terça-feira, 16 de outubro de 2012

As falhas epistemológicas da sociologia


A sociologia de modo geral tende a tratar os fatos e processos históricos e sociais de forma estanque, separados entre si e relativamente independentes. Assume, às vezes inconsciente e acriticamente, que cada um deles pode ser estudado em sua particularidade, desconsiderando-se as interrelações mantidas entre eles. Um exemplo particularmente representativo desta orientação metodológico é o modo como correntemente se analisa e se explica dois dos mais importantes processos sócio-históricos para a constituição da modernidade (pressupondo-se neste termo o modo de produção capitalista): a Revolução Francesa e a assim-chamada Revolução Industrial. Geralmente, ambos processos são entendidos e caracterizados em separado, como se as transformações políticas, por um lado, e econômicas, por outro, embora conjuntamente necessárias para a constituição da atual realidade sócio-histórica, tivessem produzido-se e desenvolvido-se de modo relativamente independente uma da outra. Assim, cai-se num tipo de explicação que é basicamente ou idealista ou materialista-abstrata: de um lado, a Revolução Francesa é entendida como um fenômeno histórico surgido a partir de ideias, novas e revolucionárias, as ideias de igualdade, liberdade e fraternidade; e, de outro, a Revolução Industrial é entendida como um fenômeno histórico resultante do desenvolvimento tecnológico, ou seja, da materialidade pura e simples, em especial do surgimento da máquina a vapor. Ambas as explicações são, em última instância, abstratas porque não explicam o que deveriam explicar; ao contrário, tomam como premissa aquilo que demanda explicação: como surgem as ideias de liberdade, igualdade e fraternidade? Em que a máquina a vapor se relaciona com a forma de organização social moderna, baseada na propriedade privada? O essencial não se explica. Neste sentido, as ideias apenas surgem, e o desenvolvimento tecnológico é conseguido ao sabor do acaso, através de descobertas casuais. Ao invés de buscar as causas imanentes da processualidade histórica e da transformação social, a sociologia busca-as em fatores externos, e é por isso que elas são obrigadas a estabelecer um ponto de partido teórico abstrato, não demonstrável. Não é possível demonstrar que as ideias apenas surgem, à revelia da realidade social concreta; assim como não é possível determinar o acaso e a contingência. O que o materialismo histórico-dialético oferece-nos, no quesito epistemológico, é a certeza de que nenhum processo sócio-histórico pode ser compreendido isoladamente e à revelia da realidade concreta (histórica e socialmente determinada) na qual eles se realizam. As ideias que marcaram a Revolução Francesa, e sem as quais não se explica o mundo contemporâneo, não são entes abstratos que voejam sobre as nossas cabeças e são por elas apreendidas de forma mais ou menos arbitrária, mas elas nascem, se afirmam e se desenvolvem dentro e através de uma realidade em transformação profunda, onde o antigo mundo feudal está sendo destruído e dando lugar a um novo mundo, o capitalista. Essas ideias são pilares ideológicos centrais para a sustentação deste novo mundo, e, como tais, são necessários; exercem força material e são, pelas próprias forças materiais, reproduzidas. A ideia de liberdade e igualdade poderia surgir no feudalismo, mas não teria qualquer significado dentro daquela estrutura societária; assim como o conteúdo que elas adquirem na sociedade capitalista pode variar e efetivamente varia de uma forma societária para outra. Do mesmo modo, a tecnologia não é por si só desejável; não se produz tecnologia em função de uma espécie de fetiche, que geralmente se toma como sendo uma características inerente ao gênero humano. É claro que conhecer e transformar são dois aspectos ontológicos daquilo que se pode chamar, cum grano de salis, de natureza humana. Mas a tecnologia por si só não é um impulso primário (e tampouco o impulso único) da história e da transformação social (com efeito, qualquer tentativa de explicar a complexa realidade social a partir de um único fator (explicação monocausal) deve necessariamente sossobrar). Ela surge no interior de formas e organizações societárias muito específicas, e é dentro delas que a tecnologia deve ser compreendida. Assim, a indústria é um produto da sociedade capitalista em desenvolvimento, e não o oposto. É o surgimento de uma relação social específica, o capital, e a acumulação dessa relação cristalizada sob a forma de mercadoria (a acumulação de capital), que dá o impulso necessário ao surgimento de novas tecnologias e, com elas, a indústria mecanizada. Sem essa compreensão caímos no fetiche do determinismo tecnológico. A indústria, quando posta em formas sociais diferentes, como a socialista em contraposição à capitalista, torna-se uma atividade muito diferente daquele que estamos acostumados à ver. A Revolução Russa é filha da Revolução Industrial tanto quanto a sociedade ocidental, contudo é fácil perceber como em cada uma dessas sociedades a indústria e o progresso tecnológico assumem formas e finalidades bem distintas – ainda que se possa falar da Revolução Russa como uma “revolução traída”, e que cada vez mais convergiu para uma sociedade de classes e baseada na propriedade privada. A história, portanto, é uma mistura de necessidade e contingência; de particularidade e universalidade. O cientificismo positivista, nódoa que está na raiz da sociologia, por mais avanços que ela tenha feito deste Comte e Durkheim, ainda eiva a sua forma de observar, compreender e explicar o mundo dos homens/mulheres. Ainda toma os fatos sociais como se fossem coisas, estáticas e independentes entre si. 
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