sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Palavras não são inocentes (II)

Uma boa maneira de se problematizar a não inocência das palavras, termos, ideias, é pensar o processo pelo qual o neoliberalismo veio a ser parte essencial da ideologia dominante atualmente. Diferentemente do que acredita o senso comum, a ciência, sobretudo de humanidades (e ainda menos da área de economia!), é tão neutra quanto as palavras que compõem o léxico cotidiano; ou seja, não é. E a crença numa suposta neutralidade é precisamente um dos pressupostos centrais do neoliberalismo, de tal sorte que ele vê a economia como uma questão puramente técnica; um ajuste aqui outro ali e, pronto, a máquina volta a funcionar. Querem, portanto, "desapaixonar" os debates sobre economia, ou seja, querem amputar-lhe o conteúdo de classe. Ignoram assim, e não por acaso, a teoria marxista, cujo conceito central é o capital como relação social e não como coisa. E a ideia de que a economia deve ser deixada aos técnicos/especialistas, que o "mercado" funciona mediante mecanismos impessoais e que, portanto, não responde a interesses desta ou daquela classe; essa concepção, em suma, metafísica da economia, repetida a exaustão pelos canais educativos ou aparelhos ideológicos do Estado, tornou-se lugar comum. Daí as afirmações de que os Estados não têm escolha senão ajustar-se aos fluxos internacionais do capital. Globalizar-se, portanto, não é uma questão de escolha política: é uma necessidade inelutável da economia, entendida a economia como essa entidade mística, como um deus mundano que se impõem aos seres humanos. Podemos ver, assim, como o movimento do real cria suas próprias ideias autoexplicativas. Mas a academia nos ensina que as ideias são universais, abstratas, e que a ciência não faz nada senão trazer à luz tais universais abstratos. Ciência e ideologia são vistos, assim, como campos absolutamente distintos da realidade. E, se o pensamento dominante acredita na neutralidade/objetividade da ciência, o que dirá das instituições produtores de ciência? Quando o neoliberalismo ainda era uma doutrina relativamente obscura e marginalizada (durante os anos 50/60/70), a escola de economia da Universidade de Chicago iniciou um programa de intercâmbio com estudantes e pesquisadores latino-americanos como parte de uma política de Estado para conter o avanço das ideologias socialistas no continente. Foi essa geração de economistas que, em 1975, puseram em prática, pela primeira vez, as políticos macroeconômicas neoliberais, as quais fizeram do Chile o primeiro laboratório do neoliberalismo no mundo. Na época, Thomas Friedman, nobel de economia dois anos após Hayek (este laureado em 1974), era quem reinava na Universidade de Chicago. Por outro lado, nem mesmo se pode atribui neutralidade ao prêmio Nobel, "estando como estava sob o estrito controle da elite bancária suíça." (HARVEY, 2005, p.31). Quando Hayek juntou um punhado de economistas, filósofos e historiadores em um spa suíço, fundando a Sociedade Mont Pelerin em 1947, a necessidade de combater as forças sociais e os regimes políticos que Hayek considerava a "servidão absoluta" constituía um dos objetivos centrais dos novos liberais. Portanto, já em sua fundação o neoliberalismo manifestava uma dimensão político-ideológica essencial. Além disso, deve-se perguntar quem financiava os grupos e institutos de pesquisa neoliberais. Desde o início, contaram com o suporte, fornecido mediante fundações como a Heritage, de uma elite econômica absolutamente avessa a qualquer forma de intervencionismo e disposta a tudo para inaugurar uma nova era de liberdade nos negócios. Por fim, o neoliberalismo começou a ser adotado pragmaticamente em função da situação histórica e das necessidades que ela punha no âmbito da luta de classes e da hegemonia burguesa. Diante disto, pergunta-se: como pode a ciência se pretender neutra se é evidente, neste caso, sua tomada de posição diante das questões colocados por um mundo divido entre comunistas/capitalistas? E não se trata de um caso isolado, absolutamente. Outro exemplo é o conceito de totalitarismo. Embora ele tenha sido gestado antes da deflagração formal da guerra fria, desempenhou um papel fundamentalmente ideológico no pós-Segunda Guerra, ao procurar opor o "mundo livre" ao "mundo totalitário" (colocando nazi-fascismo e comunismo soviético num único saco!). Hoje, a maioria dos cientistas políticos que operam com o conceito de totalitarismo, sobretudo na acepção de Arendt, ignoram essa sua dimensão ideológica fundamental. A ciência, definitivamente, não é neutra, e tampouco são as ideias e termos que usamos corriqueira e naturalizadamente no cotidiano. Desmistificá-los é momento essencial da luta.
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