quarta-feira, 18 de julho de 2012

(Aparente) impasse teórico da crítica ao totalitarismo/fascismo

Se, de um lado, recusamos ver no fascismo um fenômeno exclusivamente italiano e alemão, datado no tempo, e no totalitarismo uma categoria aplicável apenas à URSS e ao Terceiro Reich; se afirmamos, portanto, que os elementos que compõem estes fenômenos podem ser encontrados invariavelmente, ainda que em maior ou menor medida, nos países de tradição democrático-liberal, de outro lado, não sustentamos de modo algum que as categorias totalitarismo e fascismo têm existência universal, ou melhor, que todos os Estados modernos são fascistas e totalitários. Há diferenças, não apenas de forma, mas substanciais entre Estados democrático-liberais e Estados totalitários, ditatoriais, fascistas, etc. Se o totalitarismo/fascismo não é nem singular, nem universal, parece que caímos em um impasse teórico, uma vez que essas categorias parecem existir e não existir em lugar algum. Mas esta é uma impressão apenas aparente. O fascismo/totalitarismo efetivamente existe, a um só tempo, como singularidade concreta e como universalidade abstrata. Existe, pois, como tendência, uma tendência gerada pelas próprias condições histórico-sociais do capitalismo contemporâneo, desde o advento da sua fase monopolista. Daí porque o fato de que mesmo as manifestações historicamente determinadas do fenômeno tenham sido extintas não encerra a questão. As mesmas condições histórico-sociais persistem e, com elas, o fascismo permanece latente. “Em distintas gradações, devido às peculiaridades socioculturais, econômico-políticas e históricas de cada país, o nazi-fascismo tem sido uma corrente política mais ou menos presente e ativa em diversas partes do mundo. Pode ser visto como tendência sempre presente, umas vezes ativa e outras subjacente, em distintas sociedades de classe, burguesas, capitalistas. Ainda que os grupos e classes ou blocos de poder dominante nessas sociedades com freqüência afirmem o seu compromisso neoliberal com a democracia, a liberdade, o livre comércio e o mercado, a verdade é que a sua “religião” tem sido o nazi-fascismo. Marx e Engels disseram, no século dezenove, que o bonapartismo era a verdadeira “religião” da burguesia. No século vinte, talvez se possa dizer que o nazi-fascismo tem sido ao menos uma das religiões das classes, grupos ou blocos de poder dominantes.” (IANNI, Octávio. Neoliberalismo e neofascismo, p.114). Como afirma Ianni, “essa cultura [nazi-fascista] continua a germinar após o término da Guerra Fria” (p.115). De resto, essa ideia pode servir de justificativa ao projeto de pesquisa, na medida em que põe de manifesto tanto um problema teórico (a unilateralidade das teorias que se propuseram explicar o fenômeno) e histórico (a atualidade e relevância do fenômeno hoje, mesmo depois do fim do “totalitarismo/fascismo reais”). Ressalte-se que, para além de justificá-lo, a hipótese do totalitarismo/fascismo como tendências tem relevância, também, metodológica. De fato, se partimos do pressuposto de que tais fenômenos são delimitados no tempo, como é possível pretender estudá-los atualmente? E mais: admitido que é possível estudá-los atualmente, como proceder se esses fenômenos, tais como manifestam-se hoje, não estão cristalizados em regimes e partidos políticos, tipos de Estado, etc. A resposta é que o totalitarismo/fascismo constitui-se hoje como tendência, desenrolando-se por baixo do movimento histórico. Um parêntese: se é verdade que a argumentação de Ianni parece remeter praticamente tudo/todos os aspectos da vida social contemporânea ao fascismo, não é menos verdade que ensaios livres deste tipo têm a vantagem de levantar intuições muito sugestivas, tal como a da passagem acima transcrita.
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