quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O umbigo e o buraco do mundo: a caminho do fim?

Nos últimos 150 anos criamos um mundo feito de bancos, carros, chaminés, cercas, mísseis, concreto, aço. Enquanto a economia vai para o buraco, as pessoas perdem tudo; têm suas energias e esperanças sugadas até o tutano para satisfazer um sistema financeiro que mais parece um buraco negro, devorando tudo ao seu redor. A superstição popular dizia que o LHC, quando posto em funcionamento, criaria um buraco negro que engoliria a Terra toda; seria este o nosso fim, a ciência seria a nossa perdição, tal como na bíblia: quem comer da árvore do conhecimento descobrirá suas vergonhas, perderá a inocência e decairá do paraíso. Bem, não é a primeira vez que criamos um buraco negro, feito de dinheiro, dinheiro virtual, abstração de trabalho, sangue, suor e lágrimas; mas desta vez, intuitivamente, algo me diz que será muito difícil conter-lhe a gula mortal. Mais um pecado para entrar na conta dos pecados humanos. Enquanto isso, enquanto o fim não vem, a vida, o mundo, com uma obstinada insistência continua tal e qual os deixamos, em uma indiferença exasperante. Cegos em direção ao precipício acreditando ir de encontro ao mar. As cidades se apinham de gente, empoleiradas em espaços cada vez mais cinzas porém mais iluminados. Benesses do progresso. Um progresso que nós criamos, e mesmo assim não nos sentimos confortáveis nele. Passamos por baratas tontas, perdidas entre escombros. Quando muito, gostamos de comparar a sofisticação e a complexidade organizacional de uma grande metrópole à de um formigueiro. Cada um tem uma função; todos trabalham juntos e cooperam em favor do formigueiro; precisamos apenas azeitar a máquina, e tudo ficará bem. Contudo, para mim, parecemos baratas tontas. Só que a fé, por definição incondicional, tem limites, tem condições. A violência, a miséria e a incerteza esfregam na nossa cara essa divergência entre fé e realidade. Por sorte há sucedâneos, há escapatórias, se bem que todas individuais. A felicidade está em um amplo e potente 4X4. Deixe que o mundo se acabe lá fora. Dirija um Ford, um GM, um Volkswagen. Destaque-se. Eleve-se da multidão, da massa disforme. Conquiste o mundo. O sonho americano não morreu. Quem não quer ser classe média e morar num condomínio fechado? E assim as chaminés continuam fumegando, poluindo um dos únicos bens ainda intocados pela mão-de-Midas do capitalismo, esfalfando carne, produzindo o sonho natimorto que insiste em permanecer vivo nas consciências de quem lhe é devoto. Não se pode comer ouro. As cercas protegem os espaços privados, separa-os do público, cada vez mais exíguo. Não há um único rincão, por mais recôndito que seja, que não ostente, à entrada, a palavra mágica, o abre-te, sésamo: não entre, propriedade privada. Separam povos, famílias, condições de vida, oportunidades. A esperança circunscrita entre fronteiras. As nações são propriedade privada da classe burguesa e, portanto, se cercam: povos indesejados, permaneçam fora, entrem apenas para ser explorados; em épocas de vacas gordas precisamos de vocês. A pobreza é o mais lucrativo dos negócios. Insensato. Este mundo tem dono, e ele não é você ou eu, meros trabalhadores empoderados pelo "poder" do voto. Esse dono não abrirá mão jamais da sua posição de dono, e a sua dominância é que está nos levando perigosamente para perto do "ponto sem volta" do buraco negro, para perto da beirada do precipício. Nossa obrigação é tomar o mundo de volta, e com isso salvar o próprio mundo e os seres que nele habitam.
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