sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O idealismo objetivo de Hegel: a identidade ontológica entre sujeito e objeto

A essência do pensamento de Hegel está na Razão; ela “é [a] substância, ou seja, é através dela e nela que toda realidade tem o seu ser e a sua subsistência” (2005, p.53). A Razão, que para ele está identificada com o Universal, o Absoluto, é o princípio da existência de toda realidade. Assim, o pensamento surge como sujeito, como a própria força criadora da realidade, do ser em-si, ao passo que a realidade em-si mesma aparece como resultado desse pensamento. Não deve-se confundir o pensamento em questão com o modo de raciocinar humano e exclusivamente individual. Aqui quem pensa e cria o mundo é a consciência Divina, Absoluta, Universal, embora ela se manifeste efetivamente através das consciências particulares dos homens. Nesse sentido, o sistema de Hegel pode ser entendido, sem prejuízos, como uma teodicéia. É Deus quem, ao pensar o mundo, o cria, e o processo do seu pensar é o próprio processo do mundo[1]. Todo o sistema hegeliano desdobra-se a partir da Razão ou Idéia. Esse princípio imprincipiado só pode se desenvolver e ganhar existência concreta, saindo da sua condição inicial, a Idéia abstrata e estática, se contiver dentro de si o princípio da contradição. A Idéia é unidade, mas é unidade que contém em si os opostos, opostos idênticos. Como resultado dessa tensão imanente, a Idéia desdobra-se em Tese, Antítese e Síntese. Tudo o mais virá do encadeamento lógico da Idéia, agora exteriorizada e assumindo uma existência concreta no mundo, enriquecendo-se cada vez mais através do movimento negativo que transforma cada Síntese numa nova Tese[2]

Note-se como, para Hegel, tudo se resolve de maneira lógica; e essa lógica é a lógica dialética. A lógica é a própria estrutura da Idéia e, como tal, é também a estrutura da realidade. 

Estamos falando da dialética hegeliana: de um movimento pelo qual realidades novas se explicitam, se deduzem, graças à contradição, à oposição que existe na realidade anterior. Se perguntarmos, pois, a Hegel, como as realidades se deduzem necessariamente, a resposta é esta: por um movimento dialético. Se perguntarmos por que o princípio imprincipiado não resta eternamente a única realidade, a resposta está aí: ele carrega em si a contradição e a luta de opostos. (NÓBREGA, 1974, p.32-3). 

O real, enquanto processo, vai da unidade ao heterogêneo, do universal ao particular, do abstrato ao concreto, sendo que a heterogeneidade, a diferença, a contradição, só podem ser corretamente compreendidas – e, por corretamente, entenda-se dialeticamente – como momentos de uma unidade. Sem o princípio da contradição, de uma contradição fundada na identidade dos opostos, se os opostos fossem colocados lado a lado sem nenhuma identidade entre eles, todo o movimento da realidade se enrijeceria, cessaria mesmo, restando em seu lugar o fixo, o estático, o imutável. “Não há vida, se cada coisa não for simultaneamente, e a princípio secretamente, o outro de si própria”; a dialética é, portanto, “uma lógica da unidade dos contrários.” (D’HONDT, 1987, pp.43-4) 

“A Idéia [...] é a vida eterna de Deus, como era, por assim dizer, antes da criação do mundo, a conexão lógica (de todas as coisas). Ela ainda carece, a esta altura, da forma de ser que é a realidade. Ainda é o universal, o imanente, o representado” (HEGEL, 2008, p.72). A realidade passa a existir – real e existente são, portanto, estados distintos[3] – a partir do movimento dialético da Idéia que, ao se exteriorizar no mundo, ou seja, ao alienar-se de si mesma em razão de um impulso contraditório imanente a ela, dá inicio a um processo de autodesenvolvimento dialético no qual a Idéia, que era absoluta e abstrata, vem pouco a pouco a se enriquecer com mais e mais mediações, ou seja, vem a se concretizar em múltiplas determinações. O movimento dialético parte, portanto, do abstrato e indeterminado, para o concreto e determinado. A necessidade que faz com que essa Idéia abstrata desencadeie o processo pelo qual ela vem a existir e a se autodesenvolver é uma necessidade puramente lógica: o Ser, que se afirma como tese, é negado pelo Não-Ser, sua contrapartida lógica e oposta, e a contradição se resolve no Vir-a-Ser, a antítese que supera e preserva a contradição entre a tese e a antítese[4]. O sistema hegeliano, portanto, inicia-se com o desdobramento inicial e necessário da Idéia, impossibilitada de permanecer una e dividida ao mesmo tempo, desencadeando o movimento dialético que dá existência a todas as coisas. Tudo que existe, portanto, já existia in nuce, como necessidade, no interior da primeira tríade dialética, ou antes, na Idéia em si mesma. Nesse sentido, o mundo e a história, no sistema hegeliano, cumprem um movimento teleológico, cujo fim, embora só venha a ser conhecido no e pelo próprio movimento que dá origem, está dado desde o primeiro momento. 

