segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Contra o Estado fascista e terrorista de Israel

Quem é contra o Estado de Israel tem de conviver com a acusação corriqueira de ser antissemita. Ora, eu não tenho nada contra os judeus enquanto povo, e, no que se refere ao judaísmo, não lhe sou mais avesso do que sou em relação ao cristianismo, ao islamismo e, de modo geral, a todas as religiões do mundo (em suma, à religião enquanto tal). As razões pelas quais sou ateu são, no que toca à acusação de antissemitismo, irrelevantes aqui. O que é importante é que antes de ser ateu eu sou um humanista. Isso quer dizer que embora meu modo de ver o mundo seja incompatível com a religiosidade, a religião enquanto manifestação cultural de um povo tem todo o meu respeito. Logo, eu não estou contra o povo judeu mas sim contra o Estado de Israel, e assim como muitos árabes acredito que ele deve ser destruído, não apenas para garantir os direitos do povo palestino, mas também porque está muito claro que, mais do que nunca, Israel se tornou uma ameaça mundial (como a tangível ameaça de guerra contra o Irã deixa manifesto).

Criticar a criminosa política israelense em relação aos palestinos e, de modo geral, ao mundo árabe no qual o país está inserido (lembremos, por exemplo, da invasão ao Líbano, na década de 1980), assim como botar em causa a existência de seu Estado, tornou-se um tabu, e todos que o quebram correm o risco de ser taxados de antissemitas. A grande mídia (que importa sua pauta jornalística dos EUA), o lobby israelense e o discurso institucionalizado estão a todo momento nos lembrando das agruras pelas quais passou o povo judeu nas mãos de Hitler (fazendo questão de esquecer, vale notar, que o mundo ocidental era tão antissemita à época da II Guerra quanto o próprio Hitler) ou nos dois mil anos durante os quais tal povo passou desterrado. Mais uma vez este argumento confunde, intencionalmente ou não, o povo judaico-israelita com o Estado de israel, embora as duas coisas sejam bem diferentes. Não digo que os cidadãos de Israel não são cúmplices, em certa medida, da política encabeçada historicamente por seus dirigentes. Mas ainda assim existe uma diferença enorme entre os israelenses enquanto cidadãos e enquanto povo. E o fato de que os judeus, enquanto povo, tenham sido vítimas da história ocidental desde os tempos do Império Romano, não os autoriza, enquanto cidadãos, a fazerem o mesmo em relação a outro povo, agora no papel de algoz.

É uma necessidade premente reconhecer que Israel constituiu-se como um Estado fascista e terrorista, em grande parte devido aos seus estreitos laços com os EUA (de fato, Israel nasce antes de tudo como peça central do tabuleiro geopolítico imperialista e não, como ridiculamente se acredita, como uma tomada de consciência do ocidente em relação às condições de vida dos judeus, ou seja, como uma afirmação de direitos historicamente negados) e, também, a uma ideologia conhecida como "sionismo", tão nociva quanto o "nazismo". Mais uma vez, o discurso corrente argumenta que as características militaristas de Israel se devem à necessidade de autodefesa, imposta por sua localização geográfica: o país seria uma espécie de oásis ocidental cercado por árabes megalomaníacos, fundamentalistas e bárbaros. Com isto, esquece-se (estou inclinado a dizer que de forma consciente e premeditada) que o invasor daquelas terras é precisamente os israelenses-sionistas (que, embora judeus, com estes não se equivalem de modo direto: antes de constituído o Estado de Israel, ou seja, antes de a ideologia sionista tomar corpo material, os judeus, embora em minoria, já se encontravam na palestina, ao menos desde a segunda metade do século XIX, e conviviam pacificamente com os muçulmanos). Os palestinos foram, desde então, massacrados e lançados em prisões a céu aberto (Gaza, de fato, é a maior prisão do mundo, algo que não se via desde os guetos de Varsóvia); tiveram sua voz e seus direitos revogados, e suas terras confiscadas.

Portanto, devemos em primeiro lugar admitir que o assim-chamado, convenientemente, "processo de paz" (supostamente paralisado pela má-vontade dos palestinos) é uma farsa através da qual se camufla o verdadeiro projeto político do par Israel-EUA, que nada menos é do que a limpeza étnica na região da Palestina. Além disso (e por isso mesmo), a única representação que os israelenses aceitam dos palestinos é a de um governo deslegitimado e corrompido (do partido Fatah), que faz às vezes de advogado de Israel e não de liderança política na luta pela libertação palestina. Em segundo lugar, devemos admitir que a solução de dois Estados é inviável e impossível, não apenas porque um dos lados (o dos israelenses) não a quer, mas porque, na hipótese de que ela se realize, será impossível para ambos os povos (sobretudo, é claro, para os palestinos) esquecerem-se dos mais de 60 anos de conflito, morte e sofrimento. Ódio e preconceito não apagam-se da noite para o dia, e muito menos mediante meios político-administrativos. Assinar um papel não basta. Por fim, em terceiro lugar, os israelenses hoje dominam não só a maior parte da região originalmente em posse dos palestinos, como também as melhores terras. Seria uma completa cretinice acreditar que os palestinos devem aceitar os guetos pobres e estéreis nos quais foram confinados enquanto a parte que lhes cabe na solução de dois Estados.

Esses três motivos são fortes o suficiente para acabar com qualquer pretensão e fé tolas de que seria possível resolver o "conflito" (se é que se pode chamar de conflito uma situação que, na verdade, trata-se de segregação, opressão e domínio de um povo sobre outro mediante, por um lado, a força militar e, por outro, a legalização jurídica, baseada na instituição da não-pessoa, de direitos distintos entre eles: um apartheid, no sentido lato do termo) na base de um acordo amigável entre israelenses e palestinos. Qual seria a solução então?
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