segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Contra o relativismo

Parece-me que um relativismo absolutista (não há contradição: relativismo absolutista, ou seja, um relativismo no qual tudo se dilui e nada pode ser afirmado com certeza já que tudo é absolutamente relativo) é um falso relativismo. Aceitar a existência de múltiplos pontos de vista, de múltiplas causas históricas e lógicas, não significa diluir a realidade em fragmentos desconexos e incomunicáveis, cada um com a sua própria verdade insubstituível. Ao contrário, pensar dialeticamente significa compreender que, para além da superfície imediatamente captável pela experiência empírica/imediata, existem relações, ou melhor, inter-relações (ou, se preferir, determinações reflexivas) que colocam todas essas particularidades dentro de totalidades complexas. Se se admite que todo ponto de vista é igualmente válido, cai-se no desespero e no imobilismo porque não há mais nada seguro (como verdade) ao qual se apegar. Dito isto, admitir, ao contrário do relativismo, que há pontos de vista mais verdadeiros do que outros não significa opor, unilateralmente, um ponto de vista contra o outro, dogmaticamente. O que está em causa aqui é a própria concepção da realidade e do conhecimento sobre a qual se baseiam o relativismo e a dialética histórico-materialista. Para a primeira concepção, o real não possui uma lógica imanente: essa lógica é conferida pelos sujeitos que a apreendem (seja um cientista, um grupo social ou um indivíduo qualquer). A realidade é, portanto, essencialmente caótica: ela não existe enquanto totalidade, senão como fragmentos, sendo que somente neles se pode encontrar algo parecido com a verdade: uma verdade absolutamente relativa quando contraposta a todas as outras verdades possíveis. Já para a dialética histórico-materialista, o real possui uma lógica e uma estrutura que lhe são imanentes (lógica e estrutura sempre dinâmicas), independente do que se pode imaginar sobre ele. Portanto, nesse sentido, a verdade imana do real, o que não significa, bem entendido, que os sujeitos do conhecimento possam apreendê-la de um modo direto e imediato. Um bom modo de entender as deficiências que o relativismo exibe, não apenas no que se refere ao conhecimento, mas também à ação/transformação da realidade, é observar a dificuldade enorme que os movimentos sociais baseados numa visão de mundo relativista têm para colocar programas/estratégias políticas e de luta verdadeiramente eficazes. São incapazes de eleger inimigos, definir pautas e estratégias comuns. Acredito que o relativismo é pretensamente pluralista porque, achando que está garantindo voz ativa a todos os pontos de vista (a todas as verdades), na verdade está opondo um ponto de vista a outro (uma verdade a outra). Daí o imobilismo como consequência. Contra essa lógica formalista, a dialética é precisamente a lógica que busca compreender como e porquê cada um desses pontos de vista são, na verdade, meias verdades (verdades parciais e unilaterais) que, quando postas numa totalidade, superam-se umas às outras (superar é o termo-chave) e, nesta superação, dão lugar a verdades mais verdadeiras, por assim dizer, ou seja, mais profundas e essenciais. O relativismo é, em resumo, sumamente conservador e não revolucionário.
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