segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Resposta ao artigo de Pondé, publicado na Folha de hoje

A Folha de São Paulo de hoje trouxe, no caderno Ilustrada (leia o artigo aqui), um exemplo bastante eloquente de como pensa a elite conservadora deste país. Luiz Felipe Pondé mostra-se indignado com o que ele chama de “indigência intelectual”, “rara inteligência”, “hegemônica banalidade”, e outras tantas expressões engenhosas saídas do elevado intelecto do articulista. Ao demonstrar a sua visão pouco lisonjeira das pessoas comuns, Pondé deixa transparecer não apenas sua boçalidade e arrogância, características típicas da intelligentsia conservadora brasileira, mas também os pressupostos ideológicos que conformam sua visão de mundo. Com suas bravatas, tudo o que Pondé consegue fazer é se lamentar pelo estado de “indigência intelectual” das pessoas. Por detrás das palavras pomposas, seu argumento se resume a isto: “vocês são burros, eu sou inteligente”. Todos que não raciocinam segundo seus padrões, tidos obviamente em alta conta pelo articulista, são taxados de estúpidos e infantis. Mas quais são os padrões segundo os quais raciona Pondé?

Lendo nas entrelinhas, pode-se ver claramente não apenas a desonestidade intelectual do articulista, mas também sua ignorância em relação aos seus próprios preconceitos. Estão todos lá, sobretudo os mais vazios e vulgares: “índio quer dinheiro”; “índio venderia a floresta amazônica se pudesse”; “índio deveria parar de reclamar e trabalhar como todo mundo”; “índio está muito mal acostumado com as benesses do Estado”, e por aí vai. Se eu desconhecesse as condições de vida terríveis em que sobrevivem os milhares de índios brasileiros, especialmente os Guarani-Kaiowá, remanescentes de um verdadeiro etnocídio (não, Pondé, as relações entre diferentes culturas não são como as de um vírus, ou seja, “de contágio, contaminação e assimilação”, mas sobretudo de subjugação, opressão, destruição; parece-me óbvio que os indígenas latino americanos não foram assimilados, mas exterminados), eu chegaria a acreditar que a vida desse povo é um mar de rosas. Talvez Pondé fique espantado em saber disso, mas eles não querem comprar Macintoshs e iPads para usufruir do estilo de vida ocidental, nem para visitar as redes sociais e ler artigos esclarecedores como os de Pondé. Os índios querem apenas um pedaço de terra para viver e seguir preservando suas tradições milenares. Para Pondé, recursar-se a abraçar o estilo de vida ocidental-capitalista deve ser um escândalo. 

Pondé é um partidário do progresso e do capitalismo. Acredita na superioridade da cultura ocidental, na moral do trabalho e na responsabilidade pessoal. Pondé critica Rousseau e Marx por atrasarem a humanidade ao propagar ideias e ideais míticos, mas ele próprio parece não se dar conta de que suas próprias crenças são tão míticas quanto. O otimismo que Pondé põe no progresso e no modo de vida moderno chega a ser risível. Os índios, segundo suas palavras, vivem um “modo de vida do neolítico”, e qualquer apoio a esse modo de vida é claramente um “atestado de indigência mental”. Parece que, para Pondé, computadores, iPads e redes sociais são grandes exemplos da superioridade desse modo de vida – ainda que essas ferramentas estejam, segundo Pondé, sendo usadas por mentecaptos. O que Pondé esquece de dizer é que não é só de computadores, iPads e tecnologias informacionais que vive o ser humano moderno. Talvez ele não se interesse por esse tipo de notícia, mas a fabricação dessas tecnologias envolve manter um contingente enorme de seres humanos em condições de vida quase neolíticas, trabalhando algo em torno de 16 horas por dia, sob condições inumanas e em troca de um pagamento de fome. Mas até aí tudo bem, já que a miséria desse trabalhador, que não é folgado como o indígena, serve para sustentar o modo de vida de ocidentais civilizados como Pondé. 

O problema é quando grupos incivilizados como os dos índios Guarani-Kaiowá entravam o progresso que tanta agrada ao Sr. Pondé. Por razões óbvias (desconhecidas apenas por Pondé), é ocioso expor aqui a situação crítica e ultrajante em que se encontram os indígenas brasileiros, sobretudo aqueles mais alcançados e esmagados pela civilização tão cara a Pondé, como é o caso dos Guarani-Kaiowá. Não vamos mencionar, portanto, o modo como suas terras têm sido griladas, e como a "Justiça" sanciona de facto essa grilagem; nem vamos mencionar a violência, física e psicológica, que sofrem, tanto pelo Estado quanto pelos fazendeiros, quando resolvem se organizar para lutar pelos seus direitos; nem a exploração a que são submetidos nas lavouras do agronegócio, ou a miséria que os espera quando, expulsos de suas terras, vão engrossar as favelas das cidades brasileiras. Notemos apenas que Pondé se engana quando diz que esse povo não quer trabalhar e quer viver comprando Macintoshes às custas dos nossos impostos. No caso dos Guarani-Kaiowá, como não têm mais terra onde plantar nem florestas nas quais caçar, são obrigados a trabalharem cortando a cana das fazendas que avançam sobre seus parcos territórios. Portanto, não se esqueça, Pondé, que o etanol com que você abastece seu carro último-modelo tem não apenas suor indígena, mas sangue e lágrimas também. 

A verdade é que mesmo a mais "medíocre" das pessoas (segundo a concepção que faz Pondé das pessoas), que “acha que índio é lindo e vítima da sociedade”, é capaz, diferentemente de Pondé, de sentir empatia e compaixão pela situação e pela luta de um povo massacrado que perdeu simplesmente tudo, menos a dignidade (algo que Pondé não sabe o que é). O que indigna Pondé é que um número enorme de pessoas “mentalmente indigentes” não seguiram o pensamento (ou a falta dele) dominante neste país, e, mesmo não sabendo como ajudar um povo que sofre, procuraram demonstrar sua solidariedade; procuraram demonstrar que não pensam como “intelectuais” como Pondé, Azevedo, Mainardi e consortes; mostraram que não acreditam que os indígenas sejam incivilizados que querem viver às custas dos impostos de “trabalhadores” como Pondé, mas que são cidadãos brasileiros que buscam apenas seus direitos mais básicos. Pondé é tão ignorante e preconceituoso que não consegue compreender questões e fatos simples como esses. Em suma, seu artigo deixa transparecer uma dimensão essencial do pensamento conservador/elitista brasileiro: a aversão que seus ideólogos têm em relação a todo e qualquer movimento popular. Pondé demonstra um absoluto desdém por qualquer manifestação de massa que não seja a pura aceitação passiva dos cânones do pensamento dominante; isto é, qualquer movimento intelectual ou político de trabalhadores e de pessoas comuns é visto como "mediocridade", "banalidade", "indigência mental". 

Mas numa coisa Pondé tem razão: os computadores e as redes sociais são grandes avanços da humanidade. Ao menos assim, nós, medíocres indigentes intelectuais, podemos trocar informações e debater sobre as questões que nos interessam, como a opressão contra os Guarani-Kaiowá, assim como organizar ações de luta, sem termos de nos valer exclusivamente das ideias mesquinhas e estultas dos “formadores de opinião” e das mídias tradicionais, como Pondé e a Folha de São Paulo.
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