segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Lukács, a comuna húngara e o marxismo: considerações sobre um intelectual burguês que se torna revolucionário

"[...] só se pode falar de democracia quando desaparecem todas as formas de dependência do homem frente ao homem, de exploração e de opressão do homem pelo homem, de desigualdade social e de ausência de liberdade."
Georg Lukács 

Resumo 

Lukács é um caso singular na história das grandes personalidades marxistas: advindo da intelligentsia pequeno-burguesa húngara, passou à história como o maior filósofo marxista do século XX. Sua adesão ao marxismo e ao comunismo, aparentemente ocorrida do dia para a noite, se apreciada de um ponto de vista imediato assume tons quase de uma conversão religiosa e torna-se praticamente inexplicável. Procuraremos argumentar que a filosofia materialista dialética foi, para Lukács, a consequência teórica, no plano individual, de um movimento histórico concreto: a crise do capitalismo imperialista. Assim, trata-se, nesse artigo, de analisar como e em quais condições Lukács ingressou no movimento comunista húngaro em fins de 1918, e quais foram as consequências imediatas para seu desenvolvimento intelectual ulterior. 
Palavras-chave: Georg Lukács – Revolução Húngara - Marxismo 

Introdução

Quando a Revolução Húngara explodiu em março de 1919 Georg Lukács era ainda um marxista novato – havia apenas quatro meses que ingressara no Partido Comunista húngaro. Isso não ofuscou sua participação política na curta existência da República Húngara dos Conselhos[1], na qual ocupou o cargo de comissário do Povo para a Cultura e Educação Popular e, em menor escala, como comissário político da quinta divisão no front contra os romenos. Em agosto a contra-revolução de Horthy já esmagara a frágil comuna, levando Lukács e milhares de outros ao degredo. 

Não obstante a pouca durabilidade deste acanhado ensaio revolucionário na Hungria, no que tange ao filósofo de Budapeste talvez tenha sido este o episódio de maior importância no desenvolvimento intelectual de toda a sua vida. Simplesmente porque nele operou uma verdadeira ruptura espiritual, levando-o a superar a visão de mundo pequeno-burguesa e a substituí-la pela perspectiva revolucionária do proletariado – ainda que de maneira alguma sob bases teórico-metodológicas sólidas[2]. Se Lukács passou à história como um dos mais eminentes teóricos marxistas do século XX, foi precisamente no conturbado período que vai do fim da Primeira Guerra até a fuga da Hungria em setembro de 1919, que Lukács inaugurou a essência daquilo que viria a caracterizá-lo enquanto intelectual ao longo de toda a sua vida[3]. “A evolução para o comunismo é a maior viragem, o maior resultado evolutivo na minha vida” (1999, p.161), afirmaria Lukács, em tom testamental, cinquenta e dois anos depois. 

A partir daí, o filósofo marxista participou ativamente, direta e indiretamente, pela construção concreta do socialismo. Vale recordar, evidentemente, uma obviedade: Lukács move-se num quadro histórico-social em que o socialismo não somente era uma alternativa real ao capitalismo, como era um processo tangível já em curso, cujo epicentro localizava-se na experiência soviética de 1917. Como Lukács julgava – julgamento expresso em seus ensaios da época, e que foram publicados em 1923 sob o título de História e consciência de classe (HCC) –, tal processo era irresistível; opinião que, dado o contexto da época, era perfeitamente aceitável, mas que deu margem à acusação de que Lukács sustentava uma visão messiânica e fatalista da história – crítica que, de fato, o filósofo acatou, mas não sem antes se defender: se havia elementos messiânicos na sua interpretação do materialismo dialético devia-se principalmente a uma incompleta ruptura com a dialética hegeliana. Em 1918-19 o pensamento luckasiano, embora já houvesse superado o idealismo neokantiano que caracterizara seus primeiros passos intelectuais, era ainda uma mistura de sociologia marxista com idealismo objetivo hegeliano. 

