segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O discurso do Obama na ONU: o velho cinismo hipócrita que a mídia compra

Para quem ainda nutria esperanças a respeito de Barack Obama, seu último discurso na Assembléia Geral da ONU deve ter eliminado qualquer sombra de dúvida. Tem ficado cada vez mais claro a pouca distância (se é que efetivamente havia ou há alguma) entre seu governo e a administração Bush. As diferenças entre os dois presidentes têm-se apagado tão gritantemente, que até mesmo aquilo que parecia ser a marca registrada de Obama, a eloquência oratória, se perdeu. Na quarta-feira passada, ao invés do eloquente candidato à presidência que conhecemos em 2008, deparamo-nos com um homem sem convicção em seu próprio discurso.

Nesse sentido, o discurso de Barack Obama na ONU surpreendeu. Surpreendeu pela pobreza de pensamento, pela banalidade das proposições, pelo sentimentalismo piegas. Só o que não surpreendeu foi a cínica tergiversação do discurso diante das questões fundamentais enfrentadas pela humanidade neste momento. Se não fosse pelo cinismo homólogo dos demais chefes de estado, o discurso de Obama teria sido motivo de pilhéria. Difícil mesmo deve ter sido o trabalho que a grande mídia burguesa teve para apresentar seu discurso como uma peça ímpar de estadismo, de visão política e de liderança.

Já que a mídia burguesa se recusa a fazer uma análise crítica da retórica discursiva de homens como Obama ou como o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, limitando-se a reproduzir a distorcida visão de mundo da Casa Branca, cabe a nós cumprir a tarefa de revelar o que a retórica esconde, isto é, o que está por trás da mistificação deliberada com a qual eles escamoteiam seus reais e sórdidos interesses. A situação não poderia ser mais apropriada, diante do pedido de reconhecimento do Estado palestino feito na Assembléia Geral.

Era de se esperar que, conforme o governo de Obama fosse se desenrolando, seus ideais fossem alinhando-se cada vez mais estreitamente com a visão de mundo conservadora da Casa Branca. Em 2008 pairava um sincero clima de mudança no ar, de que a era Bush chegara ao fim. De lá para cá, Obama perdeu todas as batalhas que travou com o Partido Republicano, com a mídia conservadora e com a manipulável opinião pública americana. O sistema público de saúde não saiu, os cortes sociais continuaram, a tributação regressiva persiste enquanto um tabu intocável. Se Obama anunciara a exato um ano atrás o fim da Guerra do Iraque, tal não se deve a uma política externa independente e autônoma em relação à linha fundamentalista de George Bush. Decorre simplesmente do fato de que a guerra se esgotou. Em seu último discurso na ONU, ficou insofismavelmente claro que, suposto que Obama nunca deixara de ser sincero com suas convicções, seu governo tornou-se refém do Congresso e do Partido Republicano, e não tem, portanto, autonomia política. Vejamos o que é verdade e o que é mentira no discurso do chefe de estado norte-americano.

O eixo do discurso de Obama segue o esquema básico da política externa norte-americana: procura criar a todo momento um clima de insegurança mundial, dividindo o mundo em mocinhos e bandidos, ao mesmo tempo em que coloca os EUA como líder dos mocinhos. Ao maniqueísmo do discurso é acrescentado um tom sentimentalista, e aos EUA é sempre emprestada uma auréola de santidade, de abnegação e bravura em sua épica luta contra o mau. Por vezes, o tom passa do sentimentalismo piedoso para um paternalismo circunspecto e digno. Com isso, o intuito não é mais do que criar um mito, cobrindo a figura dos EUA com o manto da pureza moral, do senso de responsabilidade diante do dever, da bravura e dignidade com a qual assumem essa responsabilidade. O objetivo é passar algo como: não temam, porque os EUA “sempre irão se levantar pelos direitos universais” contra os inimigos da democracia e da liberdade.

Todos esses elementos estão presentes no discurso através de palavras-chave como liberdade, direitos humanos, paz mundial, democracia, oportunidades etc. O nível de abstração em que elas são operadas é revelador das intenções sub-reptícias no discurso. Liberdade, igualdade, paz, são apenas formas vazias quando abstraídas do conteúdo concreto da realidade social. Paz para quem? Quem é livre? Igualdade de direito ou igualdade de fato? Evidentemente, o discurso é posto num nível tal de abstração que essas determinações se perdem, e tudo é mergulhado na noite onde todos os gatos são pardos.

Vejamos o que Obama diz sobre as duas guerras no Oriente Médio. A afirmação de que as tropas americanas devem deixar o Iraque até o fim do ano é simplesmente mentirosa: um contingente de 50 mil homens ficará no país com o pretexto de “treinar” o exército iraquiano. Isto representa aproximadamente mais de dois terços do contingente total hoje em serviço no Iraque, o que nos faz questionar em que consiste afinal a retirada das tropas americanas. Enquanto isso, o contingente no Afeganistão triplicou desde a posse de Obama, e não dá sinais de que irá diminuir tão cedo.

