terça-feira, 27 de novembro de 2012

O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir

‎"há profundas analogias entre a situação das mulheres e a dos negros: umas e outros emancipam-se hoje de um mesmo paternalismo, e a casta anteriormente dominadora quer mantê-los 'em seu lugar', isto é, no lugar que escolheu para eles; em ambos os casos, ela se expande em elogios mais ou menos sinceros às virtudes do 'bom negro', de alma inconsciente, infantil e alegre, do negro resignado, da mulher 'realmente mulher', isto é, frívola, pueril, irresponsável, submetida ao homem. Em ambos os casos, tira seus argumentos do estado de fato que ela [a casta anteriormente dominadora] criou." (Simone de Beauvoir, em O segundo Sexo). É justamente isso que eu vejo nos argumentos dominantes (do pensamento dominante) acerca da igualdade feminina: uma igualdade que se dá na base da imposição dos homens às mulheres aquilo que eles, os homens, creem ser a essência da mulher. É o que a Simone chama de "a igualdade dentro da diferença". Assim, a mulher não se afirma como sujeito, mas torna-se novamente objeto, não obstante a farsa da libertação. É por isso que muito do tema da igualdade feminina é reduzido à dimensão sexual/sensual: sob este ponto de vista, a libertação feminina acaba reduzida à libertação sexual e/ou estética (a beleza feminina). Quando a questão se limita a este ponto, os homens são capazes de aceitar a igualdade. Mas isso não é uma verdadeira libertação, e as mulheres continuam sendo objeto de uso masculino. Não é a mulher que se afirma ser o que ela quiser ser, mas é o homem que, de fora, faz da mulher o que ele acredita que ela seja. É isso que a Simone quer dizer quando afirma que a igualdade feminina se dá sob a condição de que a mulher continue sendo "'realmente mulher', isto é, frívola, pueril, irresponsável, submetida ao homem." Este é um importante argumento para se pensar os limites da igualdade feminina hoje. (PS: primeira impressão sobre a magnum opus da Simone de Beauvoir: não se pode falar de opressão feminina sem mencionar toda sorte de opressões que com esta coexistem: a opressão racial, étnica, econômica, etc.; isto fica muito claro em sua argumentação.)
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