sexta-feira, 15 de junho de 2012

Historiografia e história oficial

Sem dúvida, via de regra a história oficial é a história dos vencedores. Mas deve-se notar que isso é diferente do que dizer que a historiografia manipula e tergiversa a história. Há uma dissensão entre a historiografia como ciência e a história como uma espécie de memória coletiva das sociedades sobre seu passado. O fim da Segunda Guerra Mundial e as transformações políticas e econômicas que advieram representa um caso emblemático nesse aspecto. Os EUA emergiram definitivamente como a potência bélica e econômica dominante, fazendo-lhe frente apenas os Estados soviéticos – mais no se refere à capacidade bélica e política do que propriamente econômica –, e o povo alemão acabou entrando para a História como antissemita. A verdadeira história é bem outra. O antissemitismo europeu possui, como se sabe, uma história muito mais longa e profunda na Europa. Quando essa ideologia surgiu como movimento político estruturado, em meados do século XIX, praticamente em toda a Europa, em maior ou menor medida, o antissemitismo se apresentava com enorme força, sobretudo nas classes médias e pequeno-burguesas. Em cada particularidade sociocultural distinta o fenômeno surgiu sobre diferentes aspectos; nalgumas traziam a questão judaica ao centro do palco político, noutras o fenômeno figurava como ideologia a partir da qual giravam conflitos de classe. E note-se que estamos aqui restritos ao século XIX. Mas o antissemitismo, enquanto elemento cultural intrínseco à multifacetada composição étnica da Europa, é tão antigo quanto a Idade Média, senão ainda mais. O início da Renascença na Espanha marca a queda definitiva dos mouros (muçulmanos) e dos judeus. O que as nações europeias vitoriosas fizeram, após a derrota da Alemanha, ao culpá-la exclusivamente por se deixar envolver numa ideologia essencialmente espúria e que mostrara-se potencialmente destrutiva, foi tão-somente desfazer-se da sua própria responsabilidade no genocídio de mais de seis milhões de pessoas. Não apenas, fizeram também com que um povo indiferente às querelas na Europa, os árabes, pagassem a conta. Por ironia da história, hoje é esse povo que se encontra sobre o poder totalitário e fascista dos israelenses, em sua maioria judeus fugidos da perseguição na Europa. O movimento sionista começara já bem antes da Segunda Guerra, na segunda metade do século XIX, motivado pela perseguição aos judeus em todos os países do continente, os chamados pogroms, sobretudo no centro e no leste. Mas tampouco os EUA são inocentes nessa história. As teorias raciais, que encontraram sua expressão máxima na eugenia e que defendiam a existência de diferenças genéticas superiores e inferiores entre as raças humanas, floresceram e se consolidaram com força máxima no país. De fato, os eugenistas alemães tomaram suas lições dos eugenistas norte-americanos, tidos como os mais avançados na área. De maneira geral, tratava-se de uma ciência respeitável e difundida por todo o mundo “civilizado”. Por outro lado, EUA e Reino Unido, assim como a Alemanha nazista, adotaram técnicas de controle social tipicamente totalitárias, como campos de concentração. Hoje acreditamos que esses abomináveis instrumentos de terror eram exclusividade do nazifascismo e do comunismo soviético de Stalin. Nada poderia estar mais longe da verdade. Até mesmo aqui, no Brasil, durante a ditadura varguista, campos de concentração foram criados para confinar cidadãos de origem teutônica. Os ingleses confinavam alemães, enquanto os norte-americanos confinavam japoneses.
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