quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Contra a racionalidade capitalista. Por uma razão humana

Não há na mais estúpido do que acreditar que as pessoas são umas mais outras menos inteligentes. A heterogeneidade de capacidades e faculdades mentais (e pode-se também incluir aí físicas) nada tem a ver com inteligência e burrice. O fato de que fulano ou ciclano tenha um QI maior ou menor do que beltrano não significa nada. Se serve de alguma coisa para além de satisfazer a vaidade pessoal (e note-se que, bem entendido, a vaidade pessoal não é um fato puramente subjetivo, mas é reflexo de uma sociedade que classifica e hierarquiza seus membros, incitando-os à competição e pretextando que seria esta a regra de ouro da democracia: a igualdade formal e a observância da meritocracia), tal serventia não diz respeito senão a isto: QI elevado é sinônimo de uma razão instrumentalizável e, por conseguinte, adaptada ao mundo tal como o conhecemos (capitalista). Explico melhor: a capacidade de resolver problemas lógicos dentro de um pequeno espaço de tempo serve (não apenas, mas sobretudo e dentro do atual quadro histórico-social), antes de tudo, às necessidades de uma sociedade baseada no cálculo, na produtividade e na quantidade. Quem disse que ser lógico é superior em inteligência do que ser sensível? Quem hierarquizou as faculdades e as formas de expressão humanas? Saber fazer cálculos, relacionar conceitos, abstrair categorias são, por acaso, faculdades de uma inteligência superior? ao passo que sentir as emoções humanas, intuir verdades profundas, amar e se relacionar afetivamente com as pessoas e com o mundo, são coisas de gente burra?  Seguindo esse raciocínio temos que o executivo-chefe de uma empresa, com seu cálculo frio e sua lógica inumana, é mais inteligente do que um pintor ou um poeta. Isto me parece um absurdo (para usar uma noção lógica). E não é necessário comparar, por exemplo, um cientista e um artista para sustentar esse ponto de vista: um homem/mulher do campo, com seu conhecimento sensível, sua memória popular passada de geração à geração, sua afetividade em relação ao meio do qual faz parte; tudo isso me parece, sob certos aspectos, características de uma inteligência muito maior do que aquela voltada para competir e crescer individualmente e ao arrepio da humanidade. Pois bem, eu pergunto novamente: quem hierarquizou as faculdades humanas? Quem disse que esta ou aquela atividade é melhor do que outra? Ora, ninguém menos do que a própria realidade (o que nos leva a uma outra estupidez, qual seja, pretender ver na realidade uma objetividade neutra, desprovida de valores). É a própria realidade capitalista que valoriza certas faculdades humanas e não outras. Enquanto o capitalismo se firmava definitivamente como momento histórico particular, os produtores de ideologia, ou seja, os intelectuais/cientistas/filósofos (novamente, aflora aqui outra estupidez: acreditar que ideologia e ciência são duas categorias absolutamente distintas) davam boas-vindas à razão instrumental, à produtividade e ao cálculo, e hierarquizavam o conhecimento e as faculdades humanas segundo a nova realidade que se consolidava. Dizer, portanto, que fulano ou ciclano é mais inteligente do que beltrano nada mais significa do que dizer que ele é apto a jogar conforme as regras do jogo e, se for mais "inteligente" do que todo o mundo, a vencê-lo. Talvez o problema mais grave disto tudo é que essa concepção transladou-se para o senso-comum, sendo plenamente absorvida por ele, ao ponto de não ser raro afirmações como estas: "sou burro, não consigo aprender a matéria"; "tenho esse trabalho porque sou burro, não estudei"; "não entendo isso porque sou apenas um homem do campo, sem instrução"; "ele é dono da empresa porque é inteligente, é estudado". A visão de mundo cotidiana, ordinária e correntemente, acostumou-se a equiparar posição/status social com inteligência; inteligência com racionalidade produtivista-quantitativista ou com lógica abstrata. Nossa visão de mundo está impregnada até a medula de positivismo, e este câncer não é extirpável: somente uma forma societária absolutamente diversa pode livrar a humanidade dessa forma de pensar cretina, cínica, reificada. Devemos lutar para resgatar a razão do reducionismo a que a realidade capitalista a submeteu. Ir contra a razão instrumental não significa refutar toda forma de razão, nem mesmo a própria razão instrumental; significa ir contra uma forma de pensar que é estranha às necessidades humanas, que é controlada pelas próprias coisas que ela cria ao invés de controlá-las. A razão, tal como eu acredito que ela deve ser concebida, não é a razão iluminista e suas variantes; é a forma de pensar que engloba numa unidade a razão e a intuição, o produzir e o sentir, o cálculo e a compreensão, a lógica abstrata e o fluxo vivo da vida concreta. Engloba, portanto, todas as faculdades humanas, todas as formas de objetivação que os homens/mulheres criam para ser-no-mundo; que engloba, enfim, a vida em sua totalidade múltipla, dinâmica e concreta. Em suma, não estou defendendo aqui que todos os indivíduos são idênticos em capacidades, aptidões e vontades. É um fato óbvio que diferenças dessa espécie constituem uma condição natural e social do ser humano. Estou a afirmar, antes, que tais diferenças não apenas não são levadas em consideração pela lógica da realidade capitalista, como, antes de tudo, são simplesmente niveladas em função das necessidades inerentes a esta lógica. Basicamente, não sendo essas necessidades de natureza verdadeiramente humana e sim reificada, uma série de faculdades, capacidades, aptidões, vontades, etc. são desdenhadas pela realidade capitalista ou, na melhor das hipóteses, são relegadas a um estatuto inferior. É em função das necessidades colocadas pela lógica capitalista que se hierarquiza as formas de objetivação humanas e se define o que é ou não inteligência. É contra esta definição que temos que nos posicionar.
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