terça-feira, 15 de maio de 2012

Recrudesce a crise na Europa: há possibilidade de superá-la dentro do modo de produção capitalista?

As eleições das últimas semanas dão conta do sentido geral da situação: a recusa pelo povo da panacéia neoliberal para a crise. Apesar da evidência com que se apresenta a vontade popular, soberana, o ritual mais elementar da democracia formal, o sufrágio, não parece servir ao seu propósito. Hajam sido eleitos direitistas ou esquerdistas, o dogma neoliberal da austeridade fiscal se impõe, quase como se se tratasse de um instrumento técnico, sem implicações políticas, ideológicas ou sociais.

Contudo, essa tendência parece estar, ligeiramente, a aproar em outra direção. Na França, elegeu-se um socialista, após três décadas de governo conservador. Hollande vem deixando claro seu desacordo com a política austera de Merkel. Sem Sarkozy para suportá-la, a chanceler alemã queda enfraquecida no que toca em seu poder de polícia da zona do euro. Acabou ainda mais enfraquecida diante das últimas derrotas de seu partido, a União Democrática Cristã, nas eleições regionais.

Se a situação é de recessão econômica na Alemanha, o Tesouro do país ainda representa um porto seguro para os voláteis capitais europeus, de modo que Angela Merkel conta ainda com a possibilidade de financiar a dívida pública a juros muito baixos. Enquanto isso, a rolagem da dígida espanhola torna-se cada vez mais pesada. Diante da iminência da falência grega, que segue sem governo após as eleições parlamentares, e da eleição de um socialista na França, sem falar na derrota dos democratas cristãos na Alemanha, os mercados financeiros entraram essa semana em queda, desconfiados.

O cenário é nebuloso, e é cada vez mais difícil apreender dele as linhas principais a partir das quais a situação deverá evoluir. O certo é que a profundidade da crise na Europa expressa perfeitamente o caráter estrutural da crise capitalista contemporânea. Ela deixa claro a falácia e a superficialidade dos economistas tradicionais ao analisarem "as crises" (e não "a crise") em termos locais. A crise de 2008, que foi atribuída às hipotecas subprime nos EUA, não constitui uma crise isolada. Embora específica, constitui apenas um momento no qual se revela a crise estrutural do capital.

É, pois, impossível que a saída da Grécia da zona do euro, por exemplo, ou a mudança pontual na política fiscal e monetária da Alemanha ou da França, venham a superar essa crise. O paradigma sócio-histórico que amoldou a acumulação do capital nos últimos 30 anos entrou definitivamente em esgotamento. Resta saber quais serão os efeitos de seus estertores ao nível social e político.
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