipos de sociedade, etc., foram tornando-se, por uma série de razões concretas ligadas às necessidades de desenvolvimento do sistema capitalista, cada vez mais institucionalizadas, domesticadas, confinadas às fronteiras da academia e da burocracia. Weber estava certo quando via na burocracia e no desencantamento do mundo os corolários da racionalização crescente da vida.

Está aí um dos problemas fulcrais da sociologia: a perda ou a recusa da utopia, tal como a concebia Mannheim, e a autolimitação dentro dos estreitos limites da ideologia; isto é: a aceitação acrítica do dado, e a recusa de pensar o não-dado, o imponderável, o desejável. A sociologia se impregnou das “verdades” do mundo contemporâneo, e não me parece ainda disposta a questionar tais verdades: tornou-se fria, calculista, mecânica, burocratizada, especializada, academicista.

Mas não nos enganemos: não precisamos da sociologia para pensar um novo mundo, nem para justificar a crença na possibilidade deste novo mundo; não precisamos sustentar um postulado político sobre uma base científica: isto seria basear a nossa crítica ao mundo em que vivemos a partir dos princípios deste próprio mundo. Postular a necessidade e a possibilidade da socialização dos meios de produção não implica fazê-las passar por verdades científicas. A ciência não tem todas as respostas. Mas, por outro lado, é certo que libertar a sociologia e as ciências sociais/humanas/naturais dos constrangimentos da sociedade historicamente definida pelo poder do capital é também parte e momento dessa luta por uma transformação radical; neste sentido, a sociologia é ao mesmo tempo inimiga e aliada.

Neste dia do sociólogo (ou seria da sociologia?) devemos deixar as comemorações para depois, e lembrar os descaminhos e desventuras da empresa científica voltada à explicação e à compreensão da sociedade; devemos questionar o seu lugar no quadro do conhecimento humano, sua finalidade e a sua natureza; devemos indagar sobre o nosso papel enquanto sociólogos. Além disso, problematizar a sociologia passa pelo questionamento da própria sociedade contemporânea. Afinal, ser sociólogo é produzir e publicar um determinado número de artigos em revistas acadêmicas especializadas de tanto em tanto tempo? Ser sociólogo é competir entre pares por bolsas, status e privilégios acadêmicos? É reproduzir inconscientemente axiomas ideológicos cujo fim é justificar e perpetuar uma certa ordem social? O que é o olhar sociológico? É olhar desinteressadamente para a sociedade como um dado externo? É olhar para ela a partir de seu gabinete e do alto dos muros da academia? E cadê a tal da imaginação sociológica? Como educar os sociólogos que virão? Como lutar contra a institucionalização, a especialização e a burocratização? Como lutar contra a ingerência do interesse privado-econômico-capitalista sobre as preocupações sociológicas? Como democratizar o conhecimento sociológico? Como fazer deste conhecimento uma construção coletiva, de via-dupla? Como lutar contra o elitismo e o pedantismo e fazer da sociologia uma arma nas mãos do povo? Como dialogar com o povo, ou seja, com o seu objeto? Ou melhor: como fazer do objeto, sujeito, e do sujeito, objeto?

A sociologia não é uma especialidade do saber, mas uma parte da totalidade complexa que é o saber, duas coisas muito distintas. Assim como a sociologia é um momento de algo maior, o sociólogo não é apenas sociólogo: é um ser humano em toda a sua complexidade. Ser sociólogo não é cumprir formalidades, ritos e protocolos: é ser lutador, artista, político, filósofo, crítico; tudo isso ao mesmo tempo e muito mais.
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