terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Carta à Revista Piauí, número 63, a respeito do texto de José Bonifácio Sobrinho

Confesso que não pude compreender as razões que levaram a Piauí a publicar um texto assinado pelo antigo diretor-geral da Rede Globo, José Bonifácio Sobrinho. Já as razões deste, estas sim são sobremaneira evidentes. Tanto neste texto, quanto em seu livro, o ex-executivo global não procura senão reescrever a história a partir da peculiar visão de mundo das Organizações Globo. Trata-se da criação ou da consolidação de um mito fundador, com o Sr. Roberto Marinho investido na figura do herói. 

Boni se empenha em tecer belos cenários, onde o “Dr.” Marinho – que, ao contrário da formação auto-outorgada de jornalista, era antes um hábil homem de negócios, e cujo título doutoral lhe fora concedido não pela academia mas pelas forças do mercado – desempenha as mais galhardas ações cavalheirescas. Nada disto, decerto, corresponde à verdade. Ademais, mesmo que correspondesse, seria irrelevante. Para a história, o que interessa não é a pessoa humana de Roberto Marinho, mas suas ligações com o poder político e econômico, ligações que fizeram da TV Globo uma das instituições mais poderosas do mundo. 

Sem a parceria - inconstitucional, seja dito de passagem - entre a Globo e a Time-Life o canal de Roberto Marinho teria se tornado o que se tornou? Houve efetivamente uma relação promíscua entre o Regime Militar e a Rede Globo? Roberto Marinho jogou sujo para entravar ou retardar a abertura democrática? Quando reinstaurado o Estado de Direito, a Globo empenhou-se em determinar os rumos do poder público mediante o favorecimento dos setores conservadores da classe política? Eis aí algumas das questões que realmente nos interessam. 

Certa feita, Roberto Marinho declarou, sem rebuços: “sim, eu uso o poder”. Noutra vez, por ocasião de uma entrevista ao The New York Times, falou nestes termos sobre o escândalo eleitoral de 1982: “Passei a considerar o Sr. Brizola daninho e perigoso e lutei contra ele. Realmente usei todas as possibilidades para derrotá-lo na eleição”. Suas palavras falam por si, são confissões assinadas. 

Ao contrário do que quer fazer crer seu amigo Boni, Roberto marinho sustentou sim uma estreita e amigável relação com os militares no poder. Isto é da ciência de todos. Mas não confundamos esse pormenor com a questão principal. Roberto Marinho e sua criatura, as Organizações Globo, não têm necessariamente vocação intrínseca para o despotismo e para a tirania – ou, pelo menos, não manifestamente. Antes, têm para a obtenção do puro poder de per si. Não importa quem estiver lá em cima, a Globo estará também e fará seus interesses prevalecerem. 

Talvez os mais de trinta anos de atuação na Rede Globo e de convivência com o Sr. Roberto tenham mal-acostumado o Sr. Boni a reescrever a história ao bel-prazer de seu arbítrio. Mas não importa quantas vezes as Organizações Globo e seus dirigentes tentem reescrever a história, a verdade irromperá, aqui e ali, através das inúmeras fissuras do império midiático.
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