Uma grande tríade, composta por tríades menores, compõe o sistema hegeliano: Idéia (tese), Natureza (antítese) e Espírito (síntese). Hartman traduz limpidamente esse complicado movimento: 

A Idéia-em-si é o que se desenvolve, a realidade dinâmica do depois – ou antes – do mundo. Sua antítese, a Idéia-fora-de-si, ou seja, o Espaço, é a Natureza. A Natureza, depois de passar pelas fases dos reinos mineral e vegetal, se desenvolve no homem, em cuja consciência a Idéia se torna consciente de si. Esta autoconsciência da Idéia é o Espírito, a antítese de Idéia e Natureza, e o desenvolvimento desta consciência é a História. (op. cit., p.21) 

Chegamos, assim, ao ponto principal que pretendíamos fazer ver do sistema hegeliano: o da história como processo de autoconscientização da Idéia. O autodesenvolvimento da Idéia, após passar pela mediação passiva da Natureza, chega à possibilidade de se autoconhecer através da consciência humana, tornando-se Espírito. O tempo do Espírito, em que ele vem pouco a pouco a se autoconhecer – somente – mediante a atividade dos homens, organizados em povos, sociedade civil, estados e nações, é a História. 

[...] pode-se dizer que a história do mundo é a exposição do espírito em luta para chegar ao conhecimento de sua própria natureza. Assim como o germe contém em si toda a natureza da árvore, o sabor e a forma de seu fruto, os primeiros vestígios do Espírito virtualmente contêm o conjunto da história. (op. cit., p.64) 

Em Hegel, tudo é autodesenvolvimento da Idéia, e esse autodesenvolvimento torna-se autoconhecimento[5] quando o Espírito surge como síntese entre a Idéia abstrata e a Natureza; autoconhecimento é o processo pelo qual a Idéia toma consciência de sua própria realidade através da atividade humana. Portanto, para o homem, o autodesenvolvimento da Idéia significa sua própria história, sua própria existência enquanto ser social. Todo o desenvolvimento artístico, religioso, científico etc., numa palavra, cultural da humanidade nada mais é do que o processo pelo qual o Espírito, encarnação da Idéia no homem, vem a se autoconhecer, tornando-se consciente da sua própria verdade. “A história do mundo é a manifestação do Divino, o absoluto desenvolvimento do Espírito em suas formas mais elevadas. É este desenvolvimento que faz com que ela atinja a sua verdade e a consciência de si” (op. cit., p.103). Assim, o ser material, a realidade que tem existência concreta, surge como predicado, como resultado do pensamento que se autopensa, que se autoconhece. Daí a máxima “O que é racional é real e o que é real é racional” (HEGEL, 1976, p.13). A realidade é racional em si mesma porque é expressão, manifestação da Razão; é, de fato, a própria Razão na qualidade de existente. Entretanto, deve-se salientar que nem tudo o que existe é racional, mas só aquilo que está conforme os imperativos universais da Razão. Tudo o mais é contingente – é, portanto, fenômeno – e deve perecer. 

Estamos, agora, em condições de compreender os dois principais aspectos da filosofia hegeliana: o primeiro, de ordem ontológica mas que tem também implicações epistemológicas, baseia-se na categoria “sujeito-objeto idênticos”; o segundo, de ordem lógica, sustenta todo o movimento do real no interior de uma totalidade: as relações entre universalidade, singularidade e particularidade – a chamada “doutrina do silogismo”. Todo o sistema hegeliano está baseado numa ontologia que une sujeito e objeto numa relação de identidade. “O objeto do sujeito é o próprio sujeito” (NÓBREGA, 1974, p.43). A realidade é, a um só tempo, pensamento e ser, ainda que o princípio dominante venha a ser o pensamento; o ser em-si mesmo é, também, ser para-si mesmo, ainda que a consciência de si só venha a surgir em seus estágios mais avançados de desenvolvimento – isto é, quando surge o homem como ser racional e separado da natureza, ou, noutras palavras, quando o Espírito aparece como a síntese entre a Idéia e a Natureza; este movimento de autoconscientização passa pelas mediações da arte e da religião para chegar ao conhecimento absoluto através da filosofia. Epistemologicamente falando, a ontologia hegeliana implica na recusa do dualismo kantiano. Em Kant, pensamento e ser estão cindidos, e ao pensamento não é dado a faculdade de conhecer a coisa em si, mas apenas de percebê-la através de categorias a priori, isto é, dadas anteriormente à experiência. 

