sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Os 50 anos da crise dos mísseis cubana

Há exatos 50 anos o mundo vivia a maior crise nuclear da história. A chamada “crise dos mísseis cubana”, iniciada em meados de outubro de 1962, levantou a possibilidade real de uma guerra atômica entre as duas superpotências mundiais e, quiçá, do fim da humanidade. Um acordo entre Kennedy e Kruschev, conforme o qual este retiraria os mísseis de Cuba se aquele retirasse os seus da Turquia, debelou a crise. Em 1968, surgia o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, que tornou o clubinho atômico do mundo uma organização fechada (mas que não impediria que outros Estados, entre eles signatários do tratado, produzissem suas próprias armas nucleares).

Embora eu tenha nascido numa década em que o medo de um inverno nuclear voltava a propagar-se no imaginário da opinião pública, desencadeado pela corrida armamentista de Reagan (com o projeto denominado “guerras nas estrelas”), na década seguinte essa ameaça já não mais tirava o sono do cidadão comum. Mas os filmes hollywoodianos continuavam a retratar realidades futuristas destroçadas pela guerra nuclear, como para nos lembrar que ainda há inimigos lá fora. Hoje em dia, após o vazamento de Chernobyl e de Fukushima, as pessoas preocupam-se mais com a energia nuclear usada para fins pacíficos do que com as armas nucleares (uma preocupação legítima, devo acrescentar).

Terminada a era da bipolaridade, e imposta a paz neoliberal pelos capitalistas vitoriosos, falava-se em “fim da história”, em “vitória do capitalismo”, e as armas atômicas já não causavam grande medo, uma vez que não mais havia inimigos a temer, embora a Rússia e a China ainda possuíssem (e ainda possuam) armas nucleares (ademais, ambos não tornaram-se parceiros do mundo capitalista?). Desde então o medo, enquanto política de Estado, tem sido na possibilidade de que os estoques bélico-nucleares caiam em “mãos erradas”, e Hollywood (a fábrica de medos, angústias, confortos, esperanças e desejos do mundo) vem explorando muito bem (e fabricando ela própria) esse medo, exibindo nas telas de cinemas do mundo todo árabes e terroristas desvairados que procuram roubar ogivas a fim de explodir alguma cidade norte-americana. Esse é o novo inimigo e a nova ameaça, não as armas nucleares em si.

Mas, espere, se o caso é não deixar as armas nucleares caírem em mãos erradas, quer dizer que elas encontram-se nas mãos certas? Essa é provavelmente a visão de Washington, dos neoconservadores (incluído-se os republicanos liberais e os democratas), da grande mídia corporatista e dos ideólogos burgueses de modo geral. O argumento comum é que não se pode acabar completamente com essas armas porque elas são necessárias como recurso de dissuasão contra os novos inimigos do mundo livre (de fato, sempre haverá um inimigo a ser temido e enfrentando). Ao mesmo tempo, deve-se impedir que outros países, sobretudo os não-alinhados com a política ocidental-hegemônica, adquiram armas nucleares. Mas se hoje o mundo todo é “livre”, com a exceção de algumas poucas e “anacrônicas” nações, como Cuba e Coréia do Norte; se a paz de cemitério inaugurada pelo capital monopolista neoliberal alcança hoje os mais remotos rincões da terra; se o inimigo hoje se organiza em células amorfas e descentralizadas, desvinculadas de territórios, partidos e Estados específicos, então contra quem se espera usar as tais armas nucleares como recurso de dissuasão? Talvez alienígenas comunistas invadam a planeta Terra qualquer dia desses, é bom se estar preparado...

É coincidência que os cinco Estados-nações que declaradamente possuem armas nucleares são, ao mesmo tempo, os cinco países-membros que ocupam o Conselho Permanente de Segurança da ONU? O fato de que as nações em posse das armas mais perigosas do mundo sejam justamente as “responsáveis” pela segurança das demais demonstra claramente como as ideias positivistas-evolucionistas, de que as nações industrialistas deixariam de se apoiar no recurso militar para se apoiar no consenso científico, eram ridiculamente tolas: a força e a violência, o poderio militar, são elementos-chaves no sistema mundial de nações, a base sobre a qual se assenta as relações entre elas, relações que são de dominação e exploração. Ao invés de uma paz mundial baseada no comércio e na diplomacia, hoje temos, assim como sempre tivemos, o consenso da força, segundo o qual o mais forte dá as cartas. E já que o monopólio da violência é visto como legítimo, como nos assegura Weber, sem se perguntar sobre as origens e a finalidades desse monopólio, consequentemente é legítimo que os donos das armas nucleares sejam os xerifes do mundo (livre?).

Outro modo de entender a importância do fator militar dentro do quadro político-econômico contemporâneo é quando se compreende que a hegemonia norte-americana ainda não foi colocada em xeque em função, entre outros fatores (sobretudo financeiros), de seu poderia bélico. A destruição completa do Iraque e do Afeganistão foi, entre outras coisas, um lembrete para o mundo. Além das ações concretas, os frotas navais norte-americanas vivem passeando pelo mundo, deslocando-se imediatamente para qualquer lugar onde se mostre uma ameaça aos interesses imperialistas de Washington, como os exercícios navais realizados no Golfo Pérsico este ano e no Mar do Caribe no ano passado. Exercícios militares próximos ao Irã e à Venezuela não são coincidências.

Nestes 50 anos decorridos da crise dos mísseis cubanos para cá muita água rolou por debaixo da ponte. Mas a sensação de que o capitalismo é um sistema histórico-social inquestionável, mesmo sofrendo abalos mais ou menos duros de tempos em tempos, continua uma fé aparentemente inquebrantável. Em 1962, Cuba era uma jovem república popular, que tinha acabado de rechaçar as mãos do império de sobre sua soberania, e que, uma vez livre, pôde definir seu projeto de sociedade como comunista. 50 anos depois, estamos a assistir ao desmonte desse projeto social, inviabilizado pela sabotagem da Casa Branca e da CIA, embora os cubanos tenham sido orgulhosos e bravos lutadores.

Passados todos esses anos, as armas nucleares, não obstante, permanecem intocadas, ainda que uma redução nos estoques tenha sido efetuada (nada que impeça que a humanidade seja destruída várias e várias vezes com os estoques que restam). É quase como se a humanidade tivesse sido agraciada por um presente trágico dos deuses, com o qual ela não pode viver e do qual ela não pode se livrar. Mas o fato de que elas não desapareçam juntamente com a Guerra Fria que as criou não se deve a que depois de descobertas torna-se impossível esquecê-las, mas sim a condições muito concretas e históricas que determinam a existência de Estado-nações competitivos, imperialistas e monopolistas, em constante confronto, aberto ou velado, entre si, num complexo sistema onde a hegemonia se define com base no poder econômico e no poder militar. As armas nucleares ainda servem, por exemplo, de pretexto para violar a soberania dos países que não se curvam aos desígnios de Washington. Se as coisas continuarem como estão, não é impossível (na verdade, é muito provável) que no próximo ano presenciaremos uma nova guerra, fabricada com os mesmos pretextos e as mesmas finalidades com que se fabricou, na década passada, a Guerra do Iraque.
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