sábado, 21 de julho de 2012

Hipótese de estudo acerca do fascismo

Descartemos já de chofre as tentativas de explicar o fenômeno mediante seus aspectos psicológicos e/ou individualistas. Não se pode traduzir a essência de um fenômeno eminentemente social senão por meio de categorias sociológicas. Sem dúvida, o indivíduo não se dilui numa espécie de massa amorfa, como queria Durkheim. Entre a singularidade do indivíduo, as particularidades das classes, camadas e grupos sociais, e a universidade da totalidade social há importantes diferenças, e a lógica dialética não despreza as diferentes determinações contidas neste silogismo. O indivíduo, portanto, é momento constitutivo da totalidade social, é síntese desta totalidade, mas não pode explicá-la em si mesmo. Deixemos de lado, portanto, as tentativas de explicar o fascismo através das figuras de Mussolini e Hitler e o papel que nele desempenharam. Outrossim, descartemos as explicações situadas do ponto de vista meramente político. É típico da ciência política atribuir as causas do fenômeno a uma suposta degeneração das instituições do Estado de direito, à legitimação do liberalismo, em suma, a uma crise do Estado moderno nascido das cinzas da Revolução Francesa. Vale dizer que, no campo das ciências sociais, não é casual que a historiografia tenha, na maioria das vezes, ventilado hipóteses muito mais sugestivas para explicar o fascismo do que a ciência política. Isto porque ela leva em consideração as transformações econômicas, sociais e culturais, implicadas em qualquer fenômeno histórico, vistas a partir do ponto de vista da totalidade, ao passo que a ciência política preocupa-se apenas com os reflexos destas transformações sobre a esfera jurídico-política – quando não a toma de forma absolutamente separada da vida social. Se há problemas na perspectiva historiográfica deve-se ao fato de que, não raro, ela cai num historicismo que absolutiza os fenômenos históricos em sua própria interioridade e especificidade, perdendo de vista, destarte, as linhas de continuidade e descontinuidade, as tendências e influências recíprocas, em suma, as relações entre eles, cuja articulação forma sempre totalidades maiores. Portanto, se se pode reprochar a historiografia por limitar, conquanto nem sempre, a validade do fascismo aos casos específicos da Itália e da Alemanha, vendo neles um fenômeno devido exclusivamente às condições singulares nos dois países, então é necessário ir além da historiografia. O estudo do fascismo deve pressupor a abrangência do fenômeno enquanto produto de uma determina época e de uma determinada organização social que está para além dos Estados-nações e os engloba. Esta pressuposição não implica, de modo algum, olvidar as especificidades das formações sociais onde o fascismo deixou de ser pura virtualidade para se transformar em efetividade. Se não aceitarmos a realidade genérica do fascismo resulta impossível explicar, por exemplo, os movimentos atuais que se reivindicam fascistas, ou explicar os germes de fascismo que se podia encontrar em todos os países de capitalismo avançado na primeira metade do século passado, e não apenas na Alemanha e na Itália. Pressupor a natureza geral do fenômeno é uma decorrência, como ficará evidente, do próprio método teórico assumido para a investigação do fenômeno, o materialismo histórico-dialético. O fascismo constitui, portanto, um fenômeno próprio de um momento específico do desenvolvimento do modo de produção capitalista. Trata-se de uma resposta às crises que o próprio capitalismo gera em seu desenvolvimento contraditório. O fascismo surge, portanto, como uma resposta, dentre outras respostas possíveis, à crise gerada pela passagem do capitalismo concorrencial ao capitalismo monopolista. É de suma importância que fique bem claro o fato de que não se trata de uma causa única, de um movimento unilinear e unidimensional. Com efeito, o ser social é um todo complexo e multifacetado. Assim, paralelo a este movimento de transformação econômica, há também as transformações na luta de classes, nas várias ideologias que anima esta luta, nas estruturas jurídico-políticas e institucionais, etc. Característico deste momento do desenvolvimento do capitalismo é o advento do que se chamou sociedade de massas. Partidos políticos de massas surgiram no rastro da expansão do sufrágio; meios de comunicação massivos surgiram com as novas tecnologias e as novas necessidades, sobretudo, políticas do momento; o Estado expandiu-se em direção à sociedade civil, criando ou colocando sobre a sua guarda uma série de aparelhos ideológicos, como os sindicatos, as escolas, as organizações sociais, etc. Todas essas transformações não se fizeram sem gerar profundas contradições e, no limite, crises sociais amplas, como o demonstra a história de fins do século XIX e início do XX. Para se compreender o fascismo, portanto, é necessário partir de dois pressupostos que estão na base do fenômeno: 1) as contradições e crises colocadas pelas transformações econômicas do capitalismo monopolista; 2) contradições e crises colocadas pelo advento da sociedade de massas. A luta de classes, suas manifestações, reflexos e implicações, inscreve-se no interior deste quadro histórico-social e constitui a força dinâmica que o põe em movimento, que, digamos assim, dá vida à processualidade histórica.
Postar um comentário