segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A Ideologia Alemã e o comunismo

“Na sociedade comunista, porém, onde cada indivíduo pode aperfeiçoar-se no campo que lhe aprouver, não tendo por isso uma esfera de atividade exclusiva é a sociedade que regula a produção geral e me possibilita fazer hoje uma coisa, amanhã outra, caçar de manhã, pescar à tarde, pastorear a noite, fazer crítica depois da refeição, e tudo isto a meu bel-prazer, sem por isso me tornar exclusivamente caçador, pescador ou crítico." (MARX; ENGELS, A Ideologia Alemã)

Foi o tempo em que eu acreditei que essa passagem resumia perfeitamente o que seria as sociedades futuras, baseadas no modo de produção comunista. Mas como, tal como Marx, eu não sou marxista, dou-me ao luxo de questioná-la hoje. Caçar de manhã, percar à tarde, pastorear à noite, fazer crítica depois da refeição, parece-me mais uma visão inspiradora (e apenas isso) do que o esboço de uma futura realidade social. Essa é uma entre tantas passagens em que Marx se entrega ao romantismo, à imaginação utópica. E as próprias atividades que ele elenca (caçar, pescar, pastorear) são, ele o sabia e, ademais, é bastante óbvio, atividades econômicas de um mundo passado, pré-capitalista, que não pode ser usado para ilustrar a realidade de uma sociedade pós-capitalista. Um grande erro do marxismo é tomar ao pé da letra essa visão messiânica, romântica, bucólica. Marx e Engels deixaram de bom grado a Ideologia Alemã à crítica roedora dos ratos. Há nela, certamente, hipóteses muito interessantes, profícuas e até hoje não superadas de como ler a História. Mas nem todas elas devem ser tomadas literalmente ou sob o rótulo científico. Eu não condeno os voos utópicos de Marx. Ao contrário, sou grande fã desse tipo de posicionamento diante do mundo. Erram os marxistas que tomam os escritos marxianos como máximas infalíveis escritas em pedra. Mas não digo que é impossível reduzir a carga de trabalho dos trabalhadores (isto é, de todos nós, homens e mulheres) de forma a permitir um maior tempo livre, voltado ao ócio criativo. Mas, neste sentido, ficamos apenas com a "crítica após às refeições", porque caçar, pescar e pastorear não me parece algo muito edificante face a tudo o que milênios de cultura nos oferecem. Isso em relação a todo trabalho, mesmo quando feito em condições livres, não-alienadas. O que quero dizer é que trabalhar o dia todo, mesmo que em atividades diferentes ao longo de um dia, não resolve completamente o problema da alienação. Mesmo assumindo que Marx estava sendo metafórico, e que o que ele queria dizer é que no comunismo, sendo a produção social voltada para fins humanos e não-reificados, os trabalhadores organizados é que decidiram os fins e os meios de seu trabalho, de modo a cada um poder trabalhar no que lhe convém; mesmo assim, o problema, para mim, se mantém. O que é realmente decisivo é que tipo de mundo queremos para colocar no lugar do mundo capitalista. Se o comunismo for pensado em termos de produtividade absoluta, industrialismo, alto padrão de consumo, continuaremos tão escravizados como somos no capitalismo. Imagine quanto trabalho seria necessário para socializar o padrão de consumo dos norte-americanos! E quantos planetas Terra precisaríamos! Só sobraria mesmo tempo para a crítica após às refeições. Mas como eu disse: a passagem acima é uma visão linda e inspiradora. Não há necessidade que seja verdadeira ou exequível. Trata-se de um desejo humano, profundo. Para torná-lo realidade, enfrentaremos questões infinitamente mais complexas do que a simples socialização dos meios de produção. Com quais valores e finalidades produziremos? É esta a questão.
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