sexta-feira, 25 de maio de 2012

Manifesto contra a rotina

Cumprir a rotina é locomover-se dentro de limites estreitos, conforme um caminho pré-delimitado, de sentido único e trajetória viciada. É viver submergido na inconsciência e na mecanicidade. Não há nela espaço algum para meditar a respeito de si própria. E como a rotina hoje abarca virtualmente todos os aspectos da vida, invadindo e sufocando cada pequenina frincha de liberdade restante, segue-se que perdemos a ciência e, destarte, o controle sobre a nossa existência individual e coletiva. 

Formalmente, a rotina constitui uma sucessão de imagens idênticas que se repetem no tempo. Das janelas dos edifícios comerciais e residenciais, dos carros, ônibus e metrôs, abrem-se as mesmas paisagens desde sempre conhecidas. Não passam de meia dúzia de semblantes idênticos, ruas sabidas de cor, objetos triviais, ações repetitivas, os elementos que, dia-a-dia, conformam a paisagem indiferente, tantas e tantas vezes observada. 

Dizem-nos que a rotina, assim como outros aspectos tanto ou mais dessaboridos da vida, é necessária. Mas estamos fartos de necessidades e sedentos por possibilidades. Queremos demolir a rotina, sumir com sua desumanidade e seu tédio, e colocar no lugar o inesperado, o inédito, o desconhecido. Em troca de algum conforto enganoso, acabamos por compartimentar a vida em departamentos, repartições, órgãos, secretarias; por enquadrar comportamentos em protocolos, petições, requerimentos, precatórios; por fazer dos objetos das vontades humanas ativos, bens, títulos, rendas. Ao final, arrostando a rotina com estoicismo bovino, aceitamos o fato criado como dado – e não pensamos mais nisto. 

Existem rotinas e rotinas. Mas não importa qual você faça parte, todas elas são solitárias. As infinitas rotinas se cruzam, se emaranham e entretecem-se, mas cada um de nós preocupa-se apenas com a sua própria e solitária rotina. Trata-se de uma obrigação a ser cumprida, uma entre um mosaico sem-fim de obrigações aparentemente diminutas e mesquinhas – e nós havemos de cumpri-la. Quem cumpre sua rotina de bom-grado, sem questionamentos de qualquer espécie, é visto com bons olhos. Talvez até seja promovido a uma rotina superior – e essa esperança insípida nos satisfaz. 

Para nos lograr, para nos fazer esquecer das maravilhas que existem lá fora e das misérias que existem cá dentro, somos bombardeados com imagens digitais fantásticas, ensejando sonhos e desejos extraordinários que fazem as vezes de realidade, são-lhe sucedâneos baratos e confortáveis. Burla esperta e velhaca. Entre todos, talvez seja o mais profícuo modo de manter sob controle o comportamento bovino. 

Onde foi parar a aventura? Hoje não passa de uma experiência esquizofrênica. Aventuramo-nos enquanto engordamos a ruminar alimentos industrializados derribados no sofá ao fim de um dia duro de trabalho. Não há outra imagem que melhor expresse o significado de realidade virtual. A realidade virtual está bem aqui, onde pensamos encontrar vida e concreticidade. E os altos níveis de experiência virtual, cada vez mais aprofundada por inimagináveis inovações tecnológicas, elevam ao paroxismo a disjunção entre aquilo que percebemos rotineiramente e aquilo que desejamos perceber. 

O mito, que antes era uma forma que os homens encontram para dizer sobre si mesmos, hoje não passa de um modo de iludir a eles mesmos. De modos de conhecer o humano e a natureza, o fantástico e o mítico tornaram-se poderosos sedativos cuja função é amortecer a nossa percepção da realidade. Filmes, programas de TV, livros ficcionais, videogames, tomaram o lugar da realidade, ou ao menos criaram uma outra, paralela, que não se confunde com a pobreza e a miserabilidade desta em que acostumamo-nos a viver. O amor não se passa como nos filmes; a roda da fortuna não gira e não te agracia com a riqueza líquida e certa a qualquer instante; uma empolgante trama de intrigas e conspirações não te enliça de supetão quando desapercebido a espera do ônibus. Mas gostamos de pensar que sim – e, como uma droga, isto basta. 

