segunda-feira, 25 de junho de 2012

O ponto de viragem na evolução da extrema-direita não é casual

Deve-se notar que os partidos políticos de extrema-direita permaneceram no ostracismo desde o fim da Segunda Guerra até meados dos anos 1980. Essas datas não são casuais, e demonstram perfeitamente o nexo intrínseco entre condições socioeconômicas e partidos e programas políticos. Durante os trinta anos gloriosos, o pacto social do welfare state manteve, de um lado, distante os extremistas de direita e, de outro, os social-democratas incontestavelmente no poder. A década de 1980 marca uma viragem nessa situação, quando o neoliberalismo ganha status de política econômica da qual não se pode escapar. O Estado de bem-estar social começa a ser rapidamente desmontado, o discurso conservador começa a monopolizar cada vez mais o debate político, e as transformações estruturais no capitalismo mundial iniciam seu processo de eliminação de empregos, financeirização e transnacionalização do capital. O fato de que os partidos de extrema-direita direita, com seu discurso nacionalista e xenofóbico, começa a sair do ostracismo e ganhar notoriedade e respaldo nas urnas exatamente neste período não é causal. Isso dá provas o suficiente de que uma problematização que se pretende correta a respeito do fenômeno não pode manter-se presa e restrita à esfera política. As teorias que pretendem explicar o fenômeno através de uma suposta falência das instituições democráticas e liberais não podem alcançar o problema, porque permanecem reféns dos efeitos do fenômeno, sendo-lhes incapaz de alcançar suas causas, as quais residem nas transformações das relações entre classes e grupos sociais. Claro que se deve fugir a toda esquematização simplista do problema. A esfera política e Estatal também participa enquanto causa e não apenas como mero efeito. É por isso mesmo que não se pode separar as distintas esferas da vida social e explicar cada uma delas unicamente em si mesmas, mas deve-se ter em conta as relações contraditórias que as mantêm em recíproca determinação. Além do mais, essas teorias políticas, via de regra embasadas sobre uma perspectiva liberal, são problemáticas, uma vez que não compreendem a natureza contraditória da esfera política sob a determinação do capitalismo, não compreendem as relações entre as classes como suporte dessa esfera e, portanto, tomam a política e o Estado de maneira idealista e anistórica. Os fenômenos políticos devem sempre ser analisados em relação com a sociedade que lhes dá suporte, que fornece seu conteúdo material efetivo. Essa sociedade está baseada no modo de produção capitalista. Se se perde de vista essas determinações essenciais, cai-se numa concepção por vezes moralista a respeito do problema. O que se deve entender, afinal, por falência das instituições democráticas? Como se entende essa perversão? Trata-se de uma perversão moral, isto é, dos valores e princípios democráticos, pautados na liberdade e na igualdade do indivíduo? Como chega a acontecer uma tal perversão? Essas questões são equívocas, e perdem os conteúdos reais do problema. São questões formuladas a partir de um ponto de vista formalista. O Estado visto a partir de si mesmo, a partir de suas instituições e princípios, não passa de uma forma vazia e carente de conteúdo. O que anima e dá vida a essa forma são as relações sociais que mantêm os indivíduos e, mais especificamente, as classes socialmente estruturados ao longo do processo histórico de reprodução da vida social. O Estado deve, portanto, ser compreendido enquanto uma determinação dessas relações sociais. O fenômeno, visto deste ângulo, aparece sob sua forma concreta, isto é, as novas configurações partidárias de extrema-direita, bem como seus programas políticos nacionalistas e conservadores, refletem as transformações das condições sociais que tiveram início a partir das décadas de 1970/1980. Devemos, neste sentido, compreender a natureza dessas transformações sociais para que possamos compreender o porquê delas levarem a um crescimento do extremismo conservador e não a outra direção.
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