Advindo de uma influente família burguesa budapestense, Lukács foi, até as portas da comuna, um autêntico intelectual burguês. Em novembro de 1918, um mês após a tomada de poder pelos radicais burgueses e pelos reformistas social-democratas e um mês antes de ingressar no recém-formado PC húngaro, Lukács assina um manifesto liberal democrático pedindo pelo “estabelecimento de uma livre confederação das nações” (Löwy, 1998, p.157, grifo do autor). Como explicar, então, uma ruptura tão rápida quanto radical com a classe a que pertencia para esposar a perspectiva histórica da classe proletária? Será que Marx e Engels tinham razão quando escreveram no Manifesto Comunista que 

nos períodos em que a luta de classes se aproxima da hora decisiva, o processo de dissolução da classe dominante, de toda a velha sociedade, adquire um caráter tão violento e agudo, que uma pequena fração da classe dominante se desliga desta, ligando-se à classe revolucionária, à classe que traz nas mãos o futuro [?] (1998, p.49). 

Pode-se afirmar que as razões do seu trânsito ao marxismo e, consequentemente, ao comunismo nos são até hoje misteriosas na medida em que ainda suscitam, entre opositores e partidários do legado lukacsiano, altercações apaixonadas acerca da natureza desta transição. Há aqueles que classificam a adesão de Lukács como “conversão religiosa”, correlacionando essa “opção existencial” não apenas a seu suposto fracasso teórico posterior, porque calcado numa crença irracional, como também ao fato de ter tomado partido, acriticamente, pelo stalinismo. Outros vêem nesse momento de transformação teórico-política da biografia de Lukács um processo de ruptura com suas concepções filosóficas anteriores, ruptura que, não obstante, constitui parte de um desenvolvimento orgânico. De certo que no presente artigo tomamos partido dos lukacsianos e rechaçamos as acusações, para nós infundadas, de que o período em questão marcaria uma “conversão”, no sentido religioso do termo, de Lukács ao marxismo e ao comunismo. Conversão esta que, supostamente, o filósofo teria inadvertida e desesperadamente tentado sustentar até a morte. De resto, julgamos que a improcedência desse tipo de argumentação, cujos porta-vozes podem ser encontrados – mas que de modo algum limitam-se a estes – nos autores de Anotações sobre a Ontologia para o companheiro Lukács (F. Feher, A. Heller, G. Markus e M. Vadja; paradoxalmente, antigos alunos de Lukács), já foi suficientemente demonstrada por Sérgio Lessa e Nicolas Tertulian[4] (Lessa, 2002, pp.16-24). 

A despeito das singularidades históricas, que não pretendemos em absoluto velar, que diferem nitidamente aquele momento da atual conjuntura, talvez com o estudo da transição de Lukács ao comunismo, na medida em que constituiu algo sui generis em relação a outros eminentes marxistas de grande peso histórico como Vladimir Lênin e Rosa Luxemburgo, e na medida em que representou um caso típico de um intelectual burguês[5] que passa a esposar a causa proletária, pode-se, de alguma forma, lançar luz sobre os processos sociais que transcorrem atualmente no seio da luta de classes, sobretudo em sua dimensão ideológica e cultural. Michel Löwy tem um interessantíssimo estudo a respeito dos intelectuais que se tornam revolucionários. Nesse sentido, Lukács lhe parece um caso ideal. É claro que muita água passou por debaixo da ponte: de 1919-23[6] até hoje, o chamado socialismo real simplesmente foi do sonho ao pesadelo, e, às vésperas do século XXI, enfim soçobrou. Mas este enorme e substancial ínterim não desmerece ou injustifica uma análise das condições sócio-históricas que levaram Lukács a abandonar sua “classe” em favor da classe que trazia o futuro em suas mãos. Ao contrário, tem muito a nos dizer sobre nosso próprio momento histórico e sobre as novas tarefas que se impõem. Ademais porque, forem quais forem as mudanças ocorridas no sistema capitalista, são mudanças que dizem respeito à forma e não ao conteúdo social, isto é, não modificaram a essência do ser social, que, portanto, permanece capitalista. Nesse sentido, Löwy pergunta-se: 

Afinal, se encontramos na obra do jovem Lukács elementos para uma leitura do marxismo radicalmente oposta à dos manuais soviéticos estalinistas ou pós-estalinistas, não seria legítimo e oportuno voltar a estudar esta obra precisamente depois da queda do muro de Berlim e da dissolução da URSS? (1998, p.11). 

