quinta-feira, 17 de maio de 2012

Crise da Zona do Euro e crise estrutural do capital

A crise econômica da zona do euro parece ter duas causas principais. A primeira, de ordem geral, decorre da crise estrutural do atual estágio de desenvolvimento da produção capitalista. O modelo neoliberal alcançou seu esgotamento, demonstrando a insustentabilidade de suas próprias contradições. A segunda é de ordem específica, e diz respeito aos efeitos da constituição da União Européia e da Zona do Euro. Ambas as causas imbricam-se dialeticamente, de modo que separá-las é válido apenas como recurso analítico.

Desde 1999, quando foi criado o Euro, as especifidades socioeconômicas de cada país foram eludidas em favor de uma moeda e de políticas macroeconômicas únicas. Com a moeda sobrevalorizada, as economias mais fracas viram rapidamente suas exportações deterioradas, ao passo que crescia grandemente suas importações. O resultado foi um enorme desequilíbrio entre as balanças de pagamento de cada membro da zona.

Isto é certo, mas apenas em partes. À exceção da Alemanha, único país a não só apresentar superávit em suas relações comerciais com o resto do mundo mas também a apresentar crescimento contínuo na taxa de superávit comercial, todo o resto da Zona do Euro teve consistentes déficits comerciais ao longo da última década. Aqui evidencia-se as determinações mais gerais da crise estrutural do capitalismo, cujo padrão de consumo baseia-se na enorme liquidez monetária acumulada pelo capital financeiro. Foi assim que os déficits na balança de pagamentos dos países europeus foram sustentados pelo crédito a juros baixos.

Outro aspecto da imbricação entre crise estrutural e crise da Zona do Euro revela-se na política fiscal austera adotada sem ambages por quase todo o mundo capitalista. De 1999 a 2008, os países hoje em risco de default (Espanha, Grécia, Portugal, Itália) conseguiram manter as contas públicas relativamente controladas, apesar do baixo crescimento econômico. Acontece que a crise financeira iniciada nos EUA ao fim da década levou a um endividamento brutal dos Estados, uma vez que, para debelar a crise, a (literalmente) panacéia ministrada foi a injeção de receitas públicas no mercado financeiro e o corte sistemático de gastos públicos. O resultado é a atual recessão e a superposição de dívidas sobre dívidas.

Não é sem interesses que a Alemanha não abre mão do receituário neoliberal, já que ela é a grande beneficiária do livre mercado europeu. O que causa espécie é que todo o resto da Europa insista na mesma política econômica. Mas mesmo a Alemanha não está imune do contágio da crise. Não há como preencher a bolha financeira com capital puramente alemão ou mesmo oriundo do FMI.
Postar um comentário