sábado, 18 de agosto de 2012

Sobre a greve dos servidores federais

Há certas questões com relação à greve dos servidores federais que, no calor do momento, estão sendo esquecidas. São tantas categorias em greve que seria um erro colocá-las todas numa mesma e única perspectiva. Como avaliar, por exemplo, sob um único critério tanto a greve dos professores federais quanto a dos policiais federais? Parece-me que, em algumas categorias específicas, a sociedade e o Estado estão reféns de uma política sindical corporativista. Os policiais federais, por exemplo, ganham quase 8 mil reais, ou seja, dez vezes mais que um cidadão comum empregado na iniciativa privada. A média salarial do poder legislativo é de 15 mil reais! É verdade que a do executivo é muito mais baixa, 6 mil. Mas o ponto é que é preciso tomar cuidado para não transformar todas essas greves em movimentos oportunistas e corporativistas. O Estado não é uma vaca que se pode sangrar indefinitivamente. Devemos lutar contra as prioridades do governo, sua política e seu programa, e não apenas por melhores salários, que já são, em muitos casos, satisfatórios ou, comparados com os salários da iniciativa privada, muitos bons. A greve é um instrumento para essa luta política. Por que os servidores federais não param exigindo a redução do salário dos juízes, ministros, governos, deputados, ao invés de pedir o aumento de seus próprios salários? Por que não param exigindo a auditoria da dívida pública e o fim do seu pagamento? Por que não param exigindo mais verbas para a educação ou por uma negociação mais dura com as empresas que recebem verbas públicas e continuam demitindo trabalhadores? De todas as categorias em greve, acredito que a mais politizada e com uma visão mais ampla é, claro, a dos professores, que estão preocupados com questões maiores do que a simplesmente salarial. 

Essa questão é de suma importância porque ela diz respeito às perspectivas organizacionais e estratégicas da classe trabalhadora no país. O fato é que há no Brasil, por razões históricas, uma cultura generalizada do funcionalismo público como garantia de uma vida confortável e relativamente próspera. De modo geral, o funcionário público está mais preocupado em acumular gratificações e bonificações do que propriamente com suas responsabilidades públicas. Essa é uma cultura que deve ser combatida. Apoiar greves corporativistas de categorias já bem remuneradas é contraprodutivo, na medida em que fomenta ao invés de desincentivar essa cultura do emprego público como garantia de pertencimento à classe média. Além disso, na medida em que aumenta o fosso salarial entre os trabalhadores públicos e os privados, concorre também para separá-los ideologicamente, incutindo nos servidores públicos uma espécie de ideologia de casta. Os servidores públicos cada vez menos irão se identificar com a massa do povo que recebe salário mínimo. Em questões como esta, vale nos reportarmos aos ensinamentos que a história nos deu. Lembremos que a Comuna de paris equiparou todos os salários públicos ao do operário comum da iniciativa privada. Não estou defendendo aqui o impossível (e que não é nem mesmo desejável). Mas essas questões ideológicas e estratégicas têm de ser levadas em conta na hora de se posicionar diante das greves no setor público. Não é toda e qualquer greve que é revolucionária. Longe disso. O que importa realmente não é a greve em si, assim como suas conquistas imediatas, mas seus efeitos sobre a consciência e a organização da classe trabalhadora e do povo em geral.
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