quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Alguns aspectos problemáticos do conceito de barbárie


Sinceramente não me agrada o termo "barbárie", que aos poucos vai se consolidando, para qualificar as condições de vida no capitalismo contemporâneo. Refiro-me aqui ao âmbito acadêmico, e, embora o pensamento sociológico de modo geral sempre esteve às voltas com esse problema desde seu surgimento, e sempre utilizou-se do termo de uma maneira ou de outra, refiro-me sobretudo ao significado com que tem sido empregado ultimamente. Não pretendo aqui nomear os bois, mas tem até sociólogo tentando dar rigor conceitual ao termo barbárie e erigir teorias sobre a sua base...

Esse termo me lembra o evolucionismo morganiano, e me parece que remete a noções equívocas de progresso e linearidade histórica (sem contar que, etimologicamente, o termo é carregado de significados hoje inaceitáveis, como a distinção etnocêntrica entre "nós", os civilizados, e "eles", os bárbaros). O capitalismo neoliberalizado/financeirizado é um retrocesso da história? É problemático encaminhar a questão por aí, porque ela pressupõe uma concepção da história equivocada: a de que a história faz progresso enquanto lei necessária e, de certa forma, natural. Falar em progresso significa , igualmente, falar em decadência, a outra face de uma mesma moeda. A barbárie significa, portanto, a decadência da civilização ocidental ao fim de um ciclo de progresso. Mas com que critério se julga essa decadência? No interior de uma sociedade existem muitos pontos de vista, e o que é decadência para uns é progresso para outros, e vice-versa. Impugnar a ideia de progresso como um erro, comum durante o avanço tecno-científico da época vitoriana, não significa excluir toda noção de progresso. A história e o ser social fez progresso. Mas é forçoso reconhecer que o longo e complexo processo pelo qual ele se deu é muito mais multifacetado, multidirecional, inconstante e imprevisível do que se imagina. Ademais, se é incontestável que se fez progresso em relação à produção social, à tecnologia e ao conhecimento natural-científico, o mesmo não se pode dizer tão acerbamente com relação a outras esferas da atividade humana. É verdade que a liberdade individual e a noção de direitos civis e políticos instituídas pelo desenvolvimento do capitalismo representam avanços em comparação aos vínculos e às relações que sujeitavam o camponês medieval a uma ordem cosmológica estática. Mas esse avanço não se faz sem contrapartidas regressivas, tal como a sujeição das novas classes trabalhadoras a uma liberdade e igualdade formal, que, como tais, são aparentes e ilusórias. Nem mesmo o desenvolvimento material em si – aquilo que se percebe, não sem razão, como o mais notório progresso da humanidade – pode ser avaliado unicamente em termos de progresso, uma vez que o modelo que pautou tal desenvolvimento foi, até o momento, eminentemente destrutivo no que se refere à relação sociedade/natureza (e hoje ameaça a por a perder tudo o que conquistamos).

Além disso, o termo barbárie obscurece as determinações centrais de classe. Barbárie para quem? O fato de que aparentemente – aparentemente porque (e essa não é uma questão negligenciável ou menos importante) há uma tendência subjetiva de perceber a própria realidade e o próprio tempo histórico com paradigmáticos, seja num sentido positivo (como Hegel percebia), seja num sentido negativo (como Fitche percebia); assim, como saber se a barbárie é hoje maior do que durante a época da Primeira Guerra? ou do que durante a dissolução do Império Romano? Ademais, note-se que a percepção subjetiva de barbárie varia não apenas segundo o tempo, mas também segundo o espaço e segundo as classes, grupos e culturais a partir das quais é entendida – o mundo de hoje é cada vez mais incontrolável e destrutivo não nos autoriza a esquecer que nem todos são atingidos igual e uniformemente por essa barbárie. A burguesia e os ricos estão muito confortáveis dentro de seus enormes carros climatizados e de seus condomínios fechados, enquanto os trabalhadores, cada vez mais oprimidos e explorados, são esmagados dia-após-dia sob condições de vida aviltantes, seja dentro de ônibus e metrôs abarrotados, pela violência que grassa nas periferias, ou seja "simplesmente" pela ansiedade e angústia gerada pela falta de segurança econômica (incluído aí o peso da dívida crescente que lhes esmaga); pela impossibilidade de criarem seus filhos e viverem suas famílias de forma digna e plena; pela forma de existência que lhes aparta e lhes aliena de seus semelhantes; etc. Parafraseando Marx e a personagem de um filme brasileiro (Quase dois Irmãos), "todos nós perdemos com o mundo de hoje, mas uns perdem mais bonito do que outros". Portanto, é natural que, sob condições distintas, a concepção que se tem da barbárie e o significado que se dá ao termo varia bastante, mesmo que certa definição geral possa ser definida.

