segunda-feira, 11 de junho de 2012

Sociedade e modo de produção

É preciso compreender que sociedade e modo de produção não são categorias sinônimas, embora também possam ser empregadas como tal. Modo de produção é uma categoria muito mais simples e abstrata do que sociedade. Em tese, duas ou várias sociedades podem ser igualmente capitalistas, muito embora sejam completamente distintas. Elas partilhariam, neste caso, um modo de produção comum, ou seja, o modo de produção capitalista, mas não necessariamente haveriam de manter relações entre si. É evidente que, historicamente, tal não ocorreu e não poderia jamais ter ocorrido, porque o modo de produção capitalista constitui uma unidade lógica e histórica. Por outro lado, é uma fantasia conceber o capitalismo como um processo que irrompera num único ponto e, de lá, espraiara-se como um vírus para o resto do mundo. Trata-se de um processo unitário, sim, mas que, todavia, se realizou a partir de vários lugares e momentos diferentes. Essa dialética não pode ser negligenciada sob pena de cairmos numa visão simplista, linear e unilateral da sua gênese e desenvolvimento. O modo de produção capitalista, portanto, surgiu em mais de uma sociedade ao mesmo tempo, muito embora, igualmente ao mesmo tempo, perfizesse um único processo total. Assim, essas diferentes sociedades compuseram o quadro concreto, prenhe de particularidades, no qual o modo de produção se realizou historicamente. Ainda hoje essas particularidades compõem esse quadro concreto (o que jamais poderia deixar de ser, uma vez que a realidade não é um mero plano empírico unidimensional, mas uma consubstanciação dialética entre universalidade, particularidade e singularidade), ainda que com muitas modificações, e são elas que cindem e diferenciam o modo de produção capitalista em inúmeras sociedades distintas, as quais podem estar relacionadas, seja antagônica seja cooperativamente, entre si ou não sob uma variedade de pontos de vista (cultural, linguístico, econômico, político, etc.). Vê-se, portanto, que a categoria sociedade comporta inúmeros elementos concretos como cultura, geografia, língua, instituição política, etc. (sem deixar de lado a economia e as relações sociais, porque, embora estas componham a esfera por excelência do modo de produção capitalista, cada sociedade se constitui como uma economia particular em relação ao modo de produção capitalista em sua totalidade), ao passo que a categoria modo de produção não. Esta apenas sintetiza as determinações mais gerais, abstratas e simples que aparecem em todas as sociedades capitalistas e as correlaciona dento de um todo concreto. Em tese, podemos admitir que a categoria sociedade, enquanto conceito teórico, pode e deve ser um construto do sujeito do conhecimento (um cientista, por exemplo). Mas essa afirmação não pode ser compreendida em sentido absoluto. Uma categoria é sempre a síntese conceitual, no plano do conhecimento, de determinações reais, dadas no plano empírico. O cientista não reuni e manipula ao bel-prazer as características específicas que consubstanciam uma dada sociedade, mas as encontra na sociedade mesma, enquanto uma realidade histórica e socialmente produzida. Não obstante, segundo as finalidades da pesquisa, é igualmente correto o fato de que ele selecione, recorte, separe e integre, analítica e sinteticamente, as características que lhe afiguram mais necessárias. Entretanto, tampouco esse procedimento é completamente arbitrário, uma vez que a arbitrariedade nele implicada está diretamente relacionada aos objetivos da pesquisa, sendo que o pesquisador apenas torna consciente e racionaliza esses objetivos. Do mesmo modo, se se pretende científica, o processo de conhecer deve se balizar em parâmetros objetivos que não podem ser eliminados, como a exigência da demonstração, da experimentação, da obtenção de dados e provas, etc. Portanto, um estudo teórico tem de respeitar não apenas seus próprios objetivos mas também o método para alcança-los, isto é, tanto os meios quanto os fins.
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