terça-feira, 19 de junho de 2012

Nossas mãos sujas de sangue palestino

Esta semana a força aérea de Israel voltou a bombardear a Faixa de Gaza. Reitera-se mais uma vez a flagrante ilegalidade da política israelense, que viola impunemente as Convenções de Genebra e incorre em crimes de guerra. Mas como não se trata de uma guerra efetivamente, Israel viola todos os mais básicos princípios do direito humano e internacional. A mídia pró-ocidente (tomado o termo ocidente no sentido ideológico historicamente definido como o hemisfério democrático e liberal em oposição ao hemisfério totalitário) tão plenamente molda a percepção do senso-comum que se tornou normal uma completa indiferença de todos diante desse fato. A veiculação de semelhantes notícias é quase protocolar: grupelhos radicais teriam lançados foguetes contra o território de Israel, o Estado teria respondido com bombardeios aéreos, algumas crianças teriam morrido, e os ânimos teriam se exaltado. Ponto. Passa-se a falar de futebol. Escondem conscientemente o fato de que se trata de um território ocupado, ou, antes, confinado e cerceado por uma das máquinas de guerra mais modernas do mundo. No último dia 14 o bloqueio total da Faixa de gaza completou 5 anos, em razão – pretextada por Israel – da vitória eleitoral do Hamas. Ninguém entra nem sai de Gaza sem a permissão do Estado israelense, nem mesmo comboios de ajuda humanitária, que têm de passar pelo dédalo burocrático e institucional onde frequentemente se desencaminham. A jurisdição da ONU na Faixa é amiúde obliterada – quando não tem seus edifícios destruídos pelos mísseis israelenses. A costa marítima está fechada, sendo que nem mesmo os habitantes podem sair para pescar para além de uma faixa de 2 km, um dos únicos meios de garantir-lhes a subsistência. Sair ou entrar de Gaza, para os palestinos, é praticamente impossível. Israel não permite a entrada de cimento e aço para a reconstrução de casas e edifícios que ela mesma destruiu e, não obstante, continua a destruir. A situação é tão absurda, tão ignominiosa, o descalabro é tão inumado, que chega a parecer irreal na mesma medida em que os países “ocidentais” procuram se mostrar o cume da civilização e da evolução social. São precisamente esses países os promotores da barbárie empreendida diariamente contra o povo palestino, tendo à frente os EUA, que fornece, todos os anos, mais ajuda militar aos israelenses do que fornece em ajuda humanitária em dez, vinte anos. Os mesmos países ocidentais que, diga-se de passagem, perpetraram o inaudito massacre contra judeus, os quais parecem ter aprendido perfeitamente a lição, ou seja, como usurpar terras, massacrar, exterminar, e agora as colocam em prática. Porque, não se enganem, extermínio é justamente o que Israel tem em mente em relação aos palestinos. Não estão fazendo outra coisa que não exterminar de fome e doenças um povo que nada teve a ver com os pogroms e com a “solução final” que vitimaram seus descendentes há décadas atrás. Cabe aqui, portanto, perfeitamente o que disse Marx a respeito do curioso aspecto da processualidade histórica, que primeiro acontece como tragédia e depois repete-se como farsa. A política dos israelenses hoje não é mais do que a repetição falsificada da tragédia que eles próprios sofreram. Mas a questão não se resume a isso, evidentemente. Trata-se de interesses geopolíticos e econômicos que envolvem grandes países imperialistas. Mas, para camuflar tais interesses, cria-se um teatro burlesco, motivados por ideologias espúrias, em cujo palco se desenrolam e se justificam barbaridades diárias. Pois não é um teatro grotesco justificar os ataques a uma prisão a céu aberto, com armas e aviões ultramodernos, em razão de foguetes caseiros que apenas eventualmente atingem uma casa em Israel? Uma imagem metafórica apropriada para expressar o absurdo da situação é um canil abarrotado de cães vigiado por homens armados que, quando sentindo que lhe ameaçam seu domínio, tratam de fuzilar um ou dois cães. E quando chegam perto demais e um deles é mordido, põem a culpa no cão. O que dizer dos cidadãos israelenses que aceitam e compactuam com isso? O que dizer da mídia “ocidental” que mente e omite descaradamente os fatos? O que dizer sobre os governos “ocidentais” que não só fazem vista grossa aos crimes de Israel como também lhe dão as armas com as quais cometê-los?
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