sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A semiótica de "O cheiro do ralo"


O protagonista, Lourenço, não é apenas a incarnação do capitalista, mas do dinheiro. O dinheiro é duas coisas: fetiche e poder social. Como portador de poder social, Lourenço satisfaz seus instintos através do dinheiro, na medida em que o usa para dominar as pessoas que necessitam do dinheiro. Como fetiche, tudo, por mais pessoal, íntimo e prenhe de significado e sentimento que seja um objeto (ou uma pessoa), tem um valor que pode ser medido monetariamente. E, do mesmo modo, todas as pessoas também podem ser medidas monetariamente. Assim, as relações interpessoais aparecem como mediadas pelo dinheiro, sendo que o dinheiro, uma criação social, de meio torna-se fim e passa a controlar as relações humanas. E o cheiro do ralo? A metáfora do ralo parece-me ser a seguinte: por mais que Lourenço tenha dinheiro, ele não consegue se livrar do cheiro fétido que decorre do seu próprio modo de vida. O dinheiro, sendo a causa do cheiro, não pode eliminar o cheiro, porque não pode eliminar a si mesmo. Em segundo lugar, quando Lourenço procura se livrar do cheiro, ele apenas busca remediar a situação repassando o problema para outrem. Essa é uma clara referência, por um lado, ao individualismo e, por outro, à necessidade intrínseca ao capital de exteriorizar todas os efeitos negativos do seu modo de ser. Lourenço pouco se importa com as consequências negativas de seu comportamento. Por fim, o fato de que o capital exteriorize compulsivamente a miséria, a pobreza, a marginalização, etc. não garante que a merda toda não vá voltar pelo ralo. O cheiro está lá sempre para lembrar isso. E a merda volta, efetivamente, entravando os próprios canos através dos quais o capital se utilizou para gerar e se apropriar da riqueza.
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