segunda-feira, 16 de julho de 2012

Questões de estética corporal

O modo como as pessoas se adornam – vestuário, body art, etc. – é parte daquilo que elas são, é parte de suas identidades. Seria bobagem pautar a crítica a essa forma de ser, essencialmente humana, numa impugnação absoluta a toda forma de estética do corpo. A necessidade de moldar a imagem física e corporal é inata ao ser social dos homens/mulheres. Aqueles que impugnam toda preocupação estética com o corpo, fazem-no com base na refutação romântica da realidade capitalista, presente difusa e indeterminadamente em certas perspectivas do senso-comum. A recusa neste caso deveria, antes, ser feita com base em outros argumentos. Se a realidade capitalista engendra uma estética do corpo de tipo industrial, padronizada e mecanizada, ao mesmo tempo é só na realidade capitalista que se torna possível o surgimento de múltiplas formas de estéticas corporais. Trata-se, portanto, de um processo contraditório. A possibilidade do surgimento de uma infinidade de identidades individuais, que são também, por óbvio, coletivas, é resultado da chamada modernidade, produto deste tipo especial de sociedade que é a sociedade capitalista. Isto porque é somente nesta sociedade que, à diferença das sociedades tradicionais, se torna possível ao indivíduo individualizar-se. Sem semelhante processo histórico, a identidade permanece uma questão puramente coletiva, onde o indivíduo pouco ou nada encontra espaço para se afirmar. Nem mesmo se quisesse ser-lhe-ia possível afirmar-se, dado que o mundo ou a realidade nas sociedades tradicionais é essencialmente homogêneo, plano, linear; ou seja, não é apenas o indivíduo que é suprimido, mas o próprio mundo no qual este indivíduo se move é limitado. 

O modo como eu me expresso estético-corporalmente é, portanto, uma expressão daquilo que eu sou, reflete minha essência e é parte do modo como eu apareço no mundo. Se eu visto roupas da moda, se adorno-me com os mesmos adornos com os quais a maioria das pessoas se adornam, se, enfim, me coloco no mundo de uma forma esteticamente aceitável ao padrão normal, isto diz muito sobre mim. Diz que eu sou uma pessoa plenamente ajustada a essa sociedade, que eu partilho dos e reproduzo os valores gerais que ela impõe, etc. Mas afirmar que a estética corporal constitui um modo de se colocar e aparecer no mundo, e que, portanto, constitui um reflexo da existência individual de uma pessoa, não significa dizer que isso basta para apreender sua essência, ou seja, tudo aquilo que ela é. A estética corporal é uma das formas pelas quais aparecemos e nos colocamos no mundo, mas não a única; trata-se, pois, de uma linguagem específica, que tem determinações próprias. A minha imagem pode oferecer uma ideia do que eu penso, mas não necessariamente essa imagem condiz com o que eu efetivamente penso. Se levarmos adiante a noção de estética corporal como linguagem, temos que, como qualquer forma de linguagem, a imagem do corpo é parte de um processo de comunicação, e que, portanto, sem um receptor a mensagem fica incompleta, não se efetiva. O receptor da mensagem – ou seja, daquilo que se quer dizer com a imagem corporal – não é mera passividade, “agente” passivo do processo de comunicação, mas ele interfere e ressignifica o conteúdo da mensagem em função de suas próprias experiências e visão do mundo. De qualquer forma, o que eu quero dizer com o conceito de estética corporal como linguagem é que ela não é exclusiva, não é a única forma de manifestação da identidade individual-coletiva de um “eu” em relação ao mundo. Neste sentido, não se pode julgar aquilo que alguém é em sua totalidade com base simplesmente em sua imagem corporal. Mas, ao mesmo tempo, não se pode desprezar esse aspecto específico do ser social como se não tivesse qualquer relevância, como se fosse mera superficialidade e efemeridade.

Em suma, as questões apenas apontadas aqui, e que devem ser aprofundadas e desdobradas em outro lugar, foram: 1) a estética corporal como uma das formas específicas de linguagem mediante as quais o indivíduo se manifesta e se afirma no mundo; 2) a modernidade capitalista como condição necessária ao aparecimento de uma pluralidade de estéticas corporais; 3) a contradição inerente à modernidade capitalista que, ao mesmo tempo que torna possível a pluralidade, deve subordiná-la à uniformidade em função de suas próprias necessidades reprodutivas; 4) a crítica à toda preocupação estético-corporal como recusa romântica da modernidade capitalista. Haveria uma série de outras questões a ser levantas e trabalhadas quanto a esse conjunto de problemas - como a função que padrões estético-corporais exercem na formação e coesão de grupos sociais. Para encerrar, devemos ter em mente que a preocupação prática central é criar espaços e formas de criação e manifestação de identidades estético-corporais que não estejam subordinados à lógica industrial é padronizadora da modernidade capitalista, e que sejam, portanto, verdadeiramente autênticas, tanto individual quanto coletivamente.
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