segunda-feira, 11 de junho de 2012

Para entender a alienação e o estranhamento com exemplos

O ovo de páscoa que tão alegres deixa teus filhos, enquanto mercadoria, esconde o fato de que sua matéria-prima, o cacau, é cultivado e colhido com trabalho escravo de crianças contrabandeadas à Costa do Marfim a partir dos países vizinhos. O cacau, lavorado pelos meninos/trabalhadores/escravos, é vendido a custo baixo para as exportadoras nacionais e, a partir delas, encaminhados aos centros de produção na Europa. Veja só a tragédia desta ironia: enquanto algumas crianças regozijam-se com o prazer do chocolate, outras morrem esgotadas pelo trabalho, sem se educarem, sem poderem brincar, sem pais nem mães. Seu filho não sabe que está comendo a vida de milhares de crianças negras pobres. 

O consumidor de tecnologia igualmente desconhece o fato de que os celulares, tablets, iPhones, etc. que lhe são tão úteis (e muitas vezes não tão úteis assim) contêm minérios retirados do Congo, com cuja venda financia-se uma guerra civil que já matou milhões (milhões, eu repito, não milhares) de pessoas. Esses mesmos aparelhos eletrônicos, por sua vez, são fabricados por uma força de trabalho brutalmente precarizada e superexplorada alocada na nova fábrica do mundo, os países do leste asiático. 

Tudo isso fica escondido por trás das mercadorias, por trás da forma mercadoria. 

E por falar em trabalhadores asiáticos, as calças jeans que hoje se compra a preço de banana são confeccionadas por jovens meninas (que, amiúde, não chegaram ainda aos 14 anos) migrantes que recebem centésimos de centavos de dólar por peça produzida. O pagamento por peças imprime um ritmo alucinante ao trabalho. Essas meninas, vindas de todas as regiões do enorme continente asiático, deixam suas famílias camponesas, atrás de melhores condições de vida, inflando gigantescas metrópoles e criando profundos problemas urbanos. De fato, trata-se do maior fenômeno de migração já presenciado pela humanidade. 

E não é preciso que se vá tão longe para encontrar o mesmo fenômeno sob outros conteúdos. Grandes redes de varejo do setor de confecções, como a Marisa e a Pernambucanas, ou mesmo marcas exclusivas como a espanhola Zara, baseiam sua produção em trabalho, senão escravo, precarizado ao máximo, utilizando-se da mão de obra de estrangeiros ilegais, sobretudo bolivianos. A etiqueta nas camisas, bermudas, blusas e calças, que compramos num mês e jogamos fora no mês seguinte, não dizem nada disso. 

Quem compra um bife no mercado, pensando em comê-lo com cebolas e batatas, tampouco desconfia que a ração que alimentou o gado é feita a base de soja, cujas plantações, para darem conta do crescente apetite da humanidade por carne, estendem cada vez mais a barreira agrícola, devorando irrecuperavelmente porções continentais de floresta. Embora o gado brasileiro não seja, via de regra, alimentado com ração, somos precisamente nós quem produzimos a soja que é exportada para alimentar as rés na Europa, América do Norte e China. Além de desmatar, a soja é responsável em grande medida pela concentração de terras, pela contaminação por agrotóxicos e transgênicos. Nada disso aparece no produto final, ou seja, no suculento bife que saboreamos todos os dias. 

Fora a poluição atmosférica que causa, encher o tanque de gasolina pode parecer uma atitude inocente, mas o simples ato de ir ao posto e comprar combustível esconde o fato de que o petróleo sustenta regimes políticos opressivos no Oriente Médio, morte e degradação ambiental na Nigéria e no Equador, financia as guerras neocolonialistas dos países da OTAN capitaneados pelos ianques, polui de forma irrecuperável ecossistemas no Alasca, no Golfo do México, nas areias betuminosas do Canadá, e ao redor do mundo todo. A bomba de combustível não traz nada disso especificado. 

Uma infinidade de outros exemplos poderiam ser aduzidos.
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