quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Como fazer política na sociedade do espetáculo

Hoje em dia o que define uma eleição é o dinheiro. Sempre foi de fato, mas não se trata mais de critério censitário ou compra direta de votos – comparado com os demais gastos de uma campanha, distribuir cestas-básicas e bancar churrascos representam gastos mínimos. O dinheiro hoje é usado, em proporções cada vez mais astronômicas, para bancar uma máquina eleitoral gigantesca e muito assemelhada a uma indústria. Com a montanha de dinheiro a fluir, e com o avanço tecnológico na área dos media, uma eleição se transformou num espetáculo muito caro.

O que determina quem vence e quem perde, ou quem pode ou não se candidatar, é em última instância o dinheiro, ou seja, quem pode ou não pagar pelas mais novas e sofisticadas técnicas de marketing e de produção áudio-visual. O candidato não é, assim, diferente de um produto que se procura vender. Com o dinheiro vem o caixa-dois, os acordos espúrios com setores da burguesia e a corrupção generalizada. Os marqueteiros e tesoureiros responsáveis por gerenciar toda essa grana se transformaram em figuras poderosas. 

Na segunda prestação de contas parcial divulgada pelo TSE, que cobre o período de 6 de julho a 6 setembro, os candidatos a prefeitos e vereadores já haviam gasto aproximadamente 1 bilhão reais. Somente o candidato cujo gasto declarado foi o mais alto, Haddad do PT, gastou mais de 16 milhões. Com mais um mês de campanha antes do primeiro turno, e quase outro antes do segundo, estimativas falavam em mais de 3 bilhões de gastos totais. E olha que essa cifra se refere apenas aos gastos declarados. Com os vultosos caixas-dois que todo partido eleitoreiro mantém, não é impossível que essa cifra dobre. 

Na eleição presidencial de 2010, a campanha da Dilma arrecadou aproximadamente 150 milhões de reais e gastou mais de 175 milhões. Já a campanha do Serra arrecadou 120 milhões de reais, enquanto os gastos ficaram em quase 130 milhões. São cifras astronômicas, mas que, no entanto, não chegam nem perto do montante dispendido pelos dois presidenciáveis norte-americanos na eleição deste ano: cada um deles gastou quase 1 bilhões de dólares sozinho. 

Todos esses bilhões são levantados quase que completamente por um punhado de centenas de empresas, desejosas de fortalecer a democracia no Brasil e no mundo – e, claro, com isto fortalecer seus próprios negócios. No Brasil, as campeãs de doações são as maiores empreiteiras do país, como a Odebrecht, a Camargo Correa e a OAS. Dias desses eu li em algum lugar que uma pesquisa estimava em mais de 8 reais o retorno em contratos para cada 1 real doado em campanha. Um grande negócio. 

Mas eu comecei a escrever esse texto pensando no grande poder que a mídia exerce sobre o instrumento per excellence da democracia burguesa, o voto e a campanha eleitoral, e como tal poder se articula com a mercadorização (o que envolve o marketing) da política. Fazer política hoje em dia é tudo, menos fazer política. É criar mitos, burilar imagens, vender ideias, negociar programas. 

E se engana quem pensa que os marqueteiros são apenas vendedores e não produtores da mercadoria que vendem, de modo que a qualidade da mercadoria, os candidatos, não dependem deles mas dos próprios candidatos. Marqueteiro não é responsável apenas por implantar suores falsos e escolher camisas amarrotadas para exibir seu candidato em rede televisiva nacional, para lembrar o debate entre Collor e Lula em 1989. Collor foi de fato o grande introdutor da moderna campanha no Brasil. Posou em jatinhos e carros esportivos, fazendo exercícios, vestindo fardas marciais, tudo para criar a imagem de galã e de caçador de marajás. 

A função dos marqueteiros vai bem além disso. Eles também definem nomes de programas de governo (como o PAC e o Minha Casa Minha Dilma, de autoria de João Santana, marqueteiro do Lula desde a reeleição em 2006) e redigem discursos. 

Isso me lembra um episódio dos Simpsons, de 1991, quando a agência de vigilância está para fechar a usina de Montgomery Burns. A certa altura, Homer sugere a Burns que se eleja governador, a fim de fazer as próprias leis que lhe interessam. Burns retruca: "Está louco, Simpson? Sabe quanto custa uma eleição hoje em dia? Muito mais do que qualquer homem honesto pode pagar!" Isso diz tudo.
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