segunda-feira, 16 de julho de 2012

"Prefácio de 1859" e economicismo

A hipótese central da teoria da história marxiana, tal como Marx a apresenta no Prefécio de 1859, oferece dificuldades e resultou largamente numa confusão generalizada tanto dentro como fora do pensamento marxista. A ideia de que é as contradições entre forças produtivas e relações de produção o fator causal primordial do processo histórico deve ser compreendida sobre o pano de fundo da teoria marxiana em sua totalidade. De fato, o Prefácio não pode ser tomado unilateral e isoladamente ao restante da obra de Marx. Não se trata, pois, de uma fórmula autoevidente e autossuficiente. Sem dúvida, feita esta observação, não há razão para atribuir à Marx uma concepção filosófica da história, da mesma forma como se atribui à metafísica hegeliana. Não há, portanto, razão para admitir que Marx via nas forças produtivas e nas relações sociais de produção, na base material/estrutural do ser social, a causa única e explicativa da história. Dito isto, uma questão permanece: como compreender, então, o referido Prefácio? Como compreender a Introdução aos Grundrisse, nunca publicada? Por que toda vez que Marx tentava proceder a uma sintetização de seu método e de sua concepção histórica o resultado aparecia como uma simplificação grosseira da história e da sua própria teoria? Em 1859 não se pode acusar Marx de imaturidade intelectual. Lembremos que os Grundrisse foram escritos nos dois anos anteriores e, ao contrário do Prefácio, contêm proposições muito mais sofisticadas e complexas – portanto, histórica e concretamente mais fiéis – do que o economicismo latente deste prefácio. É razoável atribuir à filosofia da história de Hegel o fato de que Marx às vezes escorregue na metafísica, propondo causa única ao devir histórico, embora substituindo o idealismo hegeliano pelo materialismo – daí o economicismo?  Mesmo que ainda não tenhamos respostas para essas perguntas, deve-se sempre refutar qualquer visão unidimensional/unicausal/unilinear da história – e creio ser esta a posição de Marx e do marxismo. Ao mesmo tempo, contudo, deve-se recusar as visões historicistas-relativistas que impossibilitam ver na histórica qualquer lei imanente - "leis", no plural -, que toma a história, portanto, como um conjunto caótico e desordenado de uma pluralidade de causas e efeitos contingentes. A história é, antes, um todo ordenado, mas um todo multifacetado/multidimensional/multicausal, subdividido por uma série de momentos dialeticamente imbricados.
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