Toda vez que Obama fala em “fortes parcerias” com o “povo” iraquiano e afegão deve-se ler: contratos bilionários das empresas norte-americanas com o governo fantoche do Iraque e do Afeganistão. Deve-se compreender que este é basicamente o motivo fundamental dessas guerras. Não se trata apenas de petróleo. A reconstrução da infra-estrutura do país movimenta bilhões de dólares e grande parte dos contratos são firmados com empresas norte-americanas e seus aliados na OTAN. As guerras têm um peso enorme na combalida economia americana. Movimentam a indústria bélica, o sistema financeiro e as corporações transnacionais que se estabelecem naqueles países em busca de contratos com os governos fantoches. A finalidade última da guerra é abrir mercados. E, nesse sentido, é notável observar que Obama se refere em seu discurso várias vezes aos “mercados abertos”. O papel da guerra na economia Americana e no capitalismo mundial fica simplesmente patente quando Obama afirma que “os EUA irão continuar a apoiar as nações que fizeram a transição à democracia com um grande comércio e investimentos para que a liberdade seja seguida pela oportunidade”.

A simplificação como as coisas são tratadas chega a exasperar o ouvinte. Aparentemente tudo se resume à luta dos povos oprimidos do mundo pela democracia e por oportunidades iguais, demanda justa sempre pelos EUA. Banalidades como “a paz é difícil”, ou “todos os homens nascem livres e iguais”, e que “temos mais trabalho a fazer” e por aí afora, atravessam do começo ao fim o discurso de Obama. O apelo ao sentimental figura como uma baliza constante nos argumentos do presidente, em frases como essa: “Nós jamais iremos esquecer as palavras dos líbios que se levantaram naqueles primeiros dias da revolução e disseram: ‘nossas palavras são livres agora’. É um sentimento que você não consegue explicar.” É evidente o poder persuasivo que esse tipo de retórica exerce sobre as pessoas. Falando na Líbia, deve-se lembrar que a OTAN já sinalizou que não pretende sair tão cedo do país. A disputa pelos polpudos contratos para a reconstrução do país já começou. O interesse por trás da guerra é, portanto, explícito.

A Primavera Árabe oferece-nos um exemplo privilegiado a partir do qual se pode analisar a política de dois pesos e duas medidas dos EUA. Enquanto que os regimes da Tunísia, do Egito, da Líbia, do Irã são tratados agora como ditaduras sanguinolentas, corruptas, que massacram e massacravam seu povo, Obama põe panos quentes sob as ditaduras do Iêmen e do Barein, um “amigo próximo” nas palavras do presidente. Não que não sejam todas ditaduras odiosas. Mas o fato é que os EUA não têm, sabidamente, qualquer escrúpulo em conviver amigavelmente com qualquer ditadura sanguinolenta. A questão, para eles, é se tal ou qual ditadura é ou não favorável ao seu imperialismo. Até explodir a revolta líbia, em março deste ano, Kaddafi era o mais novo ditador queridinho do ocidente. Hoje voltou a ser o terrorista impiedoso da década de 1970-80. Enquanto isso, a Arábia Saudita, talvez a nação mais feudal ainda existente, uma das maiores violadoras daqueles direitos humanos tão protegidos pelos EUA, é o maior parceiro norte-americano no Oriente Médio depois de Israel. A monarquia de Bahrein, que tem estreitas ligações com a monarquia saudita, é sede da Quinta Frota Americana, local estratégico para dar suporte à guerra no Oriente Médio, o que explica o tom de voz moderado e amigável do presidente para com os ditadores da ilha.

Mas a paciência do ouvinte se esgota mesmo quando Obama fala de direitos humanos. Trata-se de um conceito de uso extremamente ideológico e que desempenha função essencial na legitimação da política imperialista americana. Ter que ouvir dos EUA, notórios violadores dos direitos humanos, sobre como eles se importam e lutam pelo respeito a esses direitos no mundo é ultrajante. Segundo Obama, os EUA “sempre servirá como uma voz para aqueles que foram silenciados”, e que eles “baniram aqueles que abusam dos direitos humanos de viajar ao nosso país”. Então, o que fazia Netanyahu no Congresso dos EUA a quatro meses atrás? Ora, Israel é, segundo seu próprio primeiro-ministro em seu discurso na Assembléia Geral, o país que ostenta o mérito de ter mais condenações na ONU do que todos os demais países juntos. E, nada obstante, os castos EUA são seu maior parceiro. De fato, são eles que bancam financeiramente os crimes israelenses na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Só para se ter uma ideia do tamanho do desrespeito de Israel aos direitos humanos, basta saber que o país mantém um bloqueio criminoso à Faixa de Gaza, invadindo e bombardeando frequentemente um território ocupado e utilizando armas proibidas pelas convenções internacionais. Além disso, Israel é o único Estado no mundo que mantém oficialmente crianças como prisioneiros políticos (são cerca de trezentas).