Esta questão levanta e requer uma consideração: a oposição de Lukács ao regime político de Stalin não pode ser considerada homogênea, muito menos transparente e direta. Foi, na verdade, uma oposição travada, como o próprio denomina, nos moldes de “uma espécie de guerra de guerrilha”, de modo que as suas opiniões dissidentes foram expressas “tanto quanto os limites do movimento histórico aos poucos o permitisse” (1983, p.91). Disso podemos até deduzir contradições entre as postulações teórico-políticas de Lukács – delineadas em HCC e nas Teses de Blum –, e suas ações práticas, notadamente no período que vai de 1933 até 1956, ou seja, aproximadamente durante todo o período de hegemonia inconteste de Stalin. Mas como e porque Lukács se concilia com o stalinismo é uma questão de difícil resposta. Podemos nos arriscar a conjecturar algumas. Talvez dois fatores principais fizeram com que ele se entrincheirasse, sem partir para o confronto direto: um de ordem histórico-social, outro de caráter pessoal. Em primeiro lugar, Lukács via no avanço do nazifascismo a consequência político-ideológica do irracionalismo filosófico, cujos efeitos sobre a humanidade seriam ainda mais destrutivos do que o modo de produção capitalista. Para ele, o totalitarismo fascista representava o “inimigo mortal”, “destruidor de todo a civilização” (1983, p.91), de modo que partir para o confronto com o stalinismo poderia ter um efeito revés, fortalecendo o inimigo. Em segundo lugar, com a ascensão de Hitler ao poder, Lukács se encontrava emigrado – seu segundo exílio –, já em 1933, em Moscou, fato que lhe tolhia em grande medida a capacidade crítica frente ao governo de Stalin. Quando o XX Congresso do PCUS decide acertar as contas com o passado criminoso, personalista e burocrático da era stalinista, em 1956, Lukács se vê enfim livre dos entraves para opinar a respeito dos rumos que a URSS tomou e para rever suas posições[7]

Feito este parênteses, passemos, portanto, a uma breve análise acerca das condições que, em dois de dezembro de 1918, resultaram num Lukács comunista. 

Lukács: um revolucionário in statu nascendi 

Antes de tudo, convém explicitar a baliza metodológica à qual recorremos para a análise da evolução política de Lukács ao marxismo. 

Para José Paulo Netto, as periodizações essencialmente cronológicas e fragmentárias, propostas por autores que procuraram responder à questão, embora demarque mais ou menos corretamente as inflexões do pensamento lukacsiano, não iluminam estruturalmente a sua trajetória intelectual, compreendida, pelo citado autor, como um conjunto global cujo desenvolvimento constituiu um movimento orgânico. Portanto, Netto propõe que 

é necessário conceber a evolução lukacsiana sob duplo condicionamento: a atenção à totalidade da obra de Lukács e a referência ao momento histórico de que emerge. Em suma: a verdade da obra lukacsiana só é passível de ser tomada estabelecendo seu tempo e seu modo. (1981, p.30). 

É evidente que, porquanto sequer podemos apreciar uma fração da obra de Lukács nas curtas lindas de um artigo, jamais poderíamos oferecer um ponto de vista virtualmente totalizante do pensamento lukacsiano de modo satisfatório. Assim, infelizmente teremos que nos contentar com uma abordagem mais histórico-biográfica do que teórico-metodológica do desenvolvimento intelectual de Lukács, com todas as vicissitudes que dela podem decorrer. De qualquer maneira, a descrição mais direta que temos acerca do caminho de Lukács até Marx é, muito convenientemente, um seu artigo autobiográfico intitulado Meu caminho até Marx[8]. Na medida do possível, neste texto encontramos alguns elementos do “modo” de que fala Netto. 

Como dito inicialmente, Lukács foi, até à iminência da explosão revolucionária do pós-guerra, um teórico pertencente à intelligentsia pequeno-burguesa húngara. Mesmo no momento decisivo, ele titubeou, ainda que brevemente, para passar às fileiras do proletariado. É de se pensar que algo de grande impacto lhe tenha impressionado suficientemente para que compreendesse o papel do proletariado enquanto sujeito histórico. Lukács já havia recebido com contentamento a notícia do êxito que a Revolução bolchevique lograra em outubro passado na Rússia e a perspectiva de um mesmo acontecimento na Hungria lhe agradava enormemente. O fato é que Lukács encontrava-se, à época, num momento de profunda comoção intelectual, de profundo desespero diante do beco sem saída ao qual o capitalismo tinha conduzido a humanidade e que desembocara na tragédia da Primeira Guerra Mundial. Após uma belle époque inteira de “prosperidade”, o capitalismo exibia suas instáveis contradições estruturais, que tragicamente cobravam seu preço em milhões de vidas, deixando a Lukács o sentimento de que a vida moderna era, na conceptualização de Fitche, a “época da pecaminosidade consumada” (1999, p.157). 

