quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Desastres naturais e urbanização

A mídia burguesa se desdobra em atenções ao estrago causado pelo Furacão Sandy nos EUA, ao passo que esquece não apenas que outros países (no Caribe) foram por ele afetados como também que nós aqui, em terras tupiniquins, estamos absolutamente despreparados para enfrentar a temporada de tempestades ocasionada no verão. Já se esqueceram que, apenas em janeiro do ano passado, as chuvas mataram de um único golpe algo em torno de 1200 pessoas na região serrana do Rio de Janeiro (o mais grave desastre natural jamais ocorrido no Brasil), e que o governo fez pouco ou, de fato, nada fez para precaver o país de uma nova tragédia.

Como sempre, os majoritariamente afetados são pobres, que, à míngua de uma política urbanística que lhes atenda a necessidade de moradia digna, se empoleiram nas encostas de morros e em outras regiões de risco. Em abril de 2010 mais de 200 pessoas morreram no Rio de janeiro em razão de enchentes e deslizamentos de terra. Note-se que o estado em questão é particularmente sensível a deslizamentos de terra, dada sua formação geológica e o padrão de ocupação territorial.

Prevenir esse tipo de desastre não é tão simples como equipar/treinar a Defesa Civil ou outros órgãos governamentais; exige toda uma redefinição da política urbanística e habitacional, em termos de prioridades e finalidades da estrutura urbana - voltada para garantir moradia barata e de qualidade àqueles que mais necessitam, além de combater a especulação imobiliária. A tempura está a subir, e tempestades e trombas d'água serão cada vez mais frequentes. A mídia e o poder público de modo geral trata desastres naturais como inevitáveis e naturais.

Se é óbvio que tais fenômenos são inevitáveis e naturais (ainda que o fato de estarem intensificando-se deva-se à ação humana), o mesmo não se pode dizer das suas consequências. Estas podem ser eliminadas ou reduzidas. O fato de que sejam os pobres as maiores vítimas também não tem nada de casual; é reflexo de uma lógica de ocupação geográfica e urbana que exclui a população trabalhadora das áreas nobres e condena os pobres a viverem em locais inabitáveis. A urbanização aos "trancos e barrancos" (literalmente), e o abandono pelo Estado dessa parcela da população, ainda vai matar muita gente se não for feita uma profunda intervenção neste quadro.
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