E isso nos leva à questão palestina e ao pedido de reconhecimento feito por Abbas na ONU. O único momento em que, com efeito, Obama não mente ou omite ou tergiversa descaradamente em seu discurso é quando afirma que o “compromisso americano com a segurança de Israel é inabalável. Nossa amizade com Israel é profunda e duradora”. De fato, e isto se reflete na posição que os EUA tomaram diante do pedido de reconhecimento palestino: se opõem e vão vetar resolutamente. A justificativa não poderia ser mais estúpida: a paz “não virá através de declarações e resoluções na ONU”, ela deve ser alcançada unicamente pelas “partes” em litígio. A referência constante ao termo “partes” não é mero acaso. Sua finalidade é fazer parecer que se trata de uma negociação entre iguais, não uma relação de força na qual Israel impõe suas vontades sobe os palestinos. A verdade é que o processo de paz é uma farsa, montada com a ajuda da OLP para desviar o foco da real questão: a questão palestina não é senão uma limpeza étnica. Não diretamente é claro, mas a finalidade é a mesma: ocupar os territórios palestinos. Hoje, apenas 40% da Cisjordânia resta aos palestinos.

O discurso de Obama chega a tal ponto de ridiculez, que a questão palestina acaba por parecer um problema amoroso. É assim que Obama diz que só as partes podem se entender, e que, para isso, eles devem sentar juntos “para ouvir um ao outro, e para entender as esperanças de cada um e os medos de cada um”. Ou quando ele diz que “cada lado tem que ver o mundo através dos olhos do outro”. Mais exemplos da massa sentimentalista com que Obama sedimenta seu discurso. Tudo isso apaga, pura e simplesmente, toda a história real do conflito, bem como as condições reais em que ele se encontra atualmente. Qualificar a iniciativa da ANP de pedir reconhecimento diretamente na ONU ao invés de sentar novamente na mesa de negociações, paralisadas pela recusa israelense em congelar a expansão dos assentamentos, como um ato unilateral é uma ofensa a inteligência média de qualquer pessoa. Unilateral é, antes, o modo como Israel conduz e manipula as negociações.

Mas o argumento supremo dos EUA é a questão da segurança. E Obama baseia seus argumentos em “fatos” que “não podem ser negados”. “Israel está certado por vizinhos que travaram repetidas guerras contra ele. Os cidadãos de Israel têm sido mortos por foguetes atirados sob suas casas e pelas bombas suicidas em seus ônibus”, etc. É perfeitamente visível o quanto são tendenciosas essas afirmações do presidente americano, e o quanto elas obscurecem e omitem a complexa rede de fatores que constituem a questão palestina. Apaga completamente as causas da guerra entre Israel e os países árabes da região, e o porquê dos foguetes caseiros que os militantes de Gaza lançam sobre uma só cidade de Israel (já que eles não têm força para chegar a outras cidades). Para cada israelense morto por um desses foguetes (o que é relativamente raro), Israel assassina centenas de vezes mais na Cisjordânia e sobretudo em Gaza, direta e indiretamente, quando não deixa entrar ajuda humanitária, quando impede os palestinos de sair dos territórios ocupados, quando bombardeia a região com munição altamente letal. Isso também “são fatos”, senhor presidente, que também “não podem ser negados”.

Como não poderia deixar de ser, a fala de Obama chega até o Irã. Neste e em outros momentos, a fala do presidente parece algo irreal, beirando as raias da loucura. Enquanto a humanidade se vê enredada numa torrente de problemas tão sérios e urgentes como não se via a algum tempo, como a persistência da crise, as sublevações na Europa, a fome na África, os EUA preferem gastar seu discurso na ONU acusando o Irã de “zombar” de seus esforços para evitar a proliferação das armas nucleares. Sobre a crise, nenhuma palavra que valha a pena, nenhuma proposta concreta, apenas trivialidades do tipo “temos que trabalhar duro”. Obama limita-se a apontar suas ações para fomentar o crescimento da economia e a criação de empregos, mas nem uma palavra sobre o papel dos bancos e instituições financeiras na crise. Nenhuma palavra sobre os 16 trilhões de dólares absorvidos somente nos EUA pelos bancos para restaurar a bolha que eles mesmos criaram. Nenhuma palavra sobre a recessão que está sendo imposta aos países periféricos da zona do euro para que cumpram o pagamento de suas dívidas em detrimento da população trabalhadora.

Por fim, Obama reservou o pedacinho final do seu discurso para falar de outras coisas importantes tais como fome, doenças, meio ambiente etc. Entre as questões superficialmente colocadas por ele, vale a pena observar o chamado que o presidente faz para que nos juntemos a ele na Organização Mundial da Saúde a fim de “fortalecer nosso sistema público de saúde”. Confesso que fiquei um tanto confuso com a proposta. A qual sistema público de saúde Obama se refere? Dos EUA é que não pode ser, já que eles não têm essa instituição, digamos, comunista. Enfim, em que sentido Obama quis dizer isso é um enigma, já que entre as medidas tomadas recentemente para diminuir a dívida pública americana, às quais Obama referiu-se pouco antes em seu discurso, inclui precisamente cortar gastos nos programas sociais americanos voltados à saúde, o Medicare e o Medicaid.

Em suma, o cinismo e a hipocrisia são as únicas coisas que sobraram no discurso de Obama. A mídia esconde esse fato, claro. Cabe a nós denunciá-los.
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