sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Mídia, esportes e senso-comum: a propósito das Olimpíadas

É realmente incrível o espírito esportivo que toma as pessoas de assalto em época de Olimpíadas. Todo o mundo se torna um crítico desportivo em potencial. E as pessoas, acicatadas pela circo midiático, tornam-se críticos ferozes. O atleta, seja qual for, passe ele por tais ou tais dificuldades inimagináveis, tem obrigação de ganhar. As razões para nos comportarmos assim não são, nem de longe, puramente psicológicas; não se trata de uma pulsão competitiva. As razões são sociais. Afinal, quem controla o que pensamos ou não sobre esportes é, basicamente, a mídia. Essa mesma mídia que durante os meses de Brasileirão, estaduais, Libertadores, dedica 99% da sua coberta ao futebol, e, nos poucos meses em que a bola não rola, fala da mãe do jogador fulano, das férias do ciclano, do cabelo do beltrano. No 1% que sobra de espaço para os outros esportes, a Globo & Cia acha bonito e inspirador mostrar a história do velocista pobre que treina com tênis furado e ganhado em chão de terra batida. Mas quando ele chega às Olimpíadas, ai dele se não ganhar! E as mídias explicam-nos muito facilmente o fracasso brasileiro: "faltou garra", "perder é coisa de brasileiro", "os americanos são naturalmente melhores", e por aí vai. No máximo, ventilam a velha relação espúria entre economia/desenvolvimento. Somos a sexta economia mundial e estamos em vigésimo e tanto na classificação de medalhas? Um absurdo! Pois somos a sexta economia mundial e estamos entre os últimos colocados também nos quesitos educação, saúde, segurança, lazer. O Estado prefere reservar, todo ano, 6% do PIB só para pagar juros da dívida pública (sem contar amortizações, rolagens, etc.). Não sei quanto ele investe em esporte, mas se fosse um décimo disso eu já ficaria espantado. A mídia, por sua vez, aplaude a austeridade/responsabilidade fiscal do governo. Enquanto a quase totalidade dos esportistas brasileiros têm de se contentar com migalhas, o futebol enche as burras dos cartolas e dos Robertos Marinhos. E nós, telespectadores passivos, o que fazemos? Vamos ao saguão do aeroporto jogar tomates em verdadeiros guerreiros, cuja existência nos ocorre apenas por duas semanas de magia olímpica.
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