quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Halloween ou Saci? Cultura popular e imperialismo

Ontem e hoje as redes sociais foram inundadas por manifestações nacionalistas em prol do Saci e da cultura popular brasileira. Este debate, que opõem o Saci e o Halloween enquanto representantes de duas culturas, uma colonizada e outra colonizadora e/ou imperialista, é infundado. Na verdade, esse tipo de opinião me parece muito mais próxima daquele discurso nacionalista que entende as culturas nacionais de modo exclusivista, um discurso que usa a ideia da preservação da cultura nacional (uma ideia válida, em outros termos) como camuflagem para uma posição política e ideológica chauvinista.

O Halloween (ou como o chamamos no Brasil, Dia das Bruxas) é parte de uma manifestação cultural tão popular quanto os personagens do folclore brasileiro. Remonta ao século XVIII. Não surgiu com o capitalismo e não foi imposto pelo imperialismo norte-americano. Sem dúvida, é certo que hoje a indústria cultural se apropria dessa tradição (assim como se apropria e ressignifica toda forma cultural popular, colocando nela um rótulo e um direito autoral e transformando-a numa mercadoria rentável) e a vende para países de mentalidade colonial como o nosso. Mas entre isso e a manifestação cultural em si existe uma grande diferença. 

Intercâmbio cultural não necessariamente é aculturação etno-centrada decorrente do domínio de uma sociedade sobre outra. Posso muito bem brincar de Halloween fantasiado de Saci. Mais uma vez, é claro que, no caso das relações culturais dos EUA com o resto do mundo, a difusão e aceitação de seu modo de ser e ver e estar no mundo é uma condição à sua posição hegemônica em outros campos, como os político e econômico. O fato de que as crianças brasileiras de hoje nunca tenham ouvido falar em Saci, mas saibam do que se trata o bordão "gostosuras ou travessuras" é, sem dúvida, motivo de preocupação. Mas questão não é essa. 

A questão é: porque hoje em dia nós brasileiros praticamente desconhecemos a nossa própria cultural popular (e, curioso, nós mesmos vemos a nossa própria cultura como exótica, como se nos fosse alheia), ao passo que, não apenas conhecemos muito melhor a cultura ianque, como dela fazemos uma espécie de modelo a ser seguido (e, curioso, sentimo-nos muito mais próximos à ela do que à nossa própria cultura popular). O problema, portanto, é muito mais embaixo: o que está matando o Saci (ou seja, a cultura popular brasileira) não é o Halloween, mas a televisão e a mídia de modo geral. Vemos filmes hollywoodianos, escutamos as músicas selecionadas pela MTV, lemos os livros estúpidos e vazios que eles definem como "best sellers", assistimos às séries que eles produzem pela TV à cabo. 

Somos norte-americanizados em todos os sentidos: no jeito de se vestir, no que gostamos de comer, de ver e ouvir; em suma, no jeito de ser: queremos ser como eles são. Aí, o cidadão consciente e brasileiro com orgulho, resolve virar nacionalista no dia do Saci simplesmente porque ele cai junto com o dia do Halloween, mas no dia seguinte vai ao shopping comer McDonald, assistir Duro de Matar trocentos e lá vai cacetada e comprar um jeans da Lewis. Como uma saudosa banda do interior de São Paulo cantou um dia em refrão: "desligue a TV e saia para a rua/ajude o Brasil a recuperar sua cultura!"
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