terça-feira, 30 de outubro de 2012

Adeus Serra! Mas, atenção: o continuísmo burguês em São paulo continua

Como é bonito ver o Serra pegar o seu banquinho e sair de fininho - não apenas das eleições municipais deste ano, mas do cenário político, já que provavelmente a sua carreira política acabou neste último domingo.

Os dados mostram que ao nível de rejeição de Serra foi somar-se uma clara determinação sociogeográfica: enquanto que na região central os votos foram dados majoritariamente para o candidato do PSDB, a população das "quebradas" de São Paulo depositou maciçamente sua fé em Haddad. É o mesmo padrão que se verificou na última eleição nacional para presidente, na qual Dilma levou vantagem sobretudo na região norte e nordeste. Ou seja, embora, no que se refere à eleição em São Paulo, o "fenômeno" Russomano tenha desequilibrado a balança, há um evidente recorte socioeconômico e, no limite, de classes norteando a distribuição eleitoral em relação aos campos políticos esquerda-direita. 

Esse é o tipo de padrão de distribuição eleitoral cuja causa a direita vê na "ignorância" dos pobres, os quais supostamente caem como patinhos no engodo das práticas populistas do PT (só o termo populista aqui já está carregado de sentido elitista e preconceituoso: para a direita, qualquer política feita em nome dos e para os pobres é taxada pejorativamente de populista). 

O problema é que Haddad não é a renovação, mas o continuísmo da política burguesa sob uma nova roupagem, pretensamente de esquerda. A gestão do PT no governo federal deixou isso muito claro ao longo dos últimos 10 anos nos quais o partido esteve no poder. A questão que se levanta para a verdadeira esquerda é como trabalhar politicamente a consciência social/de classe das classes trabalhadoras, no sentido de transformar sua insatisfação e tendência (crescente?) a depositar seu voto na esquerda em militância decididamente socialista, desmistificando o voto no PT. 

Há, portanto, algo a ser comemorado na vitória de Haddad: o fato de que ela, talvez, indique uma vontade de renovação da cena política brasileira e, sobretudo, de um governo com a cara da classe trabalhadora. Essa disposição das classes populares e baixas deve ser usada a nosso favor. 

Post-scriptum

Para quem acompanha os fatos políticos nacionais e a evolução dos principais partidos no país, e que conhece o sentido das distinções ideológicas do campo político, é ou deveria ser evidente que o PT não é mais um partido de esquerda, mas sim um represente da burguesia. O fato de que entre a burguesia brasileira e seus sequazes midiáticos vigore ainda um forte sentimento antipetista/antilulista (devido a um preconceito elitista boçal, que não as deixa ver que o PT hoje é a melhor opção política de direita no Brasil, algo que alguns “novos burgueses”, como o Eike Batista, ou grandes corporações nacionais vinculadas à construção civil, por exemplo, já reconhecem) é irrelevante. 

Quando falo em “verdadeira esquerda” refiro-me a uma orientação político-partidária comprometida com um projeto socialista de transformação social, em consonância com os interesses históricos da classe trabalhadora. Pode-se ver isto sobre dois pontos de vista. Num primeiro, mais abstrato, não me refiro à verdadeira esquerda na forma de um partido específico. A esquerda é uma dinâmica social em processo eterno de construção e mutação, derivada do jogo de forças que caracteriza as relações contraditórias e conflituosas entre as classes e grupos sociais de uma determinada sociedade. O PT foi, a trinta anos atrás, a melhor e mais promissora opção para a esquerda brasileira. As transformações sociais e as lutas políticas em curso desde então transformaram completamente esse quadro. Se apegar ao passado é um atitude equivocada e desvirtua a análise e a caracterização dos campos políticos no presente. Se não fosse assim, ainda diríamos que o Serra é de esquerda, já que foi presidente da UNE, exilado político no Chile durante a ditadura militar, chegando mesmo a ser preso em 1973, durante o golpe pinochetista, no Estádio Nacional onde milhares de socialistas foram mortos. 

O segundo ponto de vista a que me referia é mais concreto, e a verdadeira esquerda, neste sentido, pode ser definida na forma de um partido (ou partidos) específico dentro do atual cenário político brasileiro. Nesse caso, eu nutro uma sincera simpatia pelo PSTU, pela sua perspectiva de classe, seu programa político e sua estratégia, embora em alguns pontos de menor monta eu tenha discordâncias. Outros partidos fazem parte do que eu considero como “verdadeira esquerda”, como o PSOL, a LER, o POR, o PCB, embora nesses partidos eu veja, nuns menos noutros mais, profundos problemas teóricos e práticos que inviabilizam seus projetos políticos. 

Então, a verdadeira esquerda não é um determinado partido que eu pudesse julgar, pessoalmente, como tal (como a minha verdade, e a minha visão de esquerda), mas um partido dos trabalhadores, pelos trabalhadores e para os trabalhadores. Me parece que isto é um critério objetivo. Muitos partidos que se encaixam nessa definição não são viáveis. Mas como eu disse, a forma de ser da esquerda (como todo espaço no campo político) é sempre um resultado histórico momentâneo de forças políticos e sociais em eterno conflito; ou seja, é autoconstrução. A verdadeira esquerda está, assim, para ser construída. 

Mais do que nunca, quando a mídia conservadora e o pensamento cotidiano, bem como certos setores da intelectualidade, falam do PT como esquerda, é necessário que falemos em "verdadeira esquerda" em oposição à esquerda cooptada e corrompida.
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