quarta-feira, 20 de junho de 2012

Sociedade da informação e economias baseadas no conhecimento

Trata-se, atualmente, de um senso-comum a ideia de que a economia do capitalismo contemporâneo está baseada na produção de conhecimento e não mais (apenas) de mercadorias. Daí as teses que defendem a emergência de uma nova sociedade, a sociedade da informação, na qual o trabalho prevalente não é mais material mas imaterial, e a força produtiva é a ciência. Há inúmeras inconsistências teóricas e incompatibilidades empíricas nessas teses. Elas não se sustentam diante dos fatos de modo algum. Mas há também um outro importante flanco a partir do qual elas podem ser questionadas: a partir do desenvolvido histórico – não das teses e teorias que acreditam ver nas novas tecnologias e processos de trabalho a emergência de uma sociedade distinta da capitalista, mas do próprio processo histórico que deu origem a essas transformações tecnológicas e organizacionais. Vistos os fatos sob esse ângulo, torna-se patente que as grandes empresas e corporações oligopolísticas de hoje jamais poderiam ter se estabelecido unicamente mediante o desenvolvimento de conhecimento e tecnologia. É evidente que o monopólio do conhecimento e o desenvolvimento de novas tecnologias estão na base do processo pelo qual centralizam e concentram capital. Contudo, sem um montante tal de capital acumulado, essas corporações nunca conseguiriam produzir conhecimento e desenvolver tecnologia. Isso quer dizer que novas tecnologias e novos conhecimentos são, a um só tempo, resultado e pressuposto da acumulação de capital. Depois que o processo de acumulação alcança e ultrapassa determinado nível, não se pode mais desenvolver novas tecnologias e novos conhecimentos sem um montante adequado de capital. Daí porque as bem-intencionadas mas essencialmente equivocadas alegações de que os países subdesenvolvidos não crescem porque não possuem força de trabalho qualificada e parques científicos de ponta não passam de tolice. Ora, um país subdesenvolvido é um país descapitalizado, e um país descapitalizado não tem como produzir conhecimento e tecnologia. É somente numa conjuntura econômica dinamizada que surge a demanda por desenvolvimento científico. No que concerne à ciência, portanto, ela se torna uma atividade humana vinculada e dependente da iniciativa privada, de modo que queda refém das necessidades de acumulação. Sem o impulso dado pelo capital, a ciência não se desenvolve. Isso fica muito claro quando analisamos o processo histórico de formação e consolidação das grandes corporações, cujo poder aparece hoje em dia como estando arrimado tão-somente sobre a produção de conhecimento. A Apple, por exemplo, não produz suas mercadorias, mas apenas os concebe. Daí infere-se que o conhecimento é sua força produtiva. Mas seria correto inferir que foi em razão de uma avançada concepção que a empresa hoje pode terceirizar sua produção? Deixemos a Apple de lado. Embora seja mais difícil de enxergar os nexos entre capital acumulado e P&D nas empresas de alta tecnologia informacional, devido às especificidades desta indústria em particular, também nela capital acumulado é condição necessária para o desenvolvimento tecnológico e produção de conhecimento. Em outras indústrias, entretanto, esse vínculo é mais evidente. Pense-se, por exemplo, na indústria automobilística, ou farmacêutica. Trata-se de indústrias de alto capital agregado e demandantes de enormes investimentos em pesquisa e desenvolvimento. O fato de que a grande maioria das indústrias antes situadas nos países centrais do capitalismo mundial hoje possam descentralizar a produção em direção a países antes agrários e através da contratação de terceiros locais, isso só é possível pelo processo anterior de acumulação de capital, culminando nos trinta anos gloriosos que sucederam a Segunda Guerra Mundial. Combinado a um impenetrável monopólio intelectual mediante patentes, o acúmulo de capital das principais corporações mundiais em todos os setores econômicos tornaram-nas aptas a se desfazerem de seus setores diretamente produtivos e, não obstante, permanecerem auferindo os lucros com a venda de seus produtos. Um punhado de corporações oligopolísticas detém o controle da produção, mesmo que não produzam diretamente. O capital acumulado ao longo de décadas, o monopólio intelectual de suas patentes, e a propriedade de suas marcas garantem-lhes que, ao final do processo de produção e circulação das mercadorias, quem ficará com os lucros são elas. Soma-se entra essas causas, também, o fato de que a invenção e sofisticação de uma série de instrumentos financeiros permitiram a essas corporações manter seus capitais centralizados e concentrados mediante títulos e ações. O capital, portanto, passou a se cristalizar na forma de títulos negociáveis na bolsa e não mais em bens de capitais, ou seja, máquinas, edifícios, instrumentos de trabalho, etc. Dito tudo isso, deve-se notar que o monopólio do conhecimento em função do monopólio do capital não impede que nesse processo parte desse conhecimento seja transferida para as empresas situadas fora das corporações que o detêm. Pode-se observar isso na China, que recentemente começou a produzir, entre tantos outros bens de alta tecnologia, marcas próprias de carros. Há um claro movimento de transferência de recursos técnicos, físicos e informacionais em direção àquele país, o que se traduz na redução de sua dependência tecnológica em relação aos países de capitalismo avançado. Mas isso apenas está sendo possível enquanto resultado dos últimos 30 ou 40 anos de rápida acumulação de capital que a China logrou ao se tornar o parque industrial do mundo.
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