Lukács opôs-se desde sempre aos valores socioculturais, éticos e estéticos, da sociedade capitalista. Mesmo em sua fase mais idealista (que significa também mais jovem), quando ainda influenciado fundamentalmente por uma visão de mundo transcendental de tipo neokantiana, o filósofo já ostentava uma perspectiva pessimista e trágica da realidade capitalista. É sintomático que, mesmo os intelectuais membros do Círculo Max Weber[9], do qual Lukács participara durante a guerra, lhe tinham como um jovem idealista “a quem agitavam esperanças escatológicas da chegada de um novo Messias” (Weber apud Löwy, 1990, p.56). O estudo de Löwy sobre a relação entre romantismo e marxismo conclui que, nesta fase do filósofo (1910-1919), Lukács se definia por uma peculiar síntese entre misticismo ateu – isto é, caracterizado não por alguma religião específica ou na crença de um deus, mas por uma espiritualidade universal do homem, de inspiração fortemente dostoievskiana – e socialismo utópico – ou seja, baseado no apreço à vida comunitária em contraposição aos valores individualistas (Löwy, 1990, pp.53-67). 

Toda esta repulsa de Lukács pela vida burguesa, tanto em suas expressões ético-culturais, quanto das condições socioeconômicas objetivas extremamente ultrajantes ao homem enquanto ser genérico e no modo como isto se manifestava em crises cada vez mais destrutivas, levou-o a sustentar uma visão de mundo trágica e um sentimento anticapitalista essencialmente romântico. Antes de encontrar uma saída para a pecaminosidade consumada na concepção materialista-dialética da história, Lukács entregou-se a este anticapitalismo romântico típico de uma fração da intelligentsia pequeno-burguesa. O que caracteriza a “visão romântica de mundo” é que nela “um passado pré-capitalista se encontra ornado de uma série de virtudes”, sobretudo “a predominância de valores qualitativos” (Löwy, 1990, p.13), em contraposição à ditadura do frio cálculo que rege o capital. Enquanto filósofo das artes e da cultura, a quantificação da vida social era para Lukács algo abominável. Entretanto, ele rejeitava tanto a “modernização”, nos moldes ocidentais, da atrasada sociedade húngara, como também a via da glorificação de um passado idílico e idealizado. Noutras palavras, nem a capenga ordem feudal ainda resiliente, nem a burguesia progressista pareciam-lhe uma saída para o dilema moderno da humanidade[10]. Aqui percebemos a aproximação de Lukács a um intelectual da maior importância na vida do filósofo, Endre Ady, poeta lírico húngaro: ambos rejeitavam “não só a velha Hungria feudal, como também o ‘progresso’ burguês e ocidental” (Löwy, 1998, p.115). Seria necessário, portanto, um tertium datur. 

Embora tivesse tido contato com os escritos de Marx desde o ensino secundário, devido aos seus pressupostos metodológicos neokantianos Lukács não estava em condições de compreender consequentemente a perspectiva marxiana da história. No prefácio de 1967 à História e consciência de classe, Lukács confessa que durante a primeira década do século XX, quando procurava fundamentar sociologicamente sua obra sobre a História do desenvolvimento do drama moderno, o que lhe “interesaba era el ‘sociólogo’ Marx, visto a través de una lente metodológica principalmente debida a Simmel e a Max Weber” (1969, p.X). Seu estudo d’O capital causou-lhe grande impressão, em especial a justeza da “teoria da mais-valia”, da “concepção da história como história da luta de classes”, e da “articulação da sociedade em classes”. Entretanto, continua Lukács, “Naquele momento, como é óbvio no caso de um intelectual burguês, essa influência se limitou à economia e sobretudo à ‘sociologia’” (1983, p.86). Lukács acabou assim esterilizando as consequências ontológicas do Marx filósofo e economista político, ao restringir sua influência a problemas epistemológicos das “ciências do espírito” – como a tradição kantiana concebia as ciências humanas. 

