sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Hegel invertido: o “novo” materialismo na voz de Feuerbach

Feuerbach[1] colocou para si a ambiciosa tarefa de superar toda a história da filosofia, retirando-lhe os fundamentos idealistas e teológicos e recolocando-a sobre novas bases, agora centrados no homem e na natureza. O fulcro do projeto feuerbachiano para um novo filosofar assenta-se na crítica do pensamento teológico, que não se limita à própria religião, mas se estende à filosofia também e, de modo geral, ao pensamento até aqui desenvolvido. “A filosofia especulativa tornou-se culpada do mesmo erro que a teologia” (2002b, p.25). Se a filosofia moderna culminava com o sistema especulativo hegeliano, este nada mais era que, como vimos, a reafirmação de Deus mediante uma lógica racionalista e a sua realização imanente no homem, isto é, não mais transcendente[2]. “A essência da filosofia especulativa nada mais é do que a essência de Deus racionalizada, realizada e atualizada. A filosofia especulativa é a teologia verdadeira, consequente, racional” (parágrafo 5). Deus elevado à razão: Deus, portanto, é imanente ao homem, e a própria atividade do conhecimento da realidade é o conhecimento de Deus. Entendida a filosofia idealista moderna como uma teodicéia que se realiza mediante a auto-atividade do homem, e o seu modo especulativo de pensar como a negação da materialidade. A crítica à religião, ou mais especificamente à teologia (seja na forma religiosa seja na forma filosófica), é a questão central para Feuerbach se se quer construir uma nova filosofia. Feuerbach inverte tudo: contra o raciocínio especulativo-abstrato ele opõe o raciocínio contemplativo; contra o idealismo ele opõe o materialismo, a natureza; contra Deus ele opõe o homem. “A verdadeira relação entre pensamento e ser é apenas esta: o ser é o sujeito, o pensamento o predicado. O pensamento provém do ser, mas não o ser do pensamento.” (2002b, p.31). Seu método pode ser resumido no seguinte: “Temos apenas de fazer do predicado o sujeito e fazer do sujeito o objeto e princípio – portanto, inverter apenas a filosofia especulativa de maneira a termos a verdade desvelada,a verdade pura e nua” (FEUERBACH, 2002b, p.20). 

La trayectoria de Feuerbach es la de un hegeliano [...] que marcha hacia el materialismo; trayectoria que, al llegar a una determinada fase, supone una ruptura con fuerza irresistible la convicción de que la existencia de la “idea absoluta” anterior al mundo, que preconiza Hegel, la “preexistencia de categorías lógicas” antes que hubiese un mundo, no es más que un residuo imaginativo de la fe en un creador supraterrenal. (ENGELS, 1971, p.24, grifo nosso) 

A crítica da religião é radical: vai à sua raiz, que nada mais é do que o próprio homem. Por trás de todo pensamento teológico, religioso está o homem situado na natureza e na sociedade, com seus dilemas, sofrimentos e desejos, e são esses, bem como suas potencialidades inatas, que são expressos ou refletidos na imagem de Deus enquanto ser transcendente. Tudo o que o homem deseja ele imprime em Deus; Deus é a positividade absoluta, o homem a nulidade. Mas os pólos estão trocados. O homem é positividade, é potência, mas por desconhecer seus predicados, e por sofrer pelo desconhecimento, aliena ou objetiva sua essência nesse ser transcendente. Esta alienação é a essência de qualquer religião, que, contudo, encontra sua forma mais acabada no cristianismo. Os predicados divinos são, em verdade, predicados humanos. Assim, a razão, a vontade, o sentimento, são faculdades perfeitas do homem porque divinas. A qualidade de perfectibilidade e de infinitude divinas não são, propriamente divinas, são humanas, porque apenas um ser perfeito e infinito pode apreender um objeto como perfeito; a compreensão desse objeto é a compreensão do seu próprio conteúdo. Assim, compreender a infinitude divina é compreender a infinitude da razão, do sentimento, da vontade. Quando procura rastrear o origem dos predicados divinos no homem Feuerbach não encontra simplesmente a razão: os predicados divinos exprimem a tensão entre aquilo que o homem é e aquilo que deseja ser. 

