terça-feira, 17 de julho de 2012

A questão do líder na teoria totalitarista

Um aspecto que ressalta das teorias totalitaristas – ao menos as formalistas (Carl Friedrich, mas sobretudo Leonard Schapiro) – é o do lugar e função do líder. Parece-me que, embora esses teóricos elejam uma série de traços essenciais característicos (ou prototípicos) do totalitarismo, a grande maioria destes traços se reporta e se remete ao líder, ou seja, estão subordinados ao líder enquanto traço central. Assim, é o desejo de poder do líder que explica o monopólio dos meios de informação; é a ideologia do regime político uma mera derivação da vontade do líder; é a manipulação das instituições político-administrativas o resultado das tramóias do líder com o objetivo de permanecer no poder; são a organização e as táticas do partido resultantes exclusivamente da liderança do líder; etc. Essa é uma questão importante, não porque se trata de consequências implicadas na teoria totalitária para as quais seus próprios formuladores não atinaram – isto é, embora fique evidente que todas as componentes típicas de um regime político totalitário estão sobredeterminados pelo componente central, o líder, nem Friedrich nem Schapiro tornam explícita esta relação –, mas antes porque denota o conteúdo ideológico que está na base de suas teorias. De fato, há aí, entre outros, elementos ideológicos liberais e idealistas, na medida em que se supõe como motor da história a ação individual e livre de homens geniais – ou, pelo menos, habilidosos quando se trata de usurpar o poder. (Não deve causar espécie, portanto, que em variados momentos a análise resvale em pregações morais ou explicações psicologistas, como se o líder totalitário fosse um indivíduo amoral ou louco.) Não se trata em absoluto de negar o papel do indivíduo na história, mas de negar a capacidade heurística de explicar a história pelo indivíduo senão como um aspecto secundário, derivado, determinado. É a própria superestimação do lugar e da função do líder que acaba por fazer com que a teoria totalitarista caia no idealismo: a maioria dos aspectos dos fenômenos por ela analisados faz-se, assim, a partir da ótica da ação individual do líder. Não há, em função deste método, lugar nesta teoria para a investigação das relações contraditórias entre classes, frações de classes e grupos sociais como a dinâmica essencial tanto por trás do totalitarismo, como por trás de qualquer fenômeno essencialmente social.
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