Segundo Kant, o mundo exterior só produz a matéria da sensação, mas o nosso aparelho mental ordena esta matéria no espaço e no tempo e proporciona os conceitos por meio dos quais compreendemos a experiência. As coisas em si mesmas, que são as causas de nossas sensações, são incognoscíveis; não estão no espaço nem no tempo, não são substâncias, nem podem ser descritas por nenhuma deste conceitos gerais que Kant chama “categorias”. O espaço e o tempo são subjetivos; fazem parte de nosso aparelho de percepção. (RUSSELL, 1977, p.249-50) 

Portanto, não é que a coisa em si não exista, sabemos que existe porque ela é o conteúdo da experiência, todavia, não estamos em condições de conhecermos sua essência porquanto essa experiência passa invariavelmente pelo filtro de categorias que possuímos aprioristicamente. Em Hegel, pelo contrário, o pensamento é o próprio ser, e, consequentemente, o desenvolvimento do ser é a explicitação do seu conteúdo racional, a Idéia. Decorre que, para Hegel, em franca oposição à Kant, não só é completamente possível o conhecimento absoluto da realidade e de seu conteúdo racional, como é em si necessário. 

O primeiro aspecto que enunciamos está ligado à perspectiva idealista de Hegel. Conhecimento e ser, sujeito e objeto, homem e natureza não são apenas aspectos distintos de uma mesma realidade, mas são, ambos, a mesma realidade. Daí porque autodesenvolvimento do ser em-si nada mais é do que autoconscientização para-si do ser em-si. As artes, a religião, a ciência e a filosofia – em suma, a história do Espírito – não existem enquanto processualidade concreta e historicamente determinada senão enquanto realização, efetivação, da Razão ou da Idéia. Os homens reais, com suas paixões e suas eternas disputas, são joguetes de uma força que lhes é externa, mas que, contudo, só existe quando, através deles, se efetiva e se desenvolve. Por detrás desse pano de fundo histórico, a Razão tece seu desígnio ou o seu fim último que é o reencontro da Idéia consigo mesma; a realização do universal, não mais como universal abstrato, mas agora como universal concreto, que sintetiza no particular as múltiplas determinações singulares colhidas ao longo do seu movimento dialético de desenvolvimento. “Para Hegel, o homem é o agente de uma fase final do retorno de Deus a si mesmo” (KONDER, 1967, p.16). Esse fim último permanece inabalável mesmo nas paixões e nos acessos de irracionalidade dos homens, sendo estas, na verdade, um meio em última instância necessário para a realização daquela verdade última. 

Por outro lado, no que tange àquele segundo aspecto, a lógica dialética, entendida como o movimento que vai do universal abstrato, passando pelas particularidades, até chegar ao universal concreto (ou singular), quando aplicada nessa moldura idealista subverte o real movimento do ser em-si. Como para o método dialético nada pode ser estático e existir, ou seja, tudo é processo, é desenvolvimento de uma unidade que explicita e resolve as suas próprias contradições internas, a identidade sujeito-objeto a nível ontológico só pode se realizar nessa forma lógico-abstrata. As tríades dialéticas afirmam, negam e tornam a negar – negação no sentido positivo de superação-conservação – tudo o que existe, sem, contudo – como é o caso de Hegel –, de maneira a respeitar a própria lógica do objeto, do ser em-si, mas forçando seus desdobramentos por necessidade lógica. Por estrita necessidade lógica, a Idéia desenvolve-se através de tríades dialéticas, impulsionada pela tensão contraditória imanente a ela. A partir de um universal abstrato (a Idéia), seu desdobramento no particular (mundo concreto), elevando-se, enfim, novamente ao universal agora como universal concreto. Nessa visão imanentista da história, mas vista de um ponto de vista idealista, a própria história é a resolução do encadeamento lógico cujas determinações já estavam pressupostas já no início do próprio conceito. 

