terça-feira, 18 de setembro de 2012

Vaidade e ociosidade acadêmica não é o mesmo que neutralidade e objetividade científica!

De novo, a velha lenga-lenga da neutralidade da ciência. O positivismo é uma bacteriazinha safada escondida na grande maioria das correntes teórico-metodológicas das ciências sociais. Uma espécie de disjuntiva psicológica (de esquizofrenia, se quiserem) pode ser observada nos acadêmicos de hoje. Negam virulentamente o positivismo, mas adotam, inadvertida e sub-repticiamente, o princípio basilar deste paradigma: a separação absoluta entre sujeito e objeto. Acham que fazer ciência a partir de um ponto de vista neutro, de algum modo deslocado para além das lutas/conflitos da realidade social, é possível.

Por exemplo: os artigos que li tratando da realidade atual da Grécia, no que se refere à sua situação econômica e, mais especificamente, às características da sua força de trabalho, assumem (quase sem exceção) a necessidade político-econômica de aumentar a competitividade do país através da modernização da legislação trabalhista. Essa "modernização" nada mais é do flexibilização, precarização e redução de direitos e garantias. Partem do pressuposto (não exposto) de que essas novas características da força de trabalho são, senão essencialmente boas, ao menos necessárias. E estou falando se sociólogos, não de economistas stricto sensu. 

O curioso é que, aparentemente, os autores desses artigos são respeitáveis acadêmicos, imparciais e neutros, que se posicionam objetivamente diante da realidade. Nenhum deles gostaria de admitir que o pressuposto do qual partem tem raízes sociais e históricas muito concretas. Há 50 ou 40 anos atrás, os mesmos parvos e ingênuos acadêmicos partiriam do pressuposto de que o trabalho deve ser regulado e rigidamente organizado, através da participação ativa do Estado, como meio de garantir a tão sonhado "competitividade" e, com ela, o crescimento econômico. Agora, esses animais de tetas, olhando retrospectivamente para a época do consenso keynesiano, tripudiam sobre a inocência dos acadêmicos da época, que supostamente confundiam aspirações humanitárias e universalistas de justiça social com necessidades e leis econômicas.

Quando será que esses acadêmicos estúpidos irão aprender que toda ideia é histórica e socialmente determinada? Quando irão aprender que não há nada de glorioso e magnânimo em estar (ou pretender estar) acima da luta de classes? Não há nada mais vão, vaidoso, fútil e ocioso do que criar conhecimento para guardá-lo a sete chaves no alto da torre de marfim onde os pobres, os trabalhadores, os oprimidos estão proibidos de entrar. Conhecer por conhecer (assim como a arte pela arte) nada mais é do que uma prática egocêntrica para satisfazer o ego de indivíduos estouvados pertencentes a uma casta intelectual. 

Mas quiçá o que é ainda mais curioso sobre isso tudo é que, diante da manifesta futilidade de uma ciência social que não serve para nada, os honrados cavaleiros da nova ordem acadêmica afirmam que, sim, que eles pretendem contribuir para mudar o mundo (mas que fique bem claro que não serão eles a eivar suas angelicais mãos científicas com a prática política!). Engraçado como eles querem mudar o mudo sem fazer uma referência se quer à luta de classes, tendo alergia de partidos e fazendo cara-feia quando alguém menciona a palavra "proletariado"! 

Nobres aristocratas acadêmicos, vocês são incapazes de compreender que neutro, neste mundo, só mesmo sabão de coco, e que, por mais que vocês fujam de Marx como o diabo da cruz, vocês têm que enfiar na bunda essa arrogância pequeno-burguesa e procurar aprender com ele. Sua afirmação é um tapa na cara da instituição acadêmica: até agora vocês são pensaram o mundo; o que interessa é transformá-lo. (Captche?)
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