A crítica à Hegel parte da noção de alienação teológica: “A lógica hegeliana é a teologia reconduzida à razão e ao presente, a teologia feita lógica. Assim como o ser divino da teologia é a quinta essência ideal ou abstrata de todas as realidades, [...] assim também [é] a lógica.” (FEUERBACH, 2002b, p.21). “A doutrina hegeliana de que a natureza é a realidade posta pela idéia é apenas a expressão racional da doutrina teológica, segundo a qual a natureza é criada por Deus, o ser material por um ser imaterial, isto é, um ser abstrato.” 2002b, p.31). Aqui temos, em resumo, a crítica à Hegel, tanto quanto à especulação quanto no que se refere à dialética, e sua teoria da alienação: “Abstrair significa pôr a essência da natureza fora da natureza, a essência do homem fora do homem, a essência do pensamento fora do ato de pensar. Ao fundar todo o ser sistema nestes atos de abstração, a filosofia hegeliana alienou o homem de si mesmo. Sem dúvida, identifica de novo o que separar; mas apenas de um modo que comporta de novo a separação e a mediação. À filosofia hegeliana falta a unidade imediata, a certeza imediata, a verdade imediata.” (2002b, p.22). 

O caminho até agora seguido pela filosofia especulativa, do abstrato para o concreto, do ideal para o real, é um caminho invertido. Neste caminho, nunca se chega à realidade verdadeira e objetiva, mas sempre apenas à realização das suas próprias abstrações [...]; pois, só a intuição das coisas e dos seres na sua realidade objetiva é que liberta e isenta o homem de todos os preconceitos. A passagem radical do ideal ao real tem o seu lugar apenas na filosofia prática. (2002b, p.25). 

Feuerbach pretendeu negar Hegel em todos os aspectos: não apenas o já atacado sistema pelos Jovens Hegelianos, mas também a própria lógica dialética que dava sustentação e dinamismo à constituição de toda a realidade e, portanto, que mantinha o sistema de Hegel em pé. O cerne da crítica feuerbachiana à Hegel é a religião. A inversão materialista que Feuerbach propunha, nesse sentido, descartava a dialética, identificando-a com uma abstração indevida, um princípio metafísico que regeria o mundo a partir de uma lógica abstrata. Assim, seu materialismo foi obrigado – e de bom grado – a permanecer no âmbito do sensível, do imediato, do empírico, atacando toda mediação como um recurso lógico-abstrato que violenta as próprias determinações materiais da realidade. O retorno à materialidade, em Feuerbach, coincide com um empirismo epistemológico que admite a sensação e a contemplação, bem como o sentimento e a paixão, como formas verdadeiras de conhecimento do homem e da natureza. 

Feuerbach demuestra que el Dios de los cristianos no es más que el reflejo imaginativo, la imagen refleja del hombre. Pero este Dios es, a su vez, el producto de un largo y difícil proceso de abstracción, la quintaesencia concentrada de los muchos dioses tribales y nacionales que existían antes de él. Congruentemente, el hombre real, cuya imagen refleja es aquel Dios, no es tampoco un hombre real, sino que es también la quintaesencia de muchos hombres reales, el hombre abstracto, y por tanto una imagen mental también. Este Feuerbach que predica en cada página el imperio de los sentidos, la sumersión en lo concreto, en la realidad, se convierte, tan pronto como tiene que hablarnos de algo que no sean las simples relaciones sexuales entre los hombres, en un pensador completamente abstracto. (ENGELS, 1971, p.34-5) 