Simplificamos o fio do sistema hegeliano mais do que o permitido, porém, o que nos interessa aqui, é apreender o núcleo de seu idealismo, ou seja, a relação ser/pensamento concebido como uma identidade ontológica, cuja ênfase, cujo momento positivo recai sobre o pensamento. Podemos trocar a palavra “pensamento” por “conceito” sem prejuízos; pelo contrário, para que não confundamos o pensamento divino, o conceito, a Razão, com a faculdade subjetiva de raciocínio dos individuais – que Hegel define como “entendimento” – é até mais rigoroso considerar o desenvolvimento do pensamento na realidade como desenvolvimento do conceito[6]. Foi esse idealismo que os Jovens Hegelianos e – especialmente quem nos interessa aqui – Feuerbach repudiaram, porém no qual, inadvertidamente, acabaram recaindo. 


NOTAS

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[1] Em suas lições sobre filosofia da história Hegel dizia: “Neste aspecto, o nosso método é uma teodicéia, uma justificação de Deus” (2008, p.60). Entretanto, deve-se ajuntar a isso a ressalva de que essa face teológica da filosofia hegeliana difere sobremaneira essencialmente da teologia teísta. Feuerbach demonstrou a diferença do Deus do teísmo do da filosofia especulativa. No teísmo, a essência, o universal é Deus, mas Deus numa forma exterior ao mundo e ao homem; no idealismo, a essência divina é, ao mesmo, o conteúdo e a forma do mundo, de modo que a sua realidade não é transcendente mas imanente à realidade do mundo. Feuerbach, ao fazer a crítica à filosofia especulativa (dentre elas, o idealismo objetivo de Hegel), insistiu em seu caráter panteísta, isto é, a sua identificação entre pensamento, homem, mundo e Deus – “tudo o que não distingue Deus da natureza ou do homem é panteísmo” (FEUERBACH, 2002b, p.51): “Deus é um ser pensante; mas os objetos que ele pensa e em si concebe não são, tal como o seu entendimento, distintos do seu ser; por isso, ao pensar as coisas, apenas a si mesmo se pensa, por conseguinte, permanece em unidade ininterrupta consigo mesmo. Mas esta unidade do pensante e do pensado é o segredo do pensamento especulativo. 

Assim, por exemplo, na lógica hegeliana, os objetos do pensar não são diferentes da essência do pensar.” (FEUERBACH, 2002b, p.47). Os objetos do pensar e a essência do pensar, em sua unidade, é a Idéia, que se confunde – ou melhor, é – com o pensamento divino, aquela lógica pura e sem pressupostos que existe anterior à tudo. 

[2] A propósito, Hartman comenta: “Em um sentido quase literal, um pensamento ‘dá’ o próximo – tese levando à antítese, e ambos à síntese, a última servindo como nova tese para um outro trem de pensamento abrangendo o primeiro e assim por diante ad infinitum – até que toda o mundo e todas as coisas estejam apanhados na cadeia dialética.” (HEGEL, 2008, p.12) 

[3] “Pero, para Hegel, no todo logo que existe, ni mucho menos, es real por el solo hecho de existir. En su doctrina, el atributo de la realidad solo corresponde a lo que, además de existir, es necesario” (ENGELS, 1971, p.8). Tratando acerca da problematização desenvolvida por Hegel no que se refere às relações entre as categorias de particularidade, universalidade e singularidade, Lukács esclarece: “É necessário observar [...] que realidade tem em Hegel um significado específico, como culminação dos diversos graus dos conceitos de ser. Quando inexiste esta dialética de universal e particular o Estado correspondente possui somente uma existência, mas não uma realidade; o que, de acordo com o método de Hegel, significa que a dialética do processo histórico, mais cedo ou mais tarde, destruirá um tal Estado, aniquilará sua falsa existência” (1970, p.48-9); aqui entra o momento do estado como encarnação do Espírito – e, por conseguinte, da Idéia – no mundo. 

[4] É interessante os termos como D’Hondt coloca o idealismo hegeliano: “dai-me o ser e o nada, e construir-vos-ei o mundo!” (1987, p.48). 

[5] “A tese de Hegel é que toda consciência é autoconsciência (no sentido de que a autoconsciência é a verdade da consciência)” (REALE; ANTISERI, 2003, p.114). 

[6] “En Hegel, la dialéctica es el autodesarrollo del concepto” (ENGELS, 1971, p.42).
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