Outra questão importante: o que é barbárie? Muito do que pode ser atribuído à barbárie é parte da luta dos trabalhadores e oprimidos para quebrar suas correntes. Neste sentido, barbárie me parece um termo elitista (confesso que ele soa a mim como pedantismo acadêmico, cujo olhar científico pretende ver na sociedade algo como um sistema disposto de forma relativamente organizado, conquanto nem sempre harmônico, e que tem certa ojeriza da profusão caótica com que se realiza a vida), cujo conteúdo torna-se essencialmente conservador, na medida em que imagina, como imaginavam os industrialistas de tipo saint-simoniano ou os marxistas revisionistas, que se pode abrir caminho através da história sem conflito e sem sangue e lágrimas derramados. Se a barbárie é um momento necessário do devir histórico, como o martelo que malha o ferro incandescente, então eu dou as boas vindas à barbárie, entendida como tempo de agitação e de luta, quando sopram novos ventos vindos de horizontes desconhecidos. Me pergunto: a situação de relativa desordem na Europa é expressão da barbárie? Do ponto de vista dos “indignados”, da “geração à rasca”, os protestos, as passeatas, as greves, as batalhas de rua não tem nada a ver com a barbárie, senão pelo fato de que constituem uma oposição ela, ou seja, à barbárie que o capitalismo gera. Mas, assim sendo, o capitalismo é essencialmente bárbaro, e sua barbaridade não se restringe à atual conjuntura histórica. Se não se reconhece isto, então vamos continuar falando em barbárie, tal como se tem falado, como quem morre de amores saudosistas por tempos idos, quando o acordo keynesiano garantia uma relativa pax social. Mas até ver o Estado de bem-estar (europeu, sobretudo) como um baluarte do mundo civilizado contra o mundo bárbaro é um erro, grotesco aliás, porque esquece que tal paz e tal consenso civilizado foram garantidos na base da imposição da barbárie às nações e povos colonizadas do terceiro Mundo.

Por fim, uma questão essencial e uma justificativa: problematizar a noção de barbárie e as noções correlatas que ela levanta (progresso, decadência, etc.) não significa (ou ao menos não deve significar) diluir toda a realidade numa espécie de niilismo, onde não existe nenhum valor positivo e negativo ao qual se apegar ou refutar. O ponto que eu levanto aqui é que essas noções, intrinsecamente valorativas (axiológicas), não são inocentes, ou seja, não estão esvaziadas de juízos de valor com relação ao que pode ou não ser considero progresso, decadência, etc. E não são inocentes não apenas porque possuem significados diferentes para grupos sociais diferentes, mas também porque trazem consigo mais de um século de história, grandemente determinada por concepções filosóficas positivistas e evolucionistas. Os juízos de valor que carregam são sempre unilaterais, e refletem uma dada posição objetiva e subjetiva no interior da vida social. Não se trata, portanto, de relativizar todo contexto e momento históricos em sua própria singularidade, tornando impossível identificar o que em cada um deles representa um avanço ou um retrocesso. Trata-se de assumir, como ponto de partida, que todo processo histórico e social é o resultado de forças contraditórias que se interpenetram e forçam o resultado para todas as direções. Um processo histórico-social é, assim, progressivo e regressivo a um só tempo. O problema que o pensamento marxista se coloca é: no interior desta dialética pode-se encontrar, a cada momento, um critério valorativo que figure verdadeiramente como universal? Pode um determinado juízo de valor ser unilateral, pela sua própria natureza, e ao mesmo tempo universal, pela natureza do devir histórico? Todos os pontos de vistas se pretendem universais, mas é preciso estabelecer (ou melhor apreender na própria realidade) critérios objetivos que nos permitam julgá-los neste sentido. Foi isso que Lukács tentou fazer em História e Consciência de Classe, e, embora o resultado ao qual chegou seja objeto de discórdia, me parece que o problema é essencialmente válido. Assim, barbárie não tem o mesmo significado para a classe burguesa e para a classe trabalhadora. A primeira, de fato, se beneficia dessa barbárie. Seu ponto de vista não pode ser considerado universal porque expressa interesses e necessidades que são contrárias ao fluxo da história, não em um sentido teleológico, evidentemente, mas no sentido de que sua dominação e sua existência dependem da manutenção e da conservação (daí seu ponto de vista inerentemente conservador) da realidade social tal qual ela se constituiu nos últimos séculos. Se é impossível à história, por princípio, permanecer indefinidamente imóvel, a burguesia tenta mantê-la girando em falso, reproduzindo sempre a mesma lógica sob formas diferentes.
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