Os livros devaneiam sobre alienígenas invasores, futuros apocalípticos dominados por zumbis, contos cômico-românticos sobre fadas modernas; os filmes consubstanciam os devaneios em imagens e sons; e os videogames nos permitem atuar e vivenciar o devaneio. Que fique claro, o problema não é imaginar o fantástico, faculdade específica da humanidade e que lhe confere o condão, singular até onde sabemos, de criar. Sonhar é o impulso básico por trás de toda a história humana. O problema está no modo como o fazemos atualmente. Imaginamos e sonhamos não para criar e subverter, senão para aceitar e submeter-se. Por isso, não encontramos nos mitos contemporâneos a nossa própria imagem criptografada no imaginário, mas o esquálido reflexo do pouco que sobrou da nossa humanidade. É a expressão final de quão industrializados, mecanizados, padronizados, arrebanhados e, ipso facto, amputados, reduzidos e alienados estamos. 

Cíclica como o sol e os astros, a rotina não tem começo, meio ou fim. É um eterno recomeçar. Do ponto de vista individual, não se pode dizer quando começou e quando terminará, exceto talvez por ocasião do nascimento e da morte, sendo seu desenrolar o acontecer de uma vida inteira. Assim, a rotina não começa pela manhã e não termina na boca da noite. Rotineiro é o trabalho, o modo de ganhar o pão de cada dia, as tarefas domésticas, a criação dos filhos, mas também o lazer, o descanso, a diversão, bem como as parcas coisas que, nos interstícios das obrigações, fazemos desobrigadamente. 

É certo que existem dias nos quais a paciência boiúna se esgota. Acordamos, então, da pá virada, loucos por arrebentar com a rotina, com esses grilhões invisíveis que nos prendem ao destino mundano e banal. E nosso atrevimento não tem limites. Nesse dia, ao invés de economizar o tão suado dinheirinho como observa a prudência, mandamos pr’o inferno o comedimento rotineiro e, de roldão, compramos aquela tão desejava televisão de plasma/fullHD/LED e a porra toda; ao invés da comida sem gordura e do refrigerante light, atrevidamente refestelamo-nos com os altos níveis de gordura e açúcar de fast-foods insalubres; somos até mesmo capazes de, ao invés da cordialidade costumeira, da encenação burlesca que a rotina impõe, mandar aquele tão aborrecedor desafeto às favas. Mas, basicamente, a rebelião termina por aí – e, de tresmalhados, somos reconduzidos de volta à ordem. 

Eis o ponto simplório ao qual se reduziu a rebeldia da gente. Sair às ruas, protestar, exigir, impugnar, agitar, mobilizar, subverter, e – por que não? – amar, sonhar, criar, brincar, jogar, ajudar, são verbos que não cabem na rotina, não cabem no cotidiano rotinizado, e em função disto têm de ser suprimidos, subsumidos, olvidados, toldados. Uns poucos verbos e umas tantas palavras desenxabidas dão conta inteiramente da rotina. Não são necessários mais do que cumprir, fazer, refazer, desempenhar, executar, sujeitar-se, submeter-se, anular-se. À vida de autômato, cada vez mais naturalizada, ninguém mais vê escapatória ou possibilidades diferentes. Hoje só se enxerga os limites, estreitos limites dentro dos quais devemos nos mexer, ignorando-se horizontes inéditos em paragens alhures. Ou melhor, vê-se o horizonte como limite, como contenção, e não como espaço infinito de ações e caminhos possíveis. 

A pobreza, a estreiteza, a banalidade, da vida rotineira contemporânea já não cabem em nossos corações. Por mais que a modernidade tenha tentado recalcar a essência humana sob o peso da rotina, empobrecendo homens e mulheres em favor da valorização das coisas, como um broto fresco e viçoso ela renasce por entre as rachaduras do edifício inumano e morto. É hora de expandir e romper os limites, quebrar os padrões e subverter a ordem, lutar e na luta amar, destruindo, por toda parte, os grilhões inadvertidamente autoimpostos. É hora de deixar para trás o crepúsculo desta civilização que homogeneíza, padroniza, deforma e corrompe o espírito, e ver no horizonte a aurora de uma nova utopia. Marchemos em direção a ela. Criemos novos conteúdos, implodamos as formas, reinventemos as relações, redefinamos os conceitos. Sejamos criticamente rebeldes, criativamente vândalos, alegremente indisciplinados, inexoravelmente subversivos, indizivelmente amorosos. E, um dia, quando estivermos despertos e livres do sono profundo, a rotina desumana não passará de uma palavra abominável, lembrança de quando os seres humanos ainda eram escravos de suas próprias criações.
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