segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Questão de lógica: definição de sistema

Para entender as razões pelas quais certos países foram (e são, de modo geral) mais afetados do que outros pela crise financeira mundial, talvez seja profícuo pensar a questão em termos de imagem. É preciso pensar as relações econômicas entre os países não como uma rede indistinta e difusa entre elementos mais ou menos idênticos, mas sim como uma rede estruturada, na qual cada um de seus elementos (os países componentes) agem de modo diferenciado e influem assimetricamente sobre as características da rede, sobretudo nas partes em que suas relações são mais diretas. Portanto, é incorreto pensar a economia mundial como um sistema onde tudo se relaciona com tudo, e onde cada elemento influencia todos os outros e é por eles influenciados. Essa é uma imagem muito abstrata que não condiz com a realidade. No plano concreto, cada país possui características particulares e tais características são, por assim dizer, impressas nos fios que ligam este país aos demais. As relações entre países, do ponto de vista de cada país e de cada setor da economia mundial (um bloco de livre comércio, acordos bilaterais, etc.), são desiguais. Portanto, embora em última instância cada país esteja articulado com todos os outros países dentro de uma totalidade, eles se articulam de forma menos ou mais imediata não à economia mundial como um todo, mas a determinado país ou grupo de países em especial. Nesse sentido, é de esperar que a dinâmica ou processos econômicas (comerciais, fluxo de capitais, etc.) que estão a todo momento percorrendo a rede econômica mundial, seja positivamente (ou seja, nos momentos normais do ciclo) seja negativamente (por exemplo, num momento de crise econômica), se façam desigualmente. Uma imagem que talvez ajude a compreender melhor esse entendimento pode ser tirada da física: depois da teoria da relatividade geral de Einstein, o espaço e o tempo passaram a ser entendidos como espaço-tempo, ou seja, não como dimensões separadas mas unidas. O espaço-tempo é uma teia ou rede que envolve os corpos físicos; devido às características particulares de cada corpo, a gravidade exerce pressão diferente sobre cada um deles; os corpos com mais massa atraem os com menor massa, e assim por diante. Assim, a relação que os planetas do sistema solar mantêm entre si e entre o sistema como um todo; as relações que o sistema solar mantém com os demais corpos celestes da galáxia; as relações que a nossa galáxia mantém com outras galáxias e com o universo como um todo; todas essas relações, embora postas numa unidade total, se dão assimétrica e desigualmente dependendo do ponto do sistema-rede a partir do qual se olha e da distância até onde se procura olhar. A relação que se estabelece entre os países no sistema econômica mundial pode ser pensada mais ou menos da mesma maneira. Ou seja, embora o universo, pensado de uma forma abstrata, seja um sistema onde todos seus elementos estão interrelacionados, de tal modo que todos eles agem e reagem sobre si mesmo e sobre a totalidade do universo, ao deixarmos de lado esse plano abstrato e entrarmos no plano das relações concretas veremos que cada particularidade age e se relaciona diferentemente, sendo que as relações mais diretas que cada uma estabelece criam totalidade menores, com suas próprias características particulares que não podem ser apreendidas imediatamente da análise do todo. Visualizado o sistema dessa maneira, descobrimos que todo sistema é multidimensional, e cada dimensão implica em processos e determinações próprias que só em última instância podem ser deduzidos da totalidade. Todo sistema constitui-se, portanto, de singularidades (no caso da economia mundial, os países), particularidades (as relações diretas entre os países, como blocos de livre-comércio). Juntas, essas dimensões compõem a dimensão total ou universal de um sistema. Mas cada dimensão (singular, particular e universal) é uma totalidade em si mesma, com sua própria legalidade, legalidade sempre mutável, uma vez que todo sistema é dinâmico. Essa é a estrutura básica de um sistema (singularidades, particularidades e universalidade, sendo que cada uma dessas dimensões são totalidades em si, postas em relações contraditórias entre si, agindo e reagindo mutuamente), mas é logicamente razoável supor que, no limite, as dimensões que compõem um sistema são infinitas: cada uma dessas dimensões comporta outras dimensões, e assim por diante, dentro de uma estrutura multidimensional. Por sua vez, essa concepção, que apreende as múltiplas determinações e dimensões de um sistema, ajuda a compreender melhor o porquê de uns países serem mais afetados do que outros em função dos processos econômicos, embora, ao mesmo tempo, estejam postos todos eles dentro de uma mesma totalidade e, portanto, sejam todos afetados por determinações e relações universais.
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