quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A infância e a indústria cultural

Estava zapeando os canais aleatoriamente enquanto saboreava a minha janta, e eis que encontro um filme clássico: Independence Day. Um daqueles filmes recheados de explosões e efeitos visuais em que os EUA salvam a mundo, tudo com muito humor e espirituosidade. Neste caso, o inimigo era o terrorismo intergalático. Isso faz a gente pensar que, afinal, não foi tão ruim assim que os EUA tenham bombardeado camponeses nas florestas tropicais, beduínos no deserto, comunistas nas cidades; nunca se sabe quando precisaremos bombardear um outro planeta! É bom que estejamos preparados. Venho aqui comentar semelhante bobagem porque Independence Day não é, ou não era, para mim um filme qualquer: tal como o Predador, Alien, Rambo, Top Gun, entre outros, trata-se de um filme que marcou profundamente a minha infância. Tudo o que envolvia explosões, tiroteios, sangue, pancadarias, eu fruía com ânsia. Não pela violência em si, que me parecia muito divertida, mas pelos valores por trás dela: a coragem, a honra, a altivez. Cresci imaginando que a face do inimigo era moura, e que a sua língua era um português carregado de (um cômico) sotaque russo; que ele se escondia nas selvas da América Central, e usava turbante e barba cheia; que era mau, muito mau, e que sua única missão e desejo era destruir nosso mundo livre. Eu não fazia ideia, evidentemente, o que significa o assim-chamado mundo livre, ou o que é um muçulmano ou um comunista. Mas a imagem e o sentimento ficaram profundamente impressos em meu ser. Queria ser piloto de caça ou membro de elite dos fuzileiros navais. Hollywood me criou, me ensinou valores, e ajudou a moldar meu caráter. Hoje carrego essas marcas, esse trauma de infância que nem Freud conseguiria explicar. Luto a todo momento para desconstruir o modo como Hollywood e a indústria cultura me fizeram ver e entender o mundo. Luto porque não acredito mais que o dinheiro tenha algum valor, não acredito que exista um único padrão de beleza, não acredito que um comportamento mesquinho e egocêntrico me traga mais amigos, não acredito num deus branco, de olhos azuis e sorriso impecável, não acredito que os comunistas comam criancinha na janta, nem que os muçulmanos sejam monomaníacos alucinados. Mas por mais que eu lute e desconstrua tudo o que o mundo me ensinou; por mais que seja possível extirpar cada traço que essa doença mental deixou em meu ser, nada vai trazer de volta o tempo em que não apenas a vivenciei, como me cri saudável. Então, eu peço, de todo coração: se você tem uma criança pequena, em estado de desabrochar para o mundo, ansiosa por conhecer e experimentar, não tenha TV em casa, não escute músicas da moda, não lhe dê brinquedos caros e ultratecnológicos; leia-lhe livros desde o berço; leve-a para acampar ou pescar; ajude-a a fazer carrinhos de rolimã e pipas; ensine-lhe brincadeiras e lendas antigas; leve-a aos lugares mais diversos possíveis para que faça amigos de todas as cores e de todos os sabores; compre-lhe doces caseiros em bares e padarias; e nunca, em hipótese alguma, lhe obrigue a fazer coisas como cantar o hino nacional, jurar a bandeira, rezar o pai nosso, pedir benção, agradecer a deus, rebaixar-se diante de um superior hierárquico, e assim por diante.
Postar um comentário