Com a explosão da guerra imperialista do capitalismo, que assumiu a forma concreta de uma guerra entre nações expansionistas, a falta de referenciais teóricos capazes de responder e explicar o movimento histórico real traduziu-se em Lukács numa crise intelectual-filosófica desesperadora. Era-lhe impossível continuar sustentando o idealismo – “a menos que os fatos históricos fossem solenemente ignorados, era insustentável a manutenção de uma postura filosófica para a qual a historicidade concreta era uma dimensão inessencial” (Lukács, 1981, p.34), escreve José Paulo Netto. Lukács, então, substituiu o idealismo subjetivo de Kant pelo idealismo objetivo de Hegel – o que, de fato, não resolveu corretamente o problema. Esta situação deu uma guinada à esquerda somente com os presságios da revolução socialista que se avizinhava no fim da guerra: “Sólo con la Revolución Rusa se abrió, también para mí, una perspectiva de futuro en la realidad misma, ya con la caída del zarismo, pero todavía más con la caída del capitalismo” (Lukács, 1969, p.XII). 

Enfim, a rebeldia e o desespero que se somavam em Lukács encontraram uma válvula de escape na vaga histórica da revolução proletária. Sua visão trágica de mundo era assim substituída pela possibilidade real, efetiva da superação do capitalismo pela ditadura do proletariado e, posteriormente, pelo comunismo. Entretanto, deve-se ter claramente que esta peculiar formação intelectual estava ainda bem pouco desenvolvida à época, e levaria muitos anos mais até que Lukács pudesse extrair completamente as consequências de sua adesão ao marxismo – sobretudo porque via Marx através da dialética hegeliana. Netto nos confia que o seu marxismo era problemático “precisamente pela síntese mental de que era resultante”, e, por isso, seu socialismo era muito mais resultado de “uma petição ética de princípio” (1981, p.35) do que da percepção de um movimento historicamente concreto e determinado. Percebe-se isso facilmente pelo caráter necessarista e irresistível que caracteriza o movimento histórico tal qual aparece em HCC e através do qual o homem chegaria à sociedade emancipada. Lukács romperia definitivamente com estes elementos teleológicos em sua concepção histórico-dialética somente entre 1929 e 1933, sua terceira e última etapa em direção à Marx. 

Tudo indica que o lapso de tempo entre a Revolução de Outubro, o fim da guerra imperialista e a via revolucionária que se abria na Europa entre 1917 e 1919 confluíram em Lukács para produzir uma saída à encruzilhada teórica em que se encontrava. A resolução das graves contradições históricas do capitalismo deixa de ser, para Lukács, um problema do “espírito” para se tornar um problema material, cujo cerne reside na luta de classes e cujo desfecho não deveria ser outro senão o socialismo e o comunismo. Está precisamente aí o tertium datur que Lukács procurava: a aufhebung dialética do ser social capitalista por meio da ação consciente do sujeito histórico (a classe). De uma “rejeição radical do mundo e [d]a tentativa de transcendê-lo através de um milagre” (1990, p.59), Lukács chega à concreta concepção histórica de que a classe proletária, enquanto parte da contradição essencial que caracteriza o ser capitalista e, ao mesmo tempo, enquanto sua própria solução e síntese, é o único sujeito histórico que possibilitará esta efetiva superação do modo de vida capitalista e, com ele, todo o passado pré-histórico da humanidade baseado na exploração do homem pelo homem. 

Referências bibliográficas 

LESSA, S. Mundo dos Homens: trabalho e ser social. São Paulo: Boitempo Editorial, 2002. 

______. Para uma ontologia do ser social: um retorno à ontologia medieval? In: ANTUNES, R; RÊGO, W. (orgs.). Lukács: um Galileu no século XX. São Paulo: Boitempo Editorial, 1996. 

LÖWY, M. A evolução política de Lukács: 1909-1929. São Paulo: Cortez Editora, 1998. 

_______. Romantismo e messianismo. São Paulo: Perspectiva; Editora USP, 1990. 

LUKÁCS, G. Historia y consciencia de clase. México: Grijalbo, 1969. 

