quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Sobre sistema e totalidade: conhecimento e realidade

Toda sociedade deve ser compreendida como uma totalidade, como um sistema de partes a um só tempo interdependentes e autônomas A interdependência se dá na relação entre as diversas partes que compõem um sistema social, de tal maneira que cada uma delas é tanto pressuposto quanto resultado da interrelação entre elas. Ou seja, qualquer uma das partes não existe por si só, mas é resultado de um processo anterior em que todas as partes do sistema atuaram juntas (umas mais e outras menos); mas é também pressuposto, na medida em que outros resultados de outros processos não poderiam ser produzidos sem a existência de cada uma das partes dos sistema social. A autonomia se dá também nesta relação entre as partes, de tal forma que cada uma delas afirma e impõem a sua própria lógica sobre as demais. Ou seja, cada parte isolada do sistema possui uma especificidade que a particulariza em relação às demais. A particularização implica uma qualidade e uma legalidade próprias, ainda que não absolutas. 

O resultado de um sistema assim concebido é uma dinâmica dialética, nunca uma estática formalista. O formalismo e a falta de movimento (a estática) não é uma condição ontológica, ou seja, não podem ser encontrados na realidade concreta. Toda realidade é dinâmica, é processo. Formalismo e estática são recursos epistemológicos empregados pelo pensamento humano para classificar e analisar os processos que se dão, sempre enquanto síntese dialética, ao nível da realidade. Esses recursos estão na base da ciência moderna, desde Descartes e Bacon. A realidade é entendida, sob esse ponto de vista, como um grande mecanismo que pode ser desmontado, ter suas partes classificadas e as relações entre elas analisadas, inferindo a partir dessa classificação e análise leis gerais que governam esse mecanismo. A epistemologia que está na base da ciência moderna confunde, assim, realidade e pensamento, atribuindo à uma apreensão epistemológica o status de uma condição ontológica. 

Assim, a apreensão de cadeias causais no interior de uma totalidade dialética implica a lógica formal, necessária para isolar os elementos, as relações e a ordem de causa e efeito entre eles, do resto dos elementos do sistema como um todo que não participam diretamente daquela cadeia causal em particular. Esse “não participam diretamente” só pode ser definido (isto é, o que participa ou não diretamente) em, relação às finalidades e pressupostos que estão na base de qualquer processo de conhecimento Ou seja, o procedimento que consiste em isolar, no pensamento, cadeias causais da totalidade concreta implica uma certa dose de arbitrariedade no sentido de que a escolha da cadeia causal a ser apreendida dá-se em função das finalidades postas como ponto de partida do processo do conhecimento. Além da escolha, o ponto de vista (a pergunta, o “por quê”, a ser respondida) também interfere nesse procedimento. Se a realidade é um sistema infinitamente complexo onde, em princípio, tudo se relaciona com tudo, o processo pelo qual o sujeito do conhecimento apreende essa realidade começa com a sua organização e classificação abstrata. Esse ponto de partida implica alguns pressupostos a partir dos quais se norteiam a organização e classificação da realidade. Além disso, opera-se um recorte dentro da realidade total, na medida que ela não pode ser organizada e classificada em sua totalidade de um só golpe. Como ser fiel a este procedimento sem perder de vista a realidade total, uma vez que ela constitui um sistema onde todas as partes estão interrelacionadas contraditoriamente de modo que, portanto, cada parte não pode ser pensada isoladamente sem mutilar-se a si mesma – eis aí a questão epistemológica chave. 

Dizer isso não significa admitir que a realidade é irracional, ou em outras palavras que as relações entre os elementos que compõem um sistema social sejam governadas (ou desgovernadas) pelo caos, tal a complexidade desses sistema, e que, portanto, não podem ser conhecidas em sua totalidade pela razão humana. Significa, antes, admitir que os níveis epistemológico e ontológico têm legalidades e características distintas. A realidade social é um sistema que comporta uma totalidade integrada, diferenciada e contraditória, como dissemos, mas o modo pelo qual o pensamento apreende essa totalidade implica um processo gradual, aproximativo e, sempre, relativo. O conhecimento é cumulativo (embora seja difícil de dizer que ele possa chegar ao cume um dia). E o processo pelo qual ele se realiza responde a determinadas regras que devem ser observadas. Essas regras impõem limites que não podem, a princípio, ser superadas. O conhecimento que resulta cientificamente provado e demonstrado pode apenas num estreito sentido ser generalizado, isto é, as generalizações em direção ao todo, que procuram explicar o todo, são em certa medida intuições, especulações e hipóteses, fato que, bem entendido, não diminui seu valor explicativo (apenas é necessário que nos desembaracemos dos dogmas do empirismo e do positivismo).
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