domingo, 11 de novembro de 2012

1984 ou 2012? A vitalidade da ficção orwelliana

A realidade está muito mais próxima de uma ficção orwelliana do que se pensa. O Grande Irmão nos vigia o tempo todo, mesmo na "privacidade" do lar, e o Ministério da Verdade distorce e determina o que é (ou o que foi) e o que não é a verdade. E eu não estou aqui fazendo uma comparação apenas formal entre a obra 1984 e o mundo contemporâneo sob as garras do capital imperialista; a comparação é, antes, substancial. Façamos um exercício de analogia. 

George Orwell pinta um mundo totalitário onde a guerra é um pilar fundamental, ou seja, é uma condição de existência da sua ordem social, não apenas no sentido material, mas também (e sobretudo) ideológico. Manter a guerra é fundamental para manter a mobilização interna contra um inimigo externo, imaginário ou real, mobilização que permite a manutenção da alienação interna (do povo) em relação à arbitrariedade de seus próprios governantes. É motivado por essa necessidade ineliminável que o Estado totalitário orwelliano ora está em conflito com este país, ora com aquele outro. Em suma, em 1984 a guerra torna-se praticamente uma instituição política. 

Quando George Orwell publicou seu romance, em 1949, os soviéticos testavam com sucesso sua primeira bomba atômica e Churchill discursara a respeito do surgimento de uma cortina de ferro rasgando a Europa havia apenas três anos, de modo que a Guerra Fria ainda dava seus primeiros passos, mas a sua obra ficcional já parecia destinada a transladar-se para a realidade. Até hoje, 1984 sempre foi entendido dentro deste contexto histórico: sistema mundial bipolar, Guerra Fria e regimes políticos totalitários. Entretanto, pode-se atualizar essa analogia seguindo o curso dos acontecimentos nas últimas décadas. Com efeito, a Guerra Fria terminou, mas a necessidade premente de manter um clima de guerra perene, bem como a imagem de um inimigo mortal sempre a ameaçar o mundo-livre, continua firme. Nos anos 1990 a batalha foi travada contra os traficantes de drogas latino-americanos, e nos anos 2000 entrou em campo o terrorismo internacional, na maioria das vezes ligado ao fundamentalismo islâmico. De certa forma a dicotomia ocidente versus oriente ainda se reproduz, embora sob uma nova roupagem. 

Porém, analisando mais de perto essa analogia, pode-se encontrar correlações ainda mais precisas e concretas. Com a Guerra ao Terror de Bush, os EUA praticamente institucionalizaram a guerra. O Patriot Act - acrônimo para (tente não rir) Uniting and Strengthening America by Providing Appropriate Tools Required to Intercept and Obstruct Terrorism Act, ou algo como "Unindo e Fortalecendo a América ao Providenciar Apropriados Instrumentos para Interceptar e Obstruir Atos de Terrorismo" - liquidou as garantias jurídicas básicas para um sociedade republicana, como a inviolabilidade do lar e da privacidade, o princípio da transparência, o princípio do contraditório e da ampla defesa, o princípio da presunção de inocência, além de conceder poderes extras ao executivo, desta forma desequilibrando a divisão dos poderes. Nas manchetes diárias, as referências protocolares aos atentados do último dia, à contagem de baixas, aos bombardeios aéreos, à mobilização e realocação das forças inimigas (Taliban e Al Qaeda), etc., são feitas de forma absolutamente natural, como se se tratasse de um estado de coisas normal. A percepção cotidiana, moldada a partir da forma com que os aparelhos ideológicos de Estado (a mídia) retratam os acontecimentos políticos mundiais, tende precisamente a ver na guerra do Iraque e do Afeganistão, a frente contra o “terror” por excelência, uma espécie de guerra institucionalizada. O fato de que todos os dias os drones norte-americanos bombardeiem uma vila qualquer na fronteira do Paquistão (um tipo de ação militar que entusiasma bastante o atual presidente Obama, mas que, do ponto de vista da Convenção de Genebra, é considerado crime de guerra) não causa espanto algum; é simplesmente parte de uma condição ineliminável: a manutenção de uma fronteira militar cuja finalidade é separar dois mundos e manter os bárbaros fora do "nosso" mundo civilizado. 

