quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Epistemologias marxista e weberiana: é possível concilia-las?

Para Weber, a realidade é infinita, tanto intensiva quanto extensivamente. Próximo à filosofia kantiana, o sociólogo alemão não acredita na capacidade de o pensamento vir a abarcar essa infinitude intensiva e extensiva em sua totalidade. Todo conhecimento, portanto, é fragmentário, limitado, porque opera um recorte no tecido infinito da realidade de modo a lidar apenas com aspectos particulares seus. Ao mesmo tempo, a realidade não comporta julgamento de valor em si mesma, ou seja, não pode ser nem boa nem má, nem desejável nem indesejável por si mesma. Assim, todo fenômeno se deixa ver por uma infinidade de pontos de vista. Em suma, a realidade é infinita, complexa e não-axiológica. A pergunta, de coloração kantiana, que se faz Weber, e que os historicistas e os neokantianos de seu tempo também levantavam, era: dada a definição de realidade (infinita e não-axiológica), como é possível o conhecimento? Ele responde que o processo de conhecimento envolve uma dimensão arbitrária ineliminável, a qual se relaciona com os valores do sujeito do conhecimento. A seleção e a abordagem implicada no ato de conhecer a realidade depende dos valores subjetivos do agente. Ou seja, o agente do conhecimento organiza, define pressupostos e levanta as perguntas e hipóteses que nortearão o ato de conhecer em si, tudo isto com base na sua relação com determinados valores. Isso quer dizer que, para Weber, a realidade não possui uma estrutura e uma lógica objetivas, internas, mesmo que históricas (como afirma o marxismo)? Ou significa apenas que a realidade possui uma série (infinita?) de estruturas e lógicas de acordo com os pontos de vista (infinitos?) a partir dos quais se pode observá-la? (Essa última questão não me parece distinta da primeira, de qualquer maneira.) Entre tantos pontos de vista é possível encontrar critérios que nos permitam avaliá-los e hierarquiza-los segundo sua maior ou menor aproximação com a realidade total, isto é, com a verdade objetiva?

Deixando essas questões de lado, voltemos a Weber. Ao contrário da filosofia positivista, a epistemologia weberiana não acredita numa absoluta eliminação dos valores no processo de conhecimento. Mas é preciso achar um porto seguro nessa relação. Weber afirma, então, que se a relação com os valores é inevitável, não obstante, a neutralidade axiológica é não só possível como necessária (se não deixamos o terreno da ciência para entrar no da filosofia, da política e assim por diante). E isso só é possível porque esses dois aspectos do conhecimento operam em momentos distintos no processo. A relação com os valores opera apenas na definição do objeto e, acima de tudo, na definição da metodologia, dos pressupostos e das hipóteses de investigação, ou seja, na definição do quadro teórico-metodológico preliminar à investigação do objeto. Já no processo de investigação mesmo, quando a neutralidade axiológica passa a operar, a relação com os valores deixa de operar para dar lugar aos métodos objetivos que caracterizam qualquer ciência, isto é, a observação e comparação sistemáticas, a experimentação (que nas ciências históricas aparece como “quase-experimento”) e, sobretudo, a prova. Isso nos parece correto, mas Weber não leva às últimas consequências seu pensamento. Ele acredita que se observada a neutralidade axiológica durante a investigação científica o resultado a que se chega é também axiologicamente neutro. Há aqui um erro: uma vez que o ponto de partida de qualquer ciência implica uma relação com valores, não há como o ponto de chegada evitar estar contaminado pelo quadro teórico-metodológico definido desde o início. Todo enunciado científico é, portanto, valorativo porque socialmente determinado, uma vez que todo valor tem suas raízes fincadas na vida social concreta e, no limite, nas classes e grupos sociais. Não creio que isso seja um problema, se nos libertarmos dos postulados falaciosos da filosofia positivista (postulados que o próprio Weber, mesmo querendo deles se libertar, em certa medida a eles ateve-se). Todo enunciado científico remete a um ponto de vista, ou melhor, a uma visão de mundo, cuja conteúdo encontra-se nas classes e na estrutura historicamente determinada de uma sociedade. Neste ponto estamos de volta ao pensamento marxista, que vê em todo conhecimento não apenas a marca de seu tempo mas também das diferenças, antagonismos e relações contraditórias dos elementos que compõem uma dada estrutura social. A pergunta que eu me coloco é: é possível aproximar e reconciliar as concepções epistemologias marxista e weberiana? Parece haver uma clara diferença entre a base hegeliana da ontologia marxista (segundo a qual a história é uma totalidade dialeticamente estruturada) e a ontologia negativa de Weber, de base kantiana (segundo a qual o único dado que se pode ter certeza da realidade é que ela é infinita e inabarcável, em sua totalidade, pelo pensamento). Mas será possível aproximar a concepção epistemológica de ambos a partir da afirmação da relatividade implicada no processo do conhecimento? Valores não são apenas ideias, mas ideias pautadas em modos de vida, em formas de ser. Fazer ciência é, portanto, uma tomada de posição. Weber acredita na possibilidade da neutralidade axiológica e de um conhecimento objetivo, se bem que unilateral, da realidade. Levar o raciocínio weberiano às últimas consequências fará com que ele se encontre com o raciocínio marxista, ao menos no que se refere ao problema da relatividade socialmente determinada das premissas científicas? Parece-me muito difícil conciliar as duas concepções, em uma série de aspectos, embora no aspecto da relação com os valores ambas se aproximem. Essa é uma discussão para outra hora. De qualquer modo, o problema deve ser levantado e analisado.

