sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Marxismo como visão de mundo

Todo o meu TCC está embasado na ideia de que o marxismo pode ser concebido como uma visão de mundo totalizante e sistemática e/ou organicamente constituída. Até poucas semanas atrás essa ideia permanecia em meu horizonte ideológico. Entretanto, cheguei recentemente à conclusão de que isto é um erro. Não vou expor aqui as razões pelas quais conceber o marxismo como visão de mundo totalizante e sistemática é um erro, ademais porque tal problema levantou-se, para mim, ainda de forma preliminar e, portanto, obscura e confusamente; exponho apenas algumas das questões iniciais que a problemática suscita, bem como a hipótese pela qual considero que a noção de marxismo em questão deve ser impugnada. O marxismo como visão de mundo, até onde eu sei, é moeda corrente em todas as correntes teóricas dentro do marxismo, sendo defendida por intelectuais tão diferentes quanto Plekhanov, Gramsci, Lukács e Lefebvre. Contudo, parece-me que tal concepção ignora um fato fundamental – e aqui entra, indiretamente, a minha hipótese: o marxismo não pode ser concebido como visão de mundo totalizante e sistemática do mesmo modo que as ideologias próprias de outras classes também não podem. O marxismo (ou o materialismo histórico e dialético) não é mais totalizante e sistemático do que o liberalismo, por exemplo, ou do que o aristocratismo cristão. E não pode tanto por razões epistemológicas, quanto ontológicas, embora aquelas tenham mais peso do que estas. O marxismo é uma visão de mundo própria de uma realidade sócio-histórica específica e, como tal, tem em seu interior o ímpeto, o impulso de explicar global e sistematicamente essa realidade. Ou seja, ontologicamente uma visão de mundo é virtualmente explicativa da realidade da qual faz parte, mas tal virtualidade não se realiza, não se expressa e não se efetiva senão epistemologicamente a partir da apreensão da visão de mundo em questão por um sujeito social particular; no caso do marxismo, o proletariado e seus intelectuais orgânicos. Uma visão de mundo tem, portanto, suas raízes na realidade histórica concreta, ou seja, é ontologicamente real, não mera fantasia ou meras ideias que surgem na cabeça dos seres humanos. Entretanto, enquanto realidade histórica, uma visão de mundo é pura potencialidade ou, no mínimo, não se manifesta de um modo ininteligível aos sujeitos humanos. É preciso que esses sujeitos, estruturados de modo contraditório e antagônico em uma série de categorias sociológicas distintas (classes, frações de classe, grupos, nações, etc.), apreendam e exprimam, em função mesma da posição que se encontram nessas estruturas, aquela visão de mundo. Dito isso, fica claro que uma determinada visão de mundo não pode se manifestar ao nível ideológico senão de modo particularizada, jamais ou muito dificilmente em sua universalidade. Pode-se se afastar ou chegar perto de sua essência universal em função do lugar que os produtores de ideologias ocupam na estrutura social, mas não se pode deixar de expressar tal essência de forma particular. Compreende-se, assim, que uma visão de mundo como o marxismo expressa-se através de tantas formas possíveis quanto mais variadas são as classes, frações, grupos, etc. relacionadas com ela. Do mesmo modo, o liberalismo não é uma visão de mundo totalizante e sistemática: quando se sistematiza e se totaliza essa visão de mundo ela deixa o nível universal-ontológico para se situar no nível particular-concreto; torna-se a maneira como uma espécie dentro do gênero classe burguesa apreende e exprime a visão de mundo que reside, difusa e virtualmente, em sua própria base real/ontológica como classe. Os capitalistas financeiros de Wall Street têm sua própria leitura da visão de mundo liberal-burguesa, que difere da dos capitalistas industriais da Alemanha, que difere da dos capitalistas industriais da China, que difere da dos capitalista agrário-exportadores do Brasil, e assim por diante. São todas expressões mais ou menos sistemáticas e totalizantes de uma visão de mundo inscrita, de forma não sistemática, na própria realidade concreta. E aqui não estamos considerando nem a possibilidade – que, na verdade é a regra – de que as diversas visões de mundo se combinem, intercambiem elementos, sintetizem-se, etc. As possibilidades que resultam das infinitas particularidades concretas e das interrelações entre elas tornam o número de visões de mundo virtualmente infinito. É claro que tais visões de mundo não se encontram sistematizadas e plenamente conscientes em cada indivíduo que dela partilha. Contudo, a sistematização e a expressão dessas visões de mundo totais estão sendo feitas e refeitas, produzidas e reproduzias a todo momento, através da atividade cotidiana de cada indivíduo e, sobretudo, através de certos elementos sociais, os quais podemos chamar de intelectuais orgânicos, cuja função é precisamente sistematizar e expor ideologias. Além disso, não estamos considerando aqui, tampouco, a dimensão diacrônica do problema. A realidade nunca é um dado pronto e acabado e, por conseguinte, as ideias que fazemos dela também não. Ambas estão em perpetuo movimento. Assim, outra razão pela qual não se pode considerar uma visão de mundo como sistemática e total, nem a nível ideológico nem a nível ontológico, é porque a realidade da qual ela é um momento não está pronta e acabada. Como sistematizar algo que não está pronto? As visões de mundo são sempre provisórias, assim como a realidade também o é. Vê-se, portanto, que o fato de que uma visão de mundo não é sistemática e total a nível ontológico não é porque não podemos ter certeza disso em função de limites epistemológicos ao conhecimento. Não revivo aqui o argumento kantiano da impossibilidade de conhecer a coisa em si, de modo que só poderíamos encontrar visões de mundo sistemáticas e totalizantes nos sujeitos conscientes que as formulam. Não se pode encontrar uma visão de mundo sistemática e totalizante ao nível ontológico porque a própria realidade está, ela mesma, em processo de sistematização e de totalização. Isso não significa, bem entendido, que em cada momento da realidade não haja uma visão de mundo sistemática e totalizante ao nível ontológico. Ela existe e não existe. Por um lado, existe porque a realidade, embora atravessada por tendências passadas e futuras, constitui um todo lógica e historicamente articulado. Mas, por outro, as próprias tendências passadas e futuras enfraquecem, por assim dizer, a sistematicidade e ubiquidade da sua visão de mundo.
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