A guerra no Iraque supostamente acabou (deixando para trás um país devastado e refém das corporações norte-americanas para se reconstruir segundo o padrão das economias abertas, além de milhares de oficiais militares e dezenas de milhares de mercenários como uma espécie de lembrete ao povo iraquiano, caso eles queiram fazer valer esta noção incômoda que é a “autodeterminação dos povos”), mas a do Afeganistão continua, sem previsão de término, e a do Irã se avizinha. Os inimigos não podem ser derrotados, não podem desaparecer; se isso acontecer, devem ser substituídos. A alienação dos cidadãos estadunidenses é tamanha que não deve ser impossível encontrar alguns deles que já não sabem mais contra quem é a guerra: se é contra a República Dominicana, o Vietnã, o Panamá, o Afeganistão, o Iraque, a Líbia ou a Síria, pouco importa; o que importa é que a guerra é necessária para proteger o mundo-livre e os “valores americanos” contra os inimigos da liberdade. 

Diferentemente do mundo pintado por Orwell, nos EUA não existe censura e o Estado não monopoliza a comunicação. Essa diferença, contudo, é meramente formal: no nosso mundo o monopólio se constitui em âmbito privado, e a grande mídia exerce a mesma função de manipular para determinar a verdade a fim de criar a atmosfera de medo, ameaça e apreensão tão necessária ao controle social, e que foi levada ao paroxismo nos dias e meses subsequentes ao ataque às torres gêmeas. 

Afora o paralelo entre a necessidade de guerra perene pelos regimes totalitários na ficção de Orwell e a mesma necessidade pelos regimes aparentemente democráticos dos países capitalistas centrais da realidade de hoje, uma segunda analogia pode ser rapidamente sugerida aqui. 

Em 1984, Orwell mostra como a mobilização interna em função de um inimigo externo não basta para que o governo mantenha o controle sobre sua população; há também que mantê-la completamente alienada da realidade social, política e econômica, assim como das decisões tomadas por ele. Desta função fica a cargo o Ministério da Verdade, responsável por comunicar (o que significa, ao mesmo tempo, adulterar) os dados da última safra, do balanço anual da produção industrial, da cota alimentar mensal, assim como das notícias que chegam da frente de batalha. Como os acontecimentos são mutáveis e seus desdobramentos imprevisíveis, há sempre a necessidade, pelo regime totalitário, de manipular os acontecimentos passados de tal forma a torná-los aceites e condizentes com as necessidades do presente. Não é apenas a informação que passa pelo filtro da censura, mas a própria história muda ao sabor de considerações políticas, com o fito de garantir a domínio sobre a população. É claro que no mundo real não há um Ministério da Verdade, e que os meandros e as forças pelas quais passa e se transforma a informação são muito mais complexos do que na ficção nua e crua de Orwell. Não obstante, pouca diferença isso faz: o resultado é o mesmo. 

Tivemos vários exemplos célebres deste tipo de falsificação histórica durante o culto à personalidade na União Soviética stalinista. Mas essa não foi e não é uma característica do regime comunista soviético (tampouco o é do regime “comunista” chinês, ou do Estado religioso da Arábia Saudita, por exemplo). O assim-chamado mundo-livre e democrático sempre recorreu e sempre recorrerá a tais expedientes para reproduzir a alienação e assegurar o seu domínio ideológico, ainda que revestindo-os sob formas diferentes. 