* * * 

Lendo Goldmann e Löwy fica muito claro a insuficiência e a inconsistência da solução epistemológica dada por Weber ao problema do conhecimento nas ciências sociais, ou humanas, ou históricas (ou ainda do espírito). A base da argumentação de ambos é lukacsiana, de modo que foi o filósofo húngaro o primeiro a lidar satisfatoriamente com a questão. Herdeiro dos historicistas e dos neokantianos alemães, Weber sabe que a solução para o problema da especificidade das ciências humanas não pode ser encontrada, como queria Durkheim e os positivistas, na diferença de objeto, mas sim na diferença epistêmica: ao contrário das ciências naturais, o sujeito do conhecimento nas ciências humanas participa do e é também seu próprio objeto. É inevitável, portanto, que os valores se relacionem em alguma medida com a prática científica no campo das ciências humanas. Weber recupera o relativismo de Dilthey e o princípio da relação com valores de Rickert para dizer que, se a valoração subjetiva é inevitável (e até desejável) na construção do objeto e da problemática científica, o mesmo não se dá no momento da prática, quando a neutralidade axiológica, garantida pela observação do método, entra em ação. O problema é que, não raro, a eliminação dos juízos de valor da prática científica torna-se, para Weber, quase uma petição de princípio: cabe ao cientista se esforçar para deixar de lado suas pré-noções. Ora, se Weber tivesse levado até às últimas consequências esse raciocínio descobriria que o ponto de partida do processo de conhecimento, onde reina o juízo de valor, contamina indelevelmente o ponto de chegada, onde supostamente deveria reinar o juízo de fato. Descobriria, assim, que todo conhecimento, mesmo o científico, é objetivamente determinado, quer consciente quer inconscientemente, pela posição social do sujeito, posição social que, no limite, é de classe. Mas isso não significa que devemos aceitar um relativismo desesperador. Há pontos de vista mais universais do que outros, como Lukács demonstrou (ainda que sob uma forma idealista), quando os interesses de uma classe se identificam com os interesses da humanidade como um todo num dado momento histórico. Dito isto, parece incrível que as ciências sociais acadêmicas ainda acreditem cegamente na possibilidade de produzir conhecimentos axiologicamente neutros. Isso, contudo, pode ser explicado por uma análise sociológica da sociologia, ou seja, pela compreensão das determinações sociais (de classe) às quais cada teoria sociológica se filia.
Postar um comentário