domingo, 11 de novembro de 2012

Os direitos humanos como discurso ideológico

A noção de direitos humanos, tão equívoca e ambígua quanto possa ser, é um elemento-chave da pregação ideológica estadunidense – tão importante quanto as próprias noções de democracia e de liberdade em si.

Talvez porque os assim-chamados “direitos humanos”, tal como são concebidos, fornecem o esteio sobre o qual se ergue a democracia e a liberdade da civilização ocidental (termos como “civilização ocidental” também são essenciais a esse discurso ideológico capitalista-imperialista). Sempre ouvimos, com uma repetição ensurdecedora e exasperante, que os EUA, nas assembleias-gerais da ONU ou do Conselho de Segurança e assim por diante, acusaram (não se trata de uma acusação somente, mas de uma condenação, porque acusar é “uma coisa feia”, e acredita-se que os EUA são tão ilibados moralmente que acusar não é com eles; portanto, condenam) tal ou qual país de violar os direitos humanos, esse ente transcendente tão sagrado quanto os entes da santíssima trindade (transcendentes porque não se sabe como realizá-los na Terra, e sagrados porque, ainda assim, não se deve violá-los, sob pena de integrar a listinha bushiana dos países do mau).

A mídia supostamente nacional repete como um papagaio essas acusações espúrias. Os alvos são sempre Venezuela, China, Irã, Coréia do Norte, Cuba e congêneres. Um dos argumentos brandidos para negar a suspensão do embargo contra Cuba, que este ano “comemora” meio século de existência, é justamente a acusação de que o regime comunista viola os direitos humanos dos cubanos (o fato de que notórios criminosos internacionais hoje vivam tranquilamente nos EUA sob a batuta da sua Suprema Corte, como e. g. o terrorista e traficante internacional de drogas Luis Posada Carriles, para citar apenas um exemplo, não é sequer considerado; o olhe que, se fôssemos passar em revista a lista de crimes contra a humanidade perpetradas pelas próprias instituições norte-americanas e não por suas filiais estrangeiras, teríamos que escrever um compêndio maior do que o Index Librorum Prohibitorum da Igreja Católica).

Não se trata de bodes expiatórios, absolutamente. Com efeito, não é mera coincidência que os acusados sejam sempre os países que postulam e perseguem agendas políticas e econômicas independentes e/ou antagônicas aos interesses de Washington, e não os países subservientes – bajuladores, adulões, incensadores, lambeteiros, sabujos, baba-ovos, puxa-sacos, lambe-botas, lambe-cus (é divertido observar como existem tantos sinônimos para um mesmo significado, talvez devido ao fato de que ninguém gosta de capachos, como a Inglaterra sob o comando do “trabalhista” Tony Blair; um prato cheio para a semiótica) – ou, em termos mais protocolares, aliados, como Israel, Colômbia e Arábia Saudita (o primeiro e o último sendo dois dos Estados mais terroristas e violadores dos direitos humanos no mundo todo).

A lógica por trás desse discurso é tão absurda, mas tão absurda, que se houvesse sinceridade e hombridade neste mundo Obama, Merkel, Cameron e “líderes” assemelhados diriam: estamos sequestrando a democracia em benefício da democracia; ou ainda: estamos violando os direitos humanos em benefício dos direitos humanos. Mas eles não fazem isso. Não fazem porque, se o fizessem, teriam que admitir que a democracia e os direitos humanos dos quais falam e os quais protegem são muito particulares e exclusivos. A democracia e os direitos humanos são para poucos, e há que sequestrar e violar a democracia e os direitos humanos “dos muitos” para que aqueles “poucos” possam se regalar com os valores e as tradições (“sobre os quais esse país [os EUA] foi fundado”, como eles gostam de dizer) dadas por Deus ao hemisfério ocidental (do norte, vale dizer). Seria demais esperar esse nível de sinceridade dos "nossos" figurões políticos mundiais.
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