segunda-feira, 18 de junho de 2012

Extrema-direita ou fascismo?

Deve-se levar em consideração que não necessariamente uma categoria se identifica com a outra. Há diferenças singulares, em razão de transformações históricas, entre a nova extrema-direita e a extrema-direita tradicional, esta última marcada essencialmente pela ideologia fascista (TOSTES, 2009). Essa relação – entre extrema-direita e fascismo – é atualmente muito mais sutil, contingente e indireta. Ao contrário do fascismo, cujo ódio ideológico volta-se contra determinas minorias étnicas e culturais, a extrema-direita atual caracteriza-se por ser xenófoba. Nesse sentido, surge menos atrelada a uma perspectiva político-ideológica imperialista, como foram o nazismo e fascismo clássicos (ARENDT, 1989), do que nacionalista. Com o fim de preservar os valores, bens e instituições do país aos nacionais, a nova extrema-direita procura estabelecer rígidas políticas imigratórias. Isso não significa que ela formule justificativas com base em argumentos unicamente pragmáticos. Decerto o preconceito aparece-lhe como um conteúdo necessário. Entretanto, o eixo da questão aqui não é a definição ideológica de diferenças raciais entre superiores e inferiores, com base na qual se pode perseguir uma política de extermínio ou dominação, mas a separação entre autóctones e imigrantes. Aqui surge a questão do Estado-nação. Em parte, a ideologia da nova extrema-direita parece reacender o debate em torno da nação (quem são os nacionais?) e do Estado-nação. Embora em muitas correntes e partidos da extrema-direita pode-se encontrar os tradicionais elementos que caracterizam a extrema-direita clássica fascista – como o preconceito contra minorias, sejam internas ou externas à nação, e até mesmo o antissemitismo –, em muitas outras esses elementos estão ou ausentes ou atenuados, de modo deixar sobressair outros. No que tange à política econômica, há um claro sentido de ruptura com o liberalismo em favor de uma defesa da economia nacional e de um repúdio às políticas desregulamentadoras. Em vista dessas considerações, devemos, em primeiro lugar, separar analiticamente extrema-direita e fascismo como categorias distintas, sem esquecer que, sinteticamente, ambas estão relacionadas entre si. A extrema-direita constitui uma categoria mais abrangente do que o fascismo per se, ainda que, como dito, muitos partidos de extrema-direita ostentem elementos próprios da ideologia fascista. Trata-se, portanto, de um recurso metodológico que deve ser levado em conta segundo os interesses da pesquisa. Nosso interesse, ao buscar compreender as novas determinações sociais e políticas dos novos partidos de extrema-direita, transcende a questão particular do fascismo, de sorte que é mister tomarmos a categoria extrema-direita enquanto um gênero mais amplo no qual está compreendido a espécie fascismo (muito embora, como já dito, apenas com fins analíticos, porquanto na síntese concreta do real todas essas categorias aparecem inter-relacionadas). Considerar a extrema-direita como um fenômeno político, ideológico e social amplo, em cujo interior abriga-se uma série de processos não raro contraditórios e antagônicos, é necessário devido às grandes transformações pelas quais ela atravessou ao longo da segunda metade do século passado, sobretudo durante o último quartel. Em vista das transformações sociais e econômicas, a extrema-direita e suas correntes particulares, como o fascismo, tiveram, naturalmente, de se adaptar. Um exemplo típico desse fenômeno pode ser apreciado na evolução do Movimento Social Italiano, um partido com matiz fascista mas que, em fins dos anos 1980, começou um processo de adaptação e inflexão ideológica que daria origem ao Aliança Nacional, de cariz democrático-liberal, mais conservador, porém, não fascista (MARCHI, 2011). Um elemento de suma importância na determinação desse processo foi e ainda é a integração comunitária dois países europeus ao longo dos últimos 50 anos, e que culminou na instituição da União Européia e seus vários organismos, em especial a Comissão Européia, o Parlamento Europeu, o Banco Central Europeu e o Euro (TOSTES, 2009). Em resumo, o objeto de nosso estudo não é a ideologia fascista especificamente, mas todo o espectro político que se pode considerar como direita extremista, radical, incluindo aí, evidentemente, o fascismo. Com isso não se deve esquecer, por outro lado, que tais categorias são sempre móveis, dinâmicas, o que impõem que a analisemos sob o prisma histórico. A categoria extrema-direita enquanto objeto de estudo nos leva a outra questão: qual a operacionalidade conceitual dessa categoria? É viável uma teorização em termos de espectro político-ideológico?
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