quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Mitologia e autoridade: as religiões grega e judaico-cristã

É muito curioso o fato de que o mito acerca da gênese do conhecimento humano na mitologia grega e nas religiões judaica e cristã seja muito parecido em ambas. Em especial no que toca ao aspecto negativo desse conhecimento: a Bíblia nos conta que os humanos foram condenados a tirar o pão da terra com seu próprio suor porque atreveram-se, Adão e Eva, a comer do fruto da sabedoria, ou conhecimento; a mitologia grega nos conta que, por terem aceito a centelha do fogo divino das mãos de Prometeu, os humanos foram condenados com a peste, a doença e a morte, trazidas por Pandora. Em ambos os casos, a punição lhes dada por Deus ou pelos deuses está ligada à ideia do trabalho, e o trabalho, na medida que significa dominação do mundo, implica também em conhecimento do mundo. Porque o fogo que Prometeu dá aos homens não significa apenas cozinhar alimentos, aquecer-se e espantar as feras da noite; significa, antes de tudo, produção: deu ao homem a capacidade de produzir o bronze, o ferro, de criar a indústria. Ao ter a ousadia de tomar o mundo, feito à imagem e semelhança de deus, e imprimir nele a sua própria face humana, os homens foram condenados à mundanidade, isto é, perderam sua essência divina, tornaram-se mortais e, com a mortalidade, sujeitos a todas as vicissitudes da matéria: a finitude, a imperfeição, isto é, a dor, a morte, o sofrimento. É assim que se explica, mitologicamente, o surgimento do mundo dos homens (começo a achar insuportável usar a palavra “homens” para me referir à humanidade). Seria preciso um conhecimento que eu não tenho para afirmar que esse padrão se reproduz em outras religiões e em outros sistemas de crenças mitológicos. Mesmo ficando apenas na religião da civilização helênica e da judaico-cristã podemos extrair uma conclusão muito elucidativa. O que está implícito nesses mitos é a ideia de uma relação paterna entre os deuses e os humanos: Deus-pai, o ser criador, homem, o ser criado. Há aí, como em toda relação de paternidade (ao menos as historicamente existentes), uma relação de dominação, de poder, de autoridade, entre o pai e o filho. A imagem de Adão e Eva no paraíso, por exemplo, vivendo alegre e inocentemente, sem preocupações e autoconsciência algumas, remete à imagem de uma criança. Foi por desafiar a autoridade da divindade-paterna, ao procurar pensar e viver por sua própria conta, que os humanos foram, digamos, deserdados pelos deuses. Nesse sentido, há nesses mitos a ideia, inconsciente, do filho que se rebela e do pai que lhe pune por isto. Todas as graças do pai são perdidas, e o filho é obrigado a viver por conta própria, com todo o sofrimento que isso traz. Ao termos em mente que a noção de autoridade política nasce a partir da noção de autoridade paterna, o recado dado por essas religiões é muito claro: não se atreva a desafiar a autoridade; veja as consequências que esse ato de rebeldia implica. E essa autoridade é, antes de tudo, uma autoridade política. Toda religião é uma cosmogonia e, como tal, concebe o mundo como uma ordem fechada, dada de uma vez para todo o sempre. Ela não apenas busca explicar, através de uma narrativa mítica, o nascimento e a ordenação do mundo, mas também, e quiçá sobretudo, busca justificar, legitimar e institucionalizar estaticamente essa ordem. O mito do nascimento do mundo, tanto na Antiguidade grega quanto no Velho Testamento judaico-cristão, já traz no bojo essa justificativa, legitimação e defesa da ordem do mundo, o que equivale a dizer: da ordem da sociedade, de suas classes e estruturas.
Postar um comentário