Desde o mito da fundação da nação (um mito que Tocqueville ajudou a fundar e difundir), de seus heróis e da expansão para o Oeste, até a libertação do mundo da tirania da megalomania de Hitler, passando pelo desenvolvimento econômico do país (atribuído à engenhosidade e virtude moral naturais dos norte-americanos); tudo não passa de uma deturpação da história, deturpação que, não obstante, são aceitas como sendo sua representação fiel. A Guerra Fria, assim, também é vista como uma luta entre duas potências quase transcendentais, ou seja, como uma luta maniqueísta entre o bem e o mau; o fato de que os EUA foram construídos com base na força de trabalho negra escrava é mitigado ou simplesmente esquecido; os incontáveis casos de corrupção e de crimes econômicos (trustes, fraudes, lavagens de dinheiro, etc.) desaparecem como por encanto para não macular a imagem ideal de uma economia que se gere de forma transparente e honesta; a ingerência política, quando não militar, do Estado norte-americano em praticamente todos os países do mundo, mas sobretudo do terceiro mundo, é apagada da história. 

Mas não é preciso vascolejar a história moderna inteira para encontrar os paralelos entre a ficção de Orwell e o mundo contemporâneo: há também aqui correlações mais precisas e concretas. Entre um dos aspectos manipulados pelo Ministério da Verdade estava a política externa do governo em relação aos conflitos interimperialistas. Como a guerra sempre mudava, indo de um lado para o outro, alterando-se os oponentes, toda a história tinha também de mudar. Assim, um país que era aliado se tornava inimigo, e vice-versa. Era essencial ao regime, então, alterar a história para fazer crer que desde sempre o país estivera em guerra com o adversário atual, e que sempre fora aliado do aliado atual. Transportando isso para o mundo real, fica-se chocado com a pertinência e correção exata da analogia. Basta lembrarmos, por exemplo, da Guerra no Iraque e das relações que a Casa Branca mantinha com Saddam Hussein. Saddam é uma cria dos EUA. Durante a Guerra Irã-Iraque, os EUA, inconformados com a Revolução Iraniana, se aliaram a Hussein, fornecendo a ele armamento, suporte financeiro e know-how. Mas quando Saddam invadiu o Kwait no início da década de 90, a lua-de-mel acabou e Saddam passou automaticamente para o status de facínora inimigo da humanidade. E é assim que ele será lembrado (o que não é em si errado, já que Saddam era um tresloucado manifesto, mas o ponto é que o Estado norte-americano não é menos facínora do que ele). 

O mesmo se deu na guerra iniciada em 2003, quando Saddam foi finalmente preso e executado. O modo como a história é contada apaga precisamente o vínculo umbilical entre o regime despótico de Saddam e os interesses políticos e econômicos norte-americanos. O mesmo se pode dizer de Osama Bin Laden. O mesmo se pode dizer de Kaddafi, que foi por muito tempo um dos inimigos número um do ocidente, para depois se tornar seu queridinho e, tão rápido quanto, tornar-se novamente seu inimigo e ser, por fim, destruído. Os exemplos poderiam ser multiplicados. 

Enfim, essa breve análise dos paralelos existentes entre uma obra ficcional e a realidade histórica contemporânea deixa muito claro que democracia e liberdade são palavras vãs, usadas para camuflar a existência de um regime totalitário, o qual, embora onipotente e onipresente, não está encarnado em nenhum Estado ou governo particular, mas na própria essência das sociedades contemporâneas: o modo de produção capitalista, com seus Grandes Irmãos e seus Ministérios da Verdade. A coisa aqui, no mundo real, funciona de forma muito mais complexa, matizada e mediatizada, o que de modo algum diminui a veracidade da analogia. A informação continua sendo manipulada para servir aos interesses totalitários do capital e de seus representantes mais distintos; a violência ainda constitui uma mola propulsora e uma válvula de escape sem a qual esse sistema não funciona; a alienação e o controle caracterizam a vida cotidiana das massas; e a história e a sociedade não passam de objetos de poder. A arte imita a realidade ou a realidade imita a arte?
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