sábado, 3 de novembro de 2012

Editorial d'O Globo, escrito por Roberto Marinho em 7 de outubro de 1984

Quem tiver estômago, leia o editorial de O Globo, escrito em 7 de outubro de 1984 pelo "doutor" e "jornalista" Roberto Marinho (na verdade, nem uma nem outra das duas coisas: o ex-dono dos Organizações Globo não passa de um empresário esperto), no qual ele faz um balanço da "Revolução de 64", alertando para o perigo de vê-la traída em sua fase final, ou seja, alerta para a necessidade de não permitir que as elites políticas, econômicas e midiáticas percam o controle sobre o processo de abertura democrática.

Desnecessário fazer a crítica e desconstruir ponto a ponto a argumentação do editorialista. Basta notarmos que se trata de argumentos correntes, hoje reproduzidos por qualquer cidadão de bem disposto a abrir mão da democracia em favor da democracia (sic): a "revolução" restaurou a ordem contra a subversão dos vermelhos e abriu um momento de desenvolvimento econômico sem precedentes, o tal do "milagre brasileiro". Eis aí um belo exemplo de como a mídia redefine a história e constrói a opinião pública conforme seus interesses. O que se esquece é que esse milagre constituiu-se, antes, como um processo, por um lado, de crescimento econômico dependente de capital estrangeiro e, por outro, de absoluta concentração de riqueza nas mãos de uma pequena elite, da qual o próprio doutor Marinho faz (fazia, porque esse cretino queima no inferno agora) parte.

Note-se, ainda, que na data de publicação do editorial em questão, os perigos de uma transição descontrolada capaz de "trair a Revolução" já haviam, em certa medida, sido evitados com a rejeição da Emenda Dante de Oliveira, em abril daquele ano. A Globo, demonstrando coerência com sua visão política até então, havia ajudado a frustar a campanha pela redemocratização, noticiando distorcidamente as dezenas de manifestações públicas que exigiam Diretas Já, e colocando no ar as declarações do "presidente" Figueiredo (aquele notório militar democrata republicano, que disse: "aquele que for contra a abertura, eu prendo e arrebento") segundo as quais a manifestação popular nas ruas nada mais eram do que "subversão". Marinho podia dormir tranquilo: seu compadre José Sarney seria eleito presidente e a "revolução" não seria traída.
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