Entretanto, embora desconfiasse da dialética e rechaçasse todo o sistema hegeliano fundado na realidade absoluta e a priori da Razão e da Idéia, Feuerbach retomou na sua crítica uma categoria central na filosofia de Hegel: o conceito de alienação enquanto exteriorização, objetivação da essência de um ser. Toda a sua critica da religião está baseada nessa teoria da alienação. Como vimos, para Hegel a realidade passa a existir a partir da exteriorização da Idéia, impossibilitada de permanecer una em razão das contradições que fermentam em seu interior; a Natureza, nesse sentido, é a Idéia objetivada no seu contrário. Também em Feuerbach, o conteúdo da religião, Deus e seus predicados, nada mais é do que a essência humana objetivada, exteriorizada na forma de outro ser, que, não obstante ser criatura, desponta como o próprio sujeito criador. Já que a Idéia é para Hegel o próprio princípio divino, a própria essência de Deus, Feuerbach assume que o procedimento dialético pelo qual ela vem a se explicitar e existir constitui, no limite, o mesmo processo de alienação que encontramos na religião. Entretanto, Feuerbach inverte os termos da equação – não é mais Deus que se aliena na Natureza e depois se reconcilia consigo mesmo no Espírito, mas são os homens que alienam sua essência na imagem de Deus – e, assim o fazendo, suprime o primeiro momento da dialética: a Idéia abstrata. “Hegel começa pelo ser, isto é, pelo conceito de ser, ou pelo abstrato. Por que não posso começar pelo próprio ser, isto é, pelo ser real?” (FEUERBACH apud FREDERICO, 1995, p.29), pergunta Feuerbach. 

Segundo Feuerbach, o movimento ternário da dialética hegeliana inicia-se com o infinito, a Idéia abstrata (a religião, a teologia), para ser negado no segundo momento (aquele do finito, do sensível, do real, do particular) e, finalmente, ser recuperado no terceiro momento, o da filosofia, quando a teologia,que havia sido negada, é reafirmada enquanto pensamento racional. 

Contra essa confirmação da teologia sob uma forma filosófica, Feuerbach propõe que se tome como ponto de partida o segundo momento (o particular, o finito, o sensível), rejeitando a universalidade abstrata do início hegeliano, bem como o recurso da mediação na autoconstituição dos seres. (FREDERICO, 1995, p.186) 

Pretendendo recolocar a filosofia de Hegel sob seus próprios pés, Feuerbach postulou a prioridade da matéria sobre o pensamento. Dentro daquele movimento ternário da doutrina do silogismo – universal-singular-particular – “Feuerbach propõe que se tome como ponto de partida o segundo momento (o particular, o finito, o sensível), rejeitando a universalidade abstrata do início hegeliano, bem como o recurso da mediação na autoconstituição dos seres” (FREDERICO, 1995, p.186). 

Essa visão estranha, que acredita na captação imediata da essência, nega o movimento de constituição do Absoluto exatamente por acreditar que, com esse procedimento, desmancha-se a unidade original pela separação entre o ser e os seus atributos. O procedimento da filosofia dialética assemelha-se ao da religião: ambas violentam o ser ao separá-lo de seus atributos. A filosofia de Hegel, pelo recurso da abstração, separa os ser de seus predicados; a religião, como alienação, projeta os predicados humanos para fora do homem, na imagem de Deus. (FREDERICO, 1995, p.36) 

À essa compreensão crítica da religião enquanto alienação humana soma-se a concepção filosófica de natureza em Feuerbach como crítica ao idealismo hegeliano. A natureza é um existente em si mesmo, base e princípio de toda realidade humana, existente independentemente da consciência humana. 

NOTAS
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[1] Para a exposição, em linhas gerais, do pensamento de Feuerbach utilizamos as seguintes obras: Princípios da filosofia do futuro, Teses provisórias para a reforma da filosofia e A essência do cristianismo. Nas duas primeiras Feuerbach empreende uma crítica à filosofia especulativa, postulando um novo registro filosófico; na sua grande obra, A essência do cristianismo, Feuerbach desmistifica a essência divina, reencontrando-a no próprio homem – é nessa obra que encontramos, de modo não-sistemático, a exposição de sua teoria da alienação. Essas três obras são praticamente contemporâneas: as duas primeiras vieram à luz em 1843 e 1842, respectivamente, e a última em 1841. 

[2] “o misticismo de Schelling e o logicismo de Hegel constituem modalidades, opostas na forma filosófica mas coincidentes na intenção, de justificar o cristianismo como religião absoluta e manifestação do próprio Deus. Ao moldarem a sua concepção do absoluta segundo a figura cristã da revelação e da encarnação, os filósofos especulativos ultrapassam os limites da razão humana e fundam uma filosofia que não apenas se reconcilia com o cristianismo, mas te torna ela própria em teologia.” (FEUERBACH, 2002a, p.XIX)
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