_______. Meu caminho para Marx. In: CHASIN, José. (org.). Marx Hoje. Nova Escrito/Ensaio, ano V, nº 11/12, 1983. 

_______. Pensamento vivido: autobiografia em diálogo. São Paulo: Estudos e Edições Ad Hominem; Viçosa: Editora UFV, 1999. 

MARX, K. Manifesto do partido comunista. São Paulo: Boitempo Editorial, 1998. 

NETTO, J. P. Lukács: tempo e modo. In: LUKÁCS, G. Lukács. São Paulo: Ática, 1981. 

TERTULIAN, N. Uma apresentação à ontologia do ser social de Lukács. Crítica Marxista, 3, 1996, pp.54-69. 

Notas
___________________
[1] Finda a Primeira Guerra, a Tríplice Aliança estava derrotada e o império Austro-Húngaro despedaçado. O vácuo político reorganizou a Europa e as revoluções socialistas varreram o leste europeu e a Alemanha, sendo, contudo, rapidamente abafadas pela contra-revolução. Na Hungria, a revolução burguesa, com Mihály Károlyi à frente, assume o poder em outubro de 1918. Em março de 1919 os comunistas tomam o poder sob a liderança de Béla Kun e proclamam a República Húngara dos Conselhos. 

[2] “Estábamos muy poco preparados intelectualmente para dominar aquellas grandes tareas, también yo, o acaso yo menos que ninguno; el entusiasmo intentó substituir a trancas y barrancas el saber y la experiencia” (Lukács, 1969, p.XII). Somente com o exílio em Viena, após a derrota em agosto, abriu-se para Lukács um tempo de aprendizagem, que só se completaria em Moscou, nos anos 30’s, quando tomou contato com textos inéditos de Marx (Manuscritos econômico-filosóficos e A ideologia alemã). 

[3] Não queremos com isso afirmar que o autor não teve transformações significativas de 1919 para cá – o que, em verdade, seria absolutamente falso, uma vez que transformações, diga-se de passagem, não foram poucas na trajetória do filósofo –, mas que foi precisamente este o momento no qual Lukács inflectivou diametralmente seu horizonte mental, sobretudo no que tange às suas opiniões teóricas e ideológicas, passando definitivamente para as hostes do proletariado. 

[4] No estudo citado, a censura que os ex-alunos de Lukács lhe fizeram diz respeito às idéias do filósofo contidas na sua última grande obra, Para uma ontologia do ser social; entretanto, é cabível recordarmos dela num estudo sobre o “jovem” Lukács porque, para os autores de Anotações, as idéias equivocadas da Ontologia seriam o reflexo das posições problemáticas contidas já em HCC, seriam a última tentativa desesperada que Lukács encontrara para legitimar sua dogmática opção existencial pelo comunismo. 

[5] Não tão típico quanto, temos que recordar, Friedrich Engels(!), filho primogênito de um grande industrial têxtil alemão, com negócios que se estendiam até Manchester, até então, o maior centro industrial do mundo. 

[6] Fazemos referência ao período de ativo trabalho teórico-político de Lukács no movimento comunista, cujo resultado foi HCC. 

[7] Seja como for, Lukács parece nunca ter posto em dúvida aquilo que ele considerava como uma justa defesa de Lênin e Stalin: a necessidade do socialismo em um só país, contra a teoria da revolução permanente de Trotsky. 

[8] O referido artigo foi escrito em dois momentos: um em 1933, em Moscou, e outro, post-scriptum, em 1957, já na fase da desestalinização. Nele Lukács pondera acerca das mediações necessárias que o levaram até o conhecimento correto da ciência marxiana. Cf. Lukács, 1983. 

[9] Entre cujos participantes encontravam-se nomes como Tönnies, Sombart, Simmel, Alfred Weber, Honigsheim, Lask, entre outros. Lukács trava contato com Max Weber em 1913 quando deixa a Hungria e vai para Heidelberg. 

[10] É explicativo do seu universo mental à época que tenha dito, quanto ao fim da guerra: “Os exércitos alemão e austríaco talvez derrotem os russos, e aí os Romanoff cairão. Tudo bem. Também pode ser que os exércitos alemão e austríaco sejam derrotados pelo exército anglo-francês e que os Habsburgos e os Hohenzollern caiam. Tudo bem também. Mas, então, quem nos protegeria das democracias ocidentais?” Cf. Lukács, G. op